Quem é que disse que eu já fui hippie?

09/02/2010 - Deixe seu recado!

Não sei direito quando foi que isso começou. Mas, a maioria das coisas que eu sempre quis ser nessa droga de vida, e até umas coisas que eu fui e tinha orgulho de ser, acabaram se tornando quase um xingamento. Ou, em casos mais leves, uma espécie de gozação.

Outro dia desses mesmo, uns caras me chamaram de comunista. Eles falaram – E aí, Artur, você continua comunista? Ah Ah Ah Ah. Eu não sei direito o que eles acharam de tão engraçado nesse negócio, mas eles riram até escorrer lágrimas. Quer dizer, nos anos 70, ser comunista era um ato de coragem. Era até meio charmoso. Quando eu tinha dezessete anos, eu me lembro de ter falado que era comunista numa aula do cursinho, e falei bem alto, para todo mundo ouvir. Foi um deus nos acuda. Mas, na hora do intervalo, duas ou três garotas se encostaram perguntando se eu não queria ler “O Capital” no apartamento delas. E, agora, comunista virou gozação.

Do mesmo jeito que ser hippie. Para quem não é daquela época, os hippies só desejavam paz e amor. Ser hippie era ser livre. E, muito antes dessas reuniões todas da ONU sobre o clima, os hippies já pregavam a volta à natureza e lutavam por uma vida com menos consumismo e menos poluição. Bem, só para você ver como as coisas mudam, hoje em dia eu não posso deixar a minha barba crescer nem dois ou três dias, que sempre aparece um peão pra me falar – Ô Artur, vai fazer essa barba, tá parecendo até um daqueles hippies Ah Ah Ah Ah.

E por falar em barba, tem o negócio do PT também. Não faz muito tempo, qualquer sujeito antenado votava no PT. Ser do PT era uma atitude respeitada até pelos adversários, já que a sigla era sinônimo de honestidade e de solidariedade. E isso sem contar a inteligência. Todos os grandes intelectuais, por uma razão ou outra, ou eram do PT ou eram simpatizantes. Resumindo. Ser do PT significava, basicamente, ser honesto e intelectual. E hoje em dia… bem. Você sabe o que significa ser do PT para a maioria das pessoas hoje em dia.

Sobrou até, vejam vocês, para o Caetano Veloso. O Caetano sempre foi um dos meus maiores ídolos. Ele era tudo o que eu queria ser. Revolucionário. Romântico. Cabeludo. Andrógino. Politizado. Aí, num fim de semana desses, o Caetano apareceu no “Altas Horas”, da Globo, e minha sobrinha mais nova olhou pra mim e tascou:

- Ô Tio, quem é esse velhinho?

Eu, vagarosamente, olhei para o teto. E comecei a chorar.

Bum bum paticumbum burungundum

07/02/2010 - Deixe seu recado!

Começou. Aliás, começou já jaz uns bons dias, eu é que estou meio atrasado. É o carnaval. As coisas todas, agora, só lembram o carnaval. Mesmo coisas que não tem nada a ver com carnaval, são quase que obrigadas a entrar no ritmo. Na televisão, então, você vê de tudo quanto é coisa entrando no ritmo do carnaval. As Casas Bahia já devem ter começado seu carnaval de ofertas. Se não elas, o Magazine Luíza, as Americanas, uma dessas. Todo ano tem. Ofertas que são a alegria do povo. A alegria contagiante em 17 vezes sem juros. Bum bum paticumbum burungundum. Eu me lembro de uma vez que até o Bombril teve um comercial de carnaval, com aquele carequinha de óculos apontando os dois dedos para cima, simulando uma dança, e assoprando um apito. Era o Bombril no carnaval. Não lembro direito como eles fizeram para juntar Bombril com carnaval, mas não deve ter ficado de todo mal, porque qualquer coisa que aquele carequinha de óculos fizesse acabava ficando engraçado. Bum bum paticumbum burungundum. E os bancos? O Bradesco, por exemplo, lançou esse ano um negócio esquisito chamado Concurso Bradesco Quiz Carnaval Brasileiro. Ou algo assim. Para ganhar, o cara tem que responder lá umas perguntas sobre o carnaval brasileiro e esperar um sorteio. Bem, eu posso ser um babaca, mas um banco é uma coisa que deve primar pela ordem, pela seriedade. E carnaval é justamente o oposto. É o caos, a bagunça. Agora, me diz aí. O que é que tem a ver carnaval com uma instituição bancária? Bum bum paticumbum burungundum. Quem responder, ganha uma temporada em Salvador, com direito a levantar as mãozinhas para cima e ficar balançado de lá para cá quando passar o trio elétrico da Ivete Sangalo. Bum bum paticumbum burungundum. A coisa pega até os telejornais. Os telejornais mostrando o trabalhador brasileiro, sempre feliz e alegre, costurando suas fantasias e preparando a Marquês de Sapucaí para o maior espetáculo da Terra.

