Archive for julho \29\UTC 2010

A Sensacional Mulher Palhaça*
29/07/2010

– Eu quero ser Palhaça.

– Aahahahahahahha…

– Essa menina não tem jeito mesmo…

– Acho que você não entendeu, querida, a titia está perguntando o que você vai fazer na faculdade. O seu irmão está fazendo Arquitetura. E você?

– Eu não vou fazer faculdade. Eu vou ser Palhaça.

– Aahahahahahahha…

– Pára de rir, Matilde.

– Mas, querida… Você precisa ter uma profissão!

– Palhaça é uma profissão, não é?

– Palhaça? Eu nunca ouvi falar.

– Se não existe, eu vou inventar. Tem tanta profissão sendo inventada hoje em dia. Programador de Sistemas. Webdesigner. A senhora sabe o que é um Webdesigner, mamãe?

– Aahahahahahahha…

– Matilde, faça o favor… Webdesigner não tem a ver com internet?

– Hoje em dia tudo tem a ver com internet, mamãe.

– Aahahahahahahha…

– Olha. Se você está tentando me irritar, conseguiu.

– Tá bom, eu paro de rir.

– Eu não estou falando com você, Matilde. Eu estou falando com a minha filha.

– Eu não estou querendo irritar ninguém. Muito pelo contrário. Eu quero ser Palhaça, eu quero fazer as pessoas rirem.

– Ninguém ri de uma Palhaça.

– Como não ri? A tia Matilde não pára de rir.

– Aahahahahahahha…

– Matilde!

– Mamãe. Não adianta brigar. Eu já estou resolvida. Vou ser Palhaça e pronto.

– Pronto nada, que eu vou chamar já o seu pai.

– Chama. O que é que ele pode fazer?

– Filhinha. Põe um pouco de juízo na sua cabeça. Onde já se viu? Uma mulher Palhaça?

– E homem Palhaço pode?

– Já é mais normal.

– Porque é normal?

– É normal porque… porque… Porque é normal, oras.

– Então tá bom. Zézinho!

– O que é que seu irmão tem a ver com essa história?

– Zézinho!

– Que foi?

– Pronto. Pode falar.

– O que é que você tem pra falar, Zézinho?

– Sabe o que é mãe… Eu vou largar a faculdade de Arquitetura.

– Largar a faculdade?

– É. E vou entrar para o circo para ser Palhaço.

– Mas será possível que todo mundo nessa família resolveu ser Palhaço, deus do céu!

– Não mãe. Só eu. A maninha só estava preparando o terreno.

– Estava. Agora eu já estou achando uma boa idéia.

– Aahahahahahahha…

– Quer fazer o favor de calar a boca, Matilde!

* Nota do autor: essa crônica já foi publicada há uns dez anos. Saiu, inclusive, no meu livro “PAH”. Republico-a agora porque, tal qual aquele polvo alemão, dei uma de vidente. Dia 31 de julho de 2010, sábado, às 17h, minha filha sobe ao palco do novo  “Centro de Convenções Jornalista Nelson Camargo”, em Votuporanga, para apresentar o espetáculo teatral “Cabaré de Palhaços”, no qual ela é… uma PALHAÇA! Estão todos convidados a comparecer. A entrada é franca.

Anúncios

Juiz filhadaputa!
27/07/2010

Agora. Esse povo está ou não está se metendo em coisa para a qual não foram chamados? Depois de proibirem o cigarro em lugares que o próprio dono quer autorizar, depois de proibirem a gente de fazer piadinhas envolvendo qualquer candidato às próximas eleições, depois de proibirem os pais de darem umas palmadinhas nos bumbuns dos próprios filhos mesmo quando eles se atiram no chão do supermercado exigindo um doce qualquer, agora eles conseguiram se superar. Eles proibiram o torcedor de falar palavrões dentro dos estádios!

É simplesmente inacreditável, mas não há mais nada a se fazer. As mudanças no Estatuto do Torcedor já foram sancionadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e estão valendo desde a última quarta-feira. E a lei é bem clara. Ela proíbe a entrada de bebidas, faixas com mensagens ofensivas, XINGAMENTOS DISCRIMINATÓRIOS, arremesso de objetos, fogos de artifício, invasão do campo e incitar a violência. Pena: expulsão imediata do estádio, com a possibilidade de pegar de 1 a 2 anos de prisão mais o pagamento de uma multa.

Eu fico pensando onde é que esses politicozinhos de meia pataca pretendem chegar. Porque agora eles passaram do ponto. Logo, logo, eles vão começar a proibir a gente de tomar banhos mais demorados (afinal, o meio ambiente precisa ser preservado e a água está se acabando), de comer carne gordurosa (porque depois quem paga o tratamento do coração é o SUS), dar umas voltas de carro (o seu prazer de dirigir polui o ar, que é de todos). Talvez até proíbam a gente de fazer sexo sem camisinha porque, afinal, com essa explosão populacional e esse tanto de doença, é um risco desnecessário para a saúde pública.

E dizer que, lá pelos anos 1960, já tinha um monte de gente nas ruas lutando pela liberação da maconha, pelo casamento entre parceiros do mesmo sexo e pela descriminalização do aborto. Como é que dá para acreditar que, depois de 50 anos, iam proibir a gente de fazer piadinhas de políticos, ou de xingar um juiz de futebol, e ninguém ia fazer nada a respeito?

Ok, ok. Você pode até discordar comigo, ou achar que eu estou exagerando. Mas com uma coisa você tem de concordar.  Esse mundo está ficando de uma chatice insuportável. Já imaginou ir a um estádio de futebol, e não poder xingar a mãe do juiz?

Esse povo tá de brincadeira…

Qual é a diferença entra a Dilma, o Serra e o bambu?
25/07/2010

Não sei se você sabe, mas proibiram o brasileiro de fazer uma das coisas que ele mais gosta. O Tribunal Superior Eleitoral, por meio da resolução 23.191/2009, baixou um decreto proibindo qualquer manifestação que “degrade ou ridicularize candidato, partido político ou coligação”. Quer dizer, agora, ninguém mais pode fazer piada de político. E não vai achando que é brincadeira não, porque é a mais pura verdade. Durante o período eleitoral, ninguém pode fazer qualquer gracinha envolvendo políticos ou partidos que se candidataram. Nem o “Planeta & Casseta”, nem o CQC, nem o “Pânico”. E nem você ou eu. Agora, me diga uma coisa. O que é que a gente vai ficar fazendo nos bares e nas lanchonetes nos nossos fim-de-tarde, enquanto tomamos umas cervejas?

– Você sabe qual é a diferença entra a Dilma, o Serra e o bambu?

– Pshhiuuuu… Fala baixo, rapaz!

– Como assim, fala baixo? É uma piada! Piada a gente fala alto!

– Pshhh… Então, conta outra que não tenha o Serra e a Dilma…

– Oras, mas sem eles, não tem graça!

– Então senta aí e fica quieto. Tá querendo ser preso?

– Mas, pombas, ninguém aqui do bar vai me dedurar, vai?

– Sei lá, as paredes têm ouvidos…

– Bem, tem aquela outra. Estavam num avião um argentino, um português e um brasileiro. Aí, o avião começou a cair, mas só tinha um pára-quedas e…

– Pode parar, pode parar… Essa eu já conheço!

– Você conhece mas a turma aí não conhece, ô estraga prazeres…

– Não é isso, é que eu sei o FIM da piada, e acho melhor você não contar.

– É, pensando bem, melhor mesmo. As paredes, né?

– Pshhhhhhh.

– Bem, tem aquela outra.

– Qual.

– Aquela, sabe, do Joãozinho? Que a professora perguntou para o Joãozinho “Ô, Joãozinho, quem proclamou a independência do Brasil?” e o Joãozinho respondeu…

– NÃO, ESSA NÃO! PELO AMOR DE DEUS!

– Mas pombas, nem essa?

– De jeito nenhum!

– Bem, aí fica difícil, hem?

– E que tal se a gente fizesse outra coisa, jogasse um truco?

– Boa idéia, vamos jogar umas cartas. Eu embaralho.

– Dá aqui que eu corto.

– Truco pra jogar.

– Seis, ladrão!

– Ladrão? Mas pode falar “ladrão”?

– Sei lá, o que é que vocês acham?

– Melhor não, melhor não…

– É, fala só “seis” que tá bom.