E, é claro, como poderiam deixar de faltar. Os comerciais de cerveja. Um mais animadinho que o outro. Aquela mulherada suada sob o sol de 40 graus, vestindo três lantejoulas e uma pulseirinha de pano do Senhor do Bonfim. Tem um amigo meu que chegou no bar e pediu uma Brahma e começou a olhar dos lados. Passou um pouco, ele começou a ficar nervoso. Pediu outra, e outra. Aí ele olhou para mim e perguntou:

- Vem cá, que horas que todas aquelas loiraças de biquini vão aparecer, hem?

Bum bum paticumbum burungundum.

Ponha-se no seu devido lugar

04/02/2010 - Deixe seu recado!

Esse negócio de Dengue faz a gente não apenas ficar doente, mas também nos coloca no nosso devido lugar em relação ao planeta, ao universo e tudo o mais. Porque, veja bem. Quando a gente morre num terremoto, por exemplo, nós morremos numa coisa imponderável, grande demais para ser controlada ou prevista. Ou num furacão. Ninguém sabe direito, até hoje, como ou porque diabos surge um furacão, e muito menos uma maneira de prever o surgimento de um. E teve também aquele baita asteróide que, segundo os cientistas, caiu por aqui uma vez, decretando a extinção dos dinossauros e o início da era dos mamíferos sobre a Terra. Mas, com essas tragédias todas, nós já estamos mais ou menos conformados. Elas ultrapassam e muito nossa capacidade de desafiá-las e já quase nem tentamos mais, essa é que a verdade.

Bem diferente desse mosquitinho da Dengue. Um mosquito é uma coisa meio banal, do qual a gente está acostumado a se desvencilhar com uma simples abanada de mão, uma soprada ou, no máximo, uma chinelada. Mas esse mosquito da Dengue é um verdadeiro inferno. Para você ver só uma coisa, entre 2008 e 2009, foram mais de um milhão de casos de dengue no Brasil e mais de seiscentas mortes notificadas. E há quanto tempo que a gente ouve essas campanhas aí, para combater o mosquito da Dengue? Parece que desde que eu me conheço por gente, esses caras ficam aí, avisando para a gente não deixar a água empoçar em cima da casa, não deixar a água parada nos pratinhos de plantas, para deixar as garrafas de ponta cabeça no quintal. E, isso a gente não pode negar, até os governos fazem a parte deles. Pelo menos, aqui na minha casa, todo ano passam uns agentes sanitários, dão uma olhada no quintal, ensinam para a gente as providências que devemos tomar, e depois de uma semana ainda passa aquele caminhão soltando fumaça pelas ruas. E adianta alguma coisa? Pois não adianta. Todo ano, o tal mosquito da Dengue surge sabe-se lá de onde e recomeça a procriar, como se ninguém tivesse feito coisa nenhuma.

É por isso que eu te falo. O ser humano é muito metido a besta. Acha que está com a bola toda, mas com todos seus iphones, notebooks e aviões supersônicos, não dá conta de exterminar nem um bichinho desse tamanhinho, ó, que não dá nem uma cabeça de fósforo.

No fundo, no fundo, nossa espécie é um verdadeiro fiasco.

Vamos raptar umas criancinhas?

02/02/2010 - Deixe seu recado!

Sabe aquela história de “onde você vê uma crise eu vejo uma oportunidade”, frase que as pessoas que se consideram otimistas jogam na nossa cara quando a gente se sente meio desanimado ou prestes a chutar o pau da barraca por causa de alguma coisa que deu muito errado em nossas vidas? Pois então. Eu sempre fui meio encanado com essa frase. Para falar a verdade, eu acho que nunca consegui entender ela direito. Porque, por mais que eu me esforce, eu nunca consigo ver oportunidade em porcaria de crise nenhuma. Quando eu estou em crise, eu estou em crise e pronto, e o máximo que eu consigo almejar é sair dela mais ou menos do mesmo jeito em que entrei. No meu modo de entender, se são necessárias crises para se obter mais oportunidades, eu, sinceramente, prefiro viver sem ambas.