Os chimpanzés e as palmadas
23/07/2010

Agora tem essa lei que está tramitando no Congresso, que proíbe os pais de darem umas palmadas nos filhos. Ou beliscões. Tudo bem com os beliscões. Os beliscões são coisa de pervertido mesmo. Ninguém normal dá um beliscão numa criança. Um beliscão é uma coisa pensada, planejada. E que dura um certo tempo. Porque, para um beliscão realmente valer a pena, a gente tem que pegar num lugar que a gente sabe que dói, e ir torcendo, torcendo, até doer tanto que o adversário desiste. Então, isso não é coisa que se faça com uma criança. Até mesmo porque ela não é nosso adversário, a não ser em casos, como eu já disse, de perversão mesmo. Então, se eles tivessem feito uma lei proibindo o beliscão nas crianças, eu nem falaria nada. Ou talvez até falasse, só que a favor da tal lei.

O que não é o caso das palmadas. Acho que o uso das palmadas para educar os filhos surgiu desde que o primeiro ser humano surgiu na Terra. Talvez, até antes. Porque eu já vi, num desses programas da TV Cultura, tipos “Os Bichos”, que mesmo as fêmeas dos chimpanzés dão uns chega pra lá quando seus filhotes se excedem. É claro que elas não pretendem, com isso, que seus filhotes sofram, que fiquem traumatizados, ou coisa parecida. As mamães chimpanzés querem, apenas, que seus filhotes parem de fazer estripulias e que NÃO caiam do galho da árvore e se espatifem lá embaixo.

Tudo bem. Eu entendo quem propôs a tal lei das palmadas. Tem muita gente que se excede por aí. Uns pais que fazem coisas com os filhos que a gente nem acredita que possa ser verdade. Mas, se você colocar ali, na ponta do lápis, vai perceber que não se trata nem de 1% da população mundial. Do mesmo jeito dessas crianças que pegam armas e saem atirando na escola, matando alunos e professores, como virou moda lá nos Estados Unidos. É claro que é um horror e tudo o mais, um estudante sair por aí, matando seus colegas. Mas nem por isso a gente vai proibir os estudantes de irem à escola, oras.

Então, precisa ficar bem claro uma coisa. Antes que a polícia saia por aí, prendendo pais a torto e a direito, alguém precisa dizer que, na grande maioria das vezes, quando a gente dá uma palmada no nosso filho, estamos apenas tentando fazer com que ele não caia da árvore.

E se espatife lá embaixo. No mundo.

Saber perder o escambau!
20/07/2010

Esse papo de que a gente precisa saber perder é papo furado. Coisa que as mães da gente contavam para acalentar os filhos frustrados. Porque ninguém sabe perder. Eu, pelo menos, toda vez que perco em alguma coisa, já começo a procurar um culpado à minha volta. Não importa quem seja.

A coisa começa lá no vestibular. Se eu não consegui entrar na Unicamp, na PUC ou na Getúlio Vargas, a culpa não foi minha. Foi porque todos aqueles que entraram eram apadrinhados.

– Apadrinhados?

É. A-pa-dri-nha-dos. Você sabe muito bem do que eu estou falando. Nesses lugares, nessas faculdades de bam-bam-bans, só entra quem é apadrinhado. É tudo um jogo de cartas marcadas. E se alguém conseguiu a vaga que eu estava disputando naquela multinacional, é porque tinha coisa ali também. É claro que tinha, ué, só não vê quem não quer.  Só entra lá naquelas multinacionais aqueles mesmos caras de sempre, para o poder mundial continuar nas mãos de quem sempre esteve.

– O poder mundial?

É, isso mesmo, o PODER MUNDIAL! E Concurso Público, então? Vai me dizer que você se conforma quando não consegue passar numa porcaria de Concurso Público para o Banco do Brasil? Eu, pelo menos, fico olhando a lista dos que passaram e já começo a perceber as coincidências. Eu aposto que esse aqui é primo do prefeito. E esse aqui, ó, tem até o nome daquele deputado. Como é mesmo o nome daquele deputado? E esse outro? Esse não é aquele cunhado do governador, que estava metido naqueles escândalos todos? Pois olha aqui se não é!

E ai se quem ganhou aquela promoção que eu estava esperando for uma MULHER. Porque, aí, todos aqueles séculos de machismo que eu consegui domar a muito custo, e que me transformaram no que sou hoje – um homem moderno, justo e livre de preconceitos – afloram como se eu fosse o maior chauvinista da espécie. Porque, vamos falar a verdade, se uma mulher ganha uma promoção dessas, é porque ela deve ter saído com o chefe.

– Saído?

É, pra não dizer coisa pior. Você sabe, essa gentinha faz qualquer coisa para subir na vida, e é por isso que gente como eu, que mantém sua integridade, acaba se dando mal. É porque no mundo só dão chances para os parentes, para os apadrinhados de políticos e para as mulheres que… que…

– “Que” o quê?

Ah, vai se danar. Você sabe muito bem do que eu estou falando…

Vou gastar um pouco ali e já volto
18/07/2010

Na boa. Quem sou eu para ser contra o progresso das pessoas. Ou para falar alguma coisa da liberdade que cada um tem de fazer o que bem entender com o dinheiro que ganha. Mas é engraçado perceber que tudo o que a gente ouvia o pessoal da classe média/baixa falar dos ricaços, não passava mesmo era da mais pura inveja.

Quantas vezes eu não ouvi, num balcão de bar, um pobre coitado reclamando da gastança que seus patrões faziam. Que o patrão tinha a coragem de gastar o que ele ganhava por mês numa televisão, vê se tem cabimento? E a mulher do patrão então, que não sai do cabeleireiro? A mulher deve deixar lá por mês o que eu ganho em um ano! Esses caras que têm dinheiro não estão nem aí para o sofrimento de gente como eu, que tenho ali, de batalhar o pão nosso de cada dia com o suor do rosto! Se eu tivesse um pouco de dinheiro, o senhor sabe o que eu fazia?

– Não. Eu não sei o que você faria.

Pois eu ia dividir, isso é que eu ia fazer. Di-vi-dir. Será que esses ricaços não percebem que tem gente passando fome? É, passando fome sim senhor. O senhor, que parece ser um homem instruído, deve saber disso até mais do que eu. Tem gente por aí, vivendo debaixo da ponte, sem nem ter o que comer. E esses ricaços fazem alguma coisa? Pois não fazem nada! É que o tanto que eu ganho mal dá pra família, mas se eu ganhasse o a grana que esses caras ganham, eu falo uma coisa para o senhor. Eu dividia. Di-vi-dia!

Bem, não vamos dizer que as coisas melhoraram MUITO de lá para cá, mas com certeza melhoraram um pouco, especialmente para as classes c e d. Tanto melhoraram que, segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, “empresas dos setores automobilístico, imobiliário, de cosméticos e de bebidas já investem para elevar o padrão de seus produtos populares para atender de forma diferenciada os consumidores emergentes do país” que agora querem “ter acesso a produtos a que antes não tinham”.

Entre esses produtos, o jornal cita as mesmas TVs 42 polegadas (que custam, diga-se de passagem, bem mais que um salário mínimo), tênis “de marca”, bolsas Louis Vuitton, unhas de porcelana que custam até R$ 400, e produtos para “mega-hair” de até R$ 1.000.

Quer dizer, quando o “povão” ganha algum a mais, acaba fazendo as mesmas bobagens que a tal da “elite”. Só que a prestações.

O que a gente faz da vida
16/07/2010

Outro dia desses, um amigo pediu pra que eu fizesse um curriculum para ele. Sabe esses curriculuns, né? Desses escritos assim mesmo, em latim, pra ficar bonito e a gente mandar para as empresas, tentando uma vaga e tudo o mais. Pois então. Eu cocei a cabeça, pensando no tanto de coisa que eu tinha pra fazer naquele dia, mas como é um grande amigo, desses que não dá para negar esses favores, eu disse que sim, é claro que eu faria o curriculum dele, mas que, se ele quisesse adiantar, existiam milhares de modelos de curriculum na internet. Era só pegar um deles, trocar os nomes, os endereços e as coisas todas que ele já tinha realizado, e estava pronto. Mas o meu amigo me disse que isso ele já tinha feito. Que o que ele queria é que eu fizesse aquilo tudo ficar um pouco melhor.

Tudo bem, eu respondi, achando que se tratasse apenas de colocar umas letras mais sofisticadas, uma formatação de texto mais moderna, sei lá. Marquei uma hora com ele lá em casa.

Quando ele apareceu, me entregou uma folha de sulfite impressa. Era o curriculum dele, e estava até que bastante bonitinho. Com as coisas devidamente separadas, a sua formação acadêmica, suas experiências anteriores. Tudo certinho, sem problema algum.

– O problema? O problema é que deu só uma folha!

O meu amigo, que ainda não completou nem 24 anos, estava inconformado. Depois de tudo o que ele fez na vida. Estudou desde os três ou quatro anos. Começou a trabalhar com quinze. Teve dois ou três empregos. Entrou na faculdade. Casou. Construiu uma casa. Teve um filho.