E antes que alguém me venha com aquela balela de que, em chinês, “crise” se escreve do mesmo jeito que “oportunidade”, isso não é verdade. Pode procurar aí qualquer chinês que ele vai confirmar. Crise em chinês é crise mesmo, e essa história deve ter sido inventada por algum desses caras que dão palestras de auto-ajuda para empresários do interior.

Agora, tem uns caras que, parece, entenderam muito bem o significado da tal frase. Outro dia desses, dez norte-americanos foram presos no Haiti acusados de terem “roubado” dezenas de crianças do país, com intenções de sabe-se lá o quê. Tudo bem. Os caras ainda não foram julgados por um juiz de verdade, nem submetidos a um júri popular e tudo o mais. Mas eu não me espantaria nadinha se esses sujeitos não estivessem traficando crianças para serem escravas sexuais ou coisa pior. Até mesmo a ONU já afirmou seu temor de que as crianças haitianas órfãs ou que ficaram separadas de suas famílias após o terremoto “sejam vítimas de sequestro, venda, tráfico ou escravidão”.

Não seria a primeira vez na história que pessoas fazem coisas esquisitas visando lucro. Segundo o Congresso Mundial Judaico, por exemplo, os nazistas conseguiram juntar seis mil quilos (6 toneladas) de ouro tirados de dentes de judeus (!) durante a Segunda Guerra Mundial e, depois da ocupação pelos Aliados, ninguém sabe onde tudo isso foi parar.

Quer dizer, onde o mundo todo vê uma tragédia, sempre tem um monte de babaca vendo uma oportunidade de ganhar algum com isso. Nem que seja em cima de obturações dentárias.

Ou de crianças.

Quem que ter um caso com a mulher do Hugo Chávez?

31/01/2010 - Deixe seu recado!

Eu não sei se você já ouviu falar desse rolo que está acontecendo entre o Google e a China. Tudo bem. Você pode achar que não tem nada com isso, porque você está mais preocupado com o buraco que apareceu na frente da sua casa depois da última chuva. Mas, hoje em dia, parece que até nessas brigas do outro lado do mundo acaba sobrando é para a gente mesmo.

Veja só você o que está acontecendo. Acontece que o Google descobriu que uns caras conseguiram entrar nos seus servidores e ler os e-mails de alguns dissidentes do governo chinês. O governo chinês disse que se sentia no direito de fazer isso. Os Estados Unidos entraram na briga, dizendo que o governo chinês estava violando as liberdades individuais dos seus cidadãos e todas essas coisas que os Estados Unidos gostam de proclamar pelo mundo. E é aí que a coisa pega. Os chineses responderam aos americanos com uma simples frase:

“Oras, todos os países fazem isso, a gente está fazendo exatamente o que os Estados Unidos fazem quando desconfiam que alguém é terrorista”. Ok, ok, a frase era em chinês, mas eles queriam dizer mais ou menos isso aí mesmo que eu escrevi.

Bem, os Estados Unidos, até agora, não responderam decentemente a essa acusação, o que, de certa forma, dá a entender que realmente todos os países do mundo monitoram os nossos e-mails, os nossos orkuts, os nossos messengers, os nossos skypes, os nossos celulares e tudo o mais. E é aí que entramos você, eu, a minha tia Concheta, e até o meu netinho que já tem até um blog, precisa ver que gracinha. Se o governo pode entrar no meu e-mail na hora que lhe der na telha, eles sabem coisas de mim que eu não sei bem se eu queria que eles soubessem.

Não é o caso, evidentemente, mas vamos supor que eu estivesse tendo uma aventura extra-conjugal com a dona Marisa, a nossa calada primeira-dama, e que nós dois trocássemos periodicamente e-mails e torpedinhos amorosos. Isso quer dizer que, de uma hora para outra, a polícia federal poderia baixar aqui em casa e me prender por desacato à autoridade, ou até me acusando de insanidade para me internarem num sanatório de doentes mentais, o que, aliás, seria muito mais coerente. Você pode dizer “Mas aí você está exagerando”. Bem, é claro que eu estou exagerando. Só que na China isso já está acontecendo. Vai alguém tentar ter um caso com a primeira dama chinesa, ou seja lá como eles chamam a mulher do presidente por lá. Ou então com a mulher do Hugo Chávez. Vai ter um caso com a mulher do Hugo Chávez para você ver só uma coisa.

E o Hugo Chávez está aqui, ó, bem do ladinho da gente.