– E depois de tudo isso, na hora de fazer um curriculum, dá só uma folha, pombas?

Eu fiquei olhando para aquela folha na minha mão. Realmente, não dá para acreditar que criar um filho não possa ser citado em lugar nenhum de um curriculum que se preze. Muito menos que a construção de uma casa não possa ser encaixada no item “experiências anteriores”.

Tudo bem. Para o curriculum dele dar aí, pelo menos umas duas páginas, a gente sempre podia aumentar o tamanho da fonte, ou inventar qualquer coisa tipos “curso autodidáticode informática avançada”. Mas acho que nada disso iria resolver o problema do meu amigo. Porque o problema dele é o problema de toda humanidade. Olhando assim, por cima, até parece que fazemos muita coisa de nossas vidas.

Mas, quando chegamos a uma certa idade, percebemos que não fizemos é porcaria nenhuma.

O pum das vacas
13/07/2010

Tem coisa que faz mal, mas parece que ninguém dá a mínima importância.

O pum da vaca, por exemplo. Já está mais do que provado que o pum da vaca polui muito mais do que os automóveis. É isso mesmo. Não sei se você sabia disso, mas o somatório dos puns de todos os rebanhos bovinos existentes produz uma quantidade tão grande de gases tóxicos que, se ninguém fizer nada, a vida no planeta vai se tornar praticamente inviável para os seres humanos.

Para você ver só uma coisa, o metano, que é o gás que as vacas emitem, é 23 vezes mais poderoso que o dióxido de carbono, que é o gás que os carros produzem. Aliás, o pum da vaca é também o principal responsável pelo mais conhecido problema ecológico que a humanidade enfrenta, do qual até mesmo nossas crianças da mais tênue idade já ouviram falar: o execrado buraco na camada de ozônio, que fará, segundo os cientistas, com que o planeta Terra não arda em chamas – como nas mais conhecidas profecias – mas cozinhe em fogo brando tal qual um enorme pudim de leite condensado.

Só que, apesar disso tudo, muito pouco se tem feito a respeito do problema das vacas e dos seus respectivos puns. Quanto aos automóveis, por exemplo, o mundo já vem, há muitos anos, tomando várias medidas para conter seu poder ozônico-destrutivo. Já inventaram filtros para conter a emissão de gases. Criaram combustíveis menos poluentes, como o etanol. E própria indústria automobilística vem investindo cada dia mais em modelos alternativos, como os carros elétricos ou os movidos a hidrogênio.

E quanto às vacas? As vacas continuam por aí, pastando, com seu olhar complacente, como se não estivessem nem aí para a sua condição de alimentação predileta do ser humano, especialmente os do sexo masculino em dias de folga.

Mas a mim é que elas não enganam. Eu já venho pensando no assunto há um bom tempo, e cheguei à conclusão que tudo não passa de uma guerra silenciosa das vacas contra o homem. Sem que percebamos, e em troca de uns reles filés e picanhas mal passadas, estamos aceitando com passividade bovina o extermínio da espécie humana. Pois é chegada a hora de revidarmos! Eu proponho um ataque maciço e bem organizado contra todos os bois, vacas e bezerros que encontrarmos pela frente! E que seja ainda nesse final de semana!

– Tudo bem, eu entro com o carvão e os pãezinhos!

– Minha mulher leva a salada e os molhos!

– E a cerveja? Quem leva a cerveja?

Do polvo, pelo polvo, para o polvo
11/07/2010

Não. O assunto do momento não é a Espanha ter sido a campeã da Copa. O fato do resultado da final estar na manchete de todos os jornais, sites e TV’s do planeta era mais ou menos esperado, mas toda imprensa fez só o seu trabalho de praxe, quase como uma obrigação.

E dessa vez também não tivemos aí, um jogador que tenha despontado como o melhor da Copa, sobre o qual todos os holofotes se voltaram assim que terminou o campeonato. Teve aí, é claro, o jogador da Espanha que marcou o gol da final, como é mesmo o nome dele? Iniesta? Tudo bem, o cara teve o seu momento de glória e tudo o mais, mas só os espanhóis mesmo para se lembrarem dele daqui a, digamos, duas semanas.