Sobre a evaporação dos seres humanos

29/01/2010 - Uma resposta

O gostoso de escrever, eu acho, é que, querendo ou não, uma hora ou outra, a gente precisa parar para pensar. Não é todo mundo que arruma tempo para pensar. E nem eu, agora, estou com tempo. Tenho um milhão e meio de problemas para resolver. Problemas que, para falar a verdade, se eu não estivesse escrevendo, também não estaria resolvendo porcaria nenhuma. A gente fica mais é protelando. Protelar é um jeito que a gente arruma de não resolver o problema e nem de pensar sobre ele. A televisão é boa para se protelar. A gente fica ali, mudando de canal, olhando as imagens, e quando vê já é hora de dormir e a gente nem resolveu nada nem pensou muito sobre. Mas quando a gente senta para escrever, tem que pensar. Não dá para escrever sem pensar. Quer dizer. Até dá. Têm umas coisas que eu já escrevi por aí que eu vou te falar uma coisa. Se tivesse pensado mesmo, com afinco, não tinha escrito aquela bobagem. Mas são casos raros. Normalmente, antes de escrever, eu paro, olho bem para a tela do computador, e fico pensando numa maneira de preenchê-la com alguma coisa que tenha alguma serventia para a humanidade. Nem se for para causar um sorrisinho no canto da boca de alguém, uma informaçãozinha interessante para se comentar na mesa do bar, qualquer coisa assim. A gente fica ali, olhando para o Word aberto no computador, clica numas coisas, desclica, dá Ctrl+Z, levanta, acende um cigarro. E fica pensando nas coisas. É gostoso pensar. Hoje, antes de escrever essa crônica, por exemplo, eu estava pensando em quanta gente eu já conheci nessa vida. E de quantas eu nunca mais ouvi falar. A vida da gente é assim. Pessoas entram, pessoas saem. Às vezes, a gente está olhando para uma pessoa pela última vez na vida e nem sabe. Não, eu não estou falando de morte nem nada disso. As pessoas simplesmente se evaporam. Um dia são praticamente nossos melhores amigos, ou amigas, ou namoradas, ou colegas de trabalho, ou tios, ou primos. E, no outro dia, a gente não sabe mais nem em que cidade moram, o que estão fazendo da vida. E tem aqueles que a gente até esquece o nome. Quando eu tinha dezoito anos e cursava Arquitetura em Moji das Cruzes, eu morei numa república com quatro caras. Certo, eu lembro o nome deles, também não é assim. Arlindo, Adriano, Leandro e Pedro. Éramos, é claro, os melhores amigos do mundo. Inseparáveis. Traçávamos planos para o futuro. Só que hoje (no tal futuro) eu não consigo me lembrar nem do sobrenome deles. Eles sumiram por aí. Evaporaram.

O ser humano deve ser feito de algum material extremamente volátil. Evapora a toa, a toa.

O que é que a gente faz com tanta foto?

28/01/2010 - Deixe seu recado!

Eu me lembro da primeira vez que eu peguei uma câmera fotográfica digital nas mãos. Era uma coisa bem obsoleta pelos padrões de hoje, evidentemente, mas, mesmo assim, eu me lembro dela como se fosse uma coisa de outro mundo.

- Quer dizer que a gente pode ficar tirando fotografia o quanto quiser?

- É.

- E depois, é só a gente escolher qual fotografia manda revelar?

- É.

- Mas que maravilha, hem? E as fotos ficam tão boas quanto as de filme?

- Bem, aí é um problema.

E era mesmo. As primeiras máquinas digitais eram uma verdadeira porcaria. Para você ver uma coisa, a primeira delas, desenvolvida pela Bell Labs em 1969, capturava imagens com uma resolução de 0,01 megapixels. Bem, mas é claro que não foi uma dessas que eu me lembro de ter pegado pela primeira vez. A que eu peguei era uma Sony, modelo Mavica, que capturava imagens com fantásticos 0,3 megapixels e custava algo em torno de US$ 12 mil. Fui apresentado a tal proeza tecnológica pelo pai de um amigo meu, no tempo que eu ainda morava em Campinas e tinha o estranho costume de frequentar a casa de alguns milionários. E ele me apresentou mais como um troféu do que por acreditar mesmo no futuro daquele treco.

- Nenhuma maquininha dessas vai conseguir competir com o velho e bom filme… – ele me disse, com os olhos no horizonte como gostam de fazer os visionários.

Bem. Ultimamente, além do preço ter despencado ladeira abaixo, as máquinas digitais tiram fotos de mais de 10 megapixels, e simplesmente não há mais diferença entre as revelações das câmeras digitais e das que ainda usam filme. Se é que ainda fabricam filmes.