Quer dizer, foi uma Copa sem estrelas, sem muita emoção, e da qual, muito provavelmente, só lembraremos por causa de um… animal! E, apesar de a Copa ter sido realizada na África, um lugar cujos animais são até motivo de turismo e desenhos animados da Disney, o animal a que me refiro, e do qual estão falando mais do que da própria seleção Campeã Mundial de Futebol, não é nenhum leão. Muito menos um elefante ou um rinoceronte. Não é sequer um hipopótamo ou uma zebra.

O grande personagem da Copa do Mundo da África foi, vejam vocês, um polvo.

Ok, ok, ele não é um polvo comum, desses que se encontra em qualquer “paella” por aí. Ele é um polvo vidente alemão, que simplesmente acertou todos os resultados dos jogos realizados pela Alemanha e, de quebra, ainda previu o resultado da final entre a Espanha e a Holanda.

Não deixa de ser engraçado. Apesar dos milhões gastos em estádios, em hotéis e nas pomposas cerimônias de abertura e encerramento. Apesar da presença da princesa da Holanda, do príncipe da Espanha, do príncipe de Mônaco e de astros do quilate de um Plácido Domingo ou de um Mick Jagger. E apesar de tantas estrelas do futebol, cujos salários anuais chegam perto do PIB de muitos países africanos, o pessoal só está falando mesmo de um molusco cheio de tentáculos e ventosas, que vive confinado num aquário de restaurante.

O Kaká, o Messi, o Cristiano Ronaldo e o Samuel Eto’o devem estar fulos da vida. Quem poderia imaginar? Um polvo fazendo mais sucesso que eles. E o Maradona então, hem? Já imaginou ele ali, em meio às lágrimas, se lamentando num dolorido suspiro:

– Por un polvo no! Por un polvo no!

Na hora do Vamuvê
06/07/2010

Falem o que quiser. Mas, apesar da gente ter perdido as duas últimas Copas ainda nas quartas de final, na de 2006 eu fiquei com uma certa vergonha. E, dessa vez, não.

Na Copa do Mundo de 2006, não sei se vocês lembram, nós tínhamos, simplesmente, os melhores jogadores de futebol do planeta surgidos nos últimos dez ou vinte anos jogando por nossa seleção. Nós tínhamos o Lúcio, o Cafu, o Ronaldão, o Ronaldinho, o Adriano, o Roberto Carlos, o Kaká, todos eles titulares, no auge de suas carreiras e em plena forma física, com vários deles disputando entre si o título de melhor jogador do ano. Apesar disso, na hora do vamuvê, parecia que eles estavam desfilando, e não jogando uma droga de partida de futebol na qual, queiram ou não queiram, o que vale mesmo é marcar mais gols do que o adversário em noventa minutos de jogo. Eu me lembro que, por exemplo, nos últimos minutos do último jogo de 2006 – depois da França fazer um gol no Brasil enquanto o Roberto Carlos (“o melhor lateral esquerdo que o mundo já viu”) amarrava, tranquilamente, suas chuteiras – os jogadores brasileiros ficavam passando a bola um para o outro no meio de campo, e ninguém se arriscava a dar um chute de fora da área, com medo de errar. Parecia (veja bem, eu disse PARECIA) que ninguém estava nem aí para a coisa. Ninguém ficava nervoso, ninguém xingava, ninguém nada. Eles nem pareciam gente. Eu já vi partidas de futebol jogadas naqueles videogames nas quais os jogadores pareciam ficar mais nervosos do que aquele pessoal estava.

Nessa, de 2010, pelo menos eu via que tinha GENTE ali. Nos últimos minutos, depois de já estar perdendo, o Dunga dava murros no banco. O Júlio Cesar arriscava uns chutõespara a frente. O Lúcio pegava a bola e saía correndo que nem um touro bravo. O Felipe Melo dava pontapés nos holandeses. Enfim, os caras começaram a se desesperar e a perder as estribeiras, igualzinho o que qualquer um de nós faria se estivesse ali, jogando.

Não vou falar para vocês que eu fiquei feliz com a derrota. Eu não fiquei. Até mesmo porque a gente vai perder uns feriados que já estavam aí, dados como favas contadas. Mas, pelo menos, dessa vez eu não fiquei com vergonha. Assim como a Argentina, a Itália, a França, a Inglaterra, nós só perdemos uma partida de futebol.

Agora, vamos todos cuidar de nossas vidas, que é o que devíamos estar fazendo esse tempo todo.