O que nos coloca na seguinte situação. Hoje, nós podemos fazer quantas fotos e filmes quisermos e publicar isso praticamente a custo zero em blogs e comunidades na internet. O problema agora é o inacreditável número de imagens e filmes babacas que a gente tem de ficar trombando a toda hora. É só fazer uma pesquisazinha no youtube que você vai ver uma coisa. São imagens de gente fazendo careta, filminhos de festinhas familiares, uns tontos simulando danças engraçadas, uma bobajaiada sem tamanho que, antigamente, pelo menos ficavam bem escondidas dentro das gavetas. Tem gente que diz que isso é muito bom e que a memória dessa geração estará bastante documentada e poderá ser lembrada como nenhuma outra foi.

Eu, sinceramente, duvido muito que existam tantas coisas assim a serem lembradas. Para falar a verdade, a maioria das coisas eu venho é tentando esquecer.

Era da Comunicação uma ova

26/01/2010 - Deixe seu recado!

E dizer que antigamente se reclamava da televisão… Que ninguém mais conversava numa família, que agora ficava todo mundo na frente da TV sem prestar atenção em mais nada e tudo o mais. Os mais velhos reclamam disso desde que eu me conheço por gente. Que no tempo deles o pessoal colocava cadeiras na calçada e ficava conversando, contando histórias antigas e falando mal da vizinha. Mas que, agora, com essa tal de televisão, ninguém mais conversa numa casa. E, quando conversam, conversam sobre as coisas da televisão, sobre o assassinato da novela das sete e sobre o telejornal.

Depois, os pais da gente começaram a reclamar ainda mais, especialmente quando nós, os seus filhos, começamos a comer na sala, assistindo televisão. Que quando eles eram crianças a hora do almoço e da janta eram sagradas. Eram as únicas horas do dia que a família se reunia para falar um pouco sobre os acontecimentos da escola, do emprego. E que agora vai todo mundo para a sala ver televisão, engolindo tudo às garfadas e praticamente nem sentindo o gosto da comida. E era verdade mesmo. Eu sou de uma geração que cresceu na frente da TV, e nem me lembro mais quando foi que eu sentei com a família em torno de uma mesa para comer alguma coisa.

E agora, pelo visto, chegou a minha hora de reclamar. Vá lá. Se sentar na frente da TV com sua esposa sem praticamente trocar uma palavra durante umas quatro horas, com isso eu já estava mais ou menos acostumado. E quanto a comer na frente da TV, devo confessar que eu sou o primeiro a fazer o meu prato e ir direto para o sofá da sala, equilibrando um copo de suco de laranja numa mão e o prato na outra, para assistir algum desenho animado ou um telejornalzinho mostrando as últimas imagens das enchentes. Mas, como já dizia minha finada avó, as coisas sempre podem piorar um pouquinho.

Hoje, além do fim das refeições em família e do nosso silêncio frente ao poder hipnotizante da TV, o celular não pára de tocar. Eu estou ali, tentando conversar um pouco com minha filha, e ela enviando torpedinhos para as amigas. Tento puxar assunto com meu filho, e ele está no meio de uma caçada intergalática a dragões, pilotando seu playstation. E, enquanto isso, a minha mulher, que sempre foi mais clássica, continua assistindo as suas novelas da Globo.

De vez em quando eu fico pensando que, se eu morrer, minha família só vai se dar conta daqui uns dois ou três meses. E assim mesmo, pelo cheiro.

Ode ao Leite Condensado

24/01/2010 - Deixe seu recado!

Eu realmente não consigo entender como é que a humanidade conseguiu existir antes da invenção do leite condensado. Os cientistas e esses caras todos metidos a intelectuais, sempre quando são perguntados sobre qual foi a maior invenção ou descoberta da história da humanidade, sempre falam sobre umas coisas esquisitas, como a roda, o fogo, a bomba atômica e até o iPhone. Bem, para mim, essas coisas são absolutamente insignificantes quando comparadas com a invenção do leite condensado. O leite condensado é um divisor de águas. Antes do leite condensado, a humanidade não tinha nenhuma perspectiva de vida. Nós já havíamos chegado naquele ponto em que tanto faz como tanto fez. Nosso dia a dia era composto de um eterno acordar-trabalhar-almoçar-trabalhar-jantar-assistir-a-novela-e-dormir sem fim. Não é à toa que começamos a inventar coisas como a psicologia, o existencialismo e o Prozac. A vida estava perdendo completamente o sentido.

E foi aí que surgiu o leite condensado. Um cara chamado Gail Borden, em 1852, estava viajando de navio. Naquela época, nessas excursões transatlânticas, era necessário embarcar vacas para que os passageiros pudessem ter sempre leite fresco a bordo, já que ninguém ainda havia inventado a geladeira.  Contudo, nessa viagem de Gail, a vaca do navio adoeceu e não podia mais fornecer leite. Uma criança morreu por causa disso. O grande Borden, então, estudou uma solução que, de alguma forma, pudesse conservar o leite por mais tempo. Entre uma experiência e outra, Borden acrescentou açúcar ao leite e o desidratou. Experimentou uma colherada e, para sua surpresa, ele percebeu que o mundo era colorido, que a vida tinha um sentido oculto e magnífico e também que sua sogra até que não era uma pessoa tão má assim. Ele havia inventado o leite condensado e, ao mesmo tempo, já tinha sucumbido aos seus incríveis poderes curativos.

Como todas as invenções revolucionárias, o leite condensado também demorou um pouco para pegar aqui no Brasil, onde só chegou em 1876, na Bahia, estado que sempre se mostrou aberto a experiências gustativas de ponta, como já demonstraram o vatapá, o acarajé, o caruru e o xinxim de galinha. Depois disso, disseminou-se rapidamente por todos os outros estados, tornando a vida de milhares e milhares de brasileiros numa grande festa, repleta de brigadeiros, beijinhos e pavês de bolacha maizena. Já eu, particularmente, sempre preferi mesmo ao natural, fazendo dois pequenos furos na lata e ficar chupando, bem devagarinho.

Aí, é só sentar na varanda de casa e, entre uma chupadinha e outra, observar o mundo passar e concluir que, apesar de tudo, o ser-humano ainda deve ter salvação.

A volta das mortas-vivas

21/01/2010 - Deixe seu recado!

O que era para ser um show de beleza e sofisticação,fica parecendo até um filme de terror do George Romero. Estou falando desses desfiles de moda, em que as modelos parecem todas um bando de zumbis esqueléticos, com braços e pernas descarnadas, olheiras profundas e andar cambaleante, sendo aplaudidas por milionários gordos e suas fartas esposas. Nessa última São Paulo Fashion Week, por exemplo, teve gente que ficou até revoltada. Saiu artigo na Folha de S.Paulo e tudo o mais, dizendo que alguém tem de fazer alguma coisa antes que aquelas meninas morram de anorexia. E são meninas mesmo, algumas de apenas 18 anos, ou até menos.

Eu não sei exatamente em que ponto da evolução humana resolveu-se que uma mulher, para ser bonita, precisava ser magra. Ou até mesmo os homens. Durante praticamente toda a história da humanidade, ser gordo significou ser rico, bem de vida, ou então alguém muito culto, que passava sua vida em bibliotecas ou laboratórios, lendo, experimentando e se aperfeiçoando. Pode reparar nas pinturas da época. Os reis, os condes, os bispos, os papas, todos eles eram muito gordos. Veja aí o nosso D. João 6º, por exemplo, que é sempre mostrado com aquela pança enorme e geralmente lambuzado de frangos assados e vinhos tintos. Os magros, pelo contrário, eram os trabalhadores braçais, ou escravos, ou seja, aqueles que eram OBRIGADOS a fazer exercícios físicos para ganhar a vida. Quer dizer, não deviam ser considerados um bom partido e, muito menos, eram o exemplo mais perfeito da espécie humana.

Agora, de uns tempos para cá, o mundo virou de cabeça para baixo. Quem tem um monte de dinheiro para comer o que quiser, passa fome porque precisa ser magro. Essas modelos mesmo, não vamos mentir, ganham verdadeiras fortunas só para ficar andando para cá e para lá, mas nem com essa dinheirama toda elas podem comer um sundae de chocolate ou uma pizza de calabresa como os pobretões fazem praticamente  todo final de semana. Outro dia desses mesmo eu li uma mensagem no twitter dizendo que seria uma boa idéia eles mandarem essas modelos para o Haiti, para disseminar sua experiência de uma vida sem comida. Quer dizer, a coisa toda parece mesmo uma brincadeira de mal gosto e…

- Querida, eu nunca falei que você está gorda.

- Não falou mas fica olhando.

- Mas fico olhando o quê, meu deus do céu?

- O MEU PRATO! PÁRA DE OLHAR PARA O MEU PRATO!