Archive for outubro \29\UTC 2010

Você é um presidente ou um saco de batatas?
29/10/2010

Esse mundinho nosso anda cada dia mais estranho. Outro dia desses, a Alta Corte Britânica se reuniu exclusivamente para discutir se as batatas Pringles eram mesmo… batatas. E o pior é que eles decidiram que não eram!

As batatas Pringles, para quem não sabe, são aquelas que ficaram famosas por causa de suas embalagens em forma de tubo e que, por isso mesmo, são muito mais caras que as batatas normais, dessas vendidas em saquinho. Pois bem. Depois de vasculharem inúmeros estudos de alguns dos maiores cientistas do país, com dados detalhados sobre sua composição e tudo o mais, os juízes britânicos disseram que as Pringles não passavam de um aperitivo “artificial” e que contém muito menos de 50% do que deveria ser seu principal componente, ou seja: a batata. Segundo um dos juízes, as “batatas Pringles parecem mais com um bolo ou um biscoito, porque elas são fabricadas a partir de uma espécie de massa de pão”. Quer dizer. Nós chegamos a uma situação tão bizarra que já não podemos confiar nem na autenticidade das batatas fritas, uma das mais tradicionais e disseminadas guloseimas da civilização ocidental.

Agora, você deve estar se perguntando aí, e com toda a razão: “Pombas, com uma eleição presidencial aí, batendo às nossas portas, e esse cara vem me falar sobre batatas?” E eu respondo. Pois foi por isso mesmo que eu resolvi falar disso. Veja bem. Esse caso, ao mesmo tempo esquisito e assustador, me fez ficar pensando. Quando a gente vê num dia a Dilma dizendo que é favor da descriminalização do aborto e, no outro dia, jurando de pés juntos que jamais havia dito aquilo. Quando a gente vê o José Serra indo para o hospital fazer uma tomografia depois de ser “alvejado” por uma bolinha de papel. Quando a gente vê os dois prometendo coisas irrealizáveis, como aumentar o bolsa família e o salário mínimo e, ao mesmo tempo, manter as contas equilibradas. Bem, olhando tudo isso, eu não consigo deixar de pensar:

Afinal, do que diabos são feitos esses dois candidatos?

Eles são isso aí mesmo que estão mostrando, ou isso é apenas o que as campanhas de marketing querem que a gente veja?  E, se eles não são isso que estão mostrando, eles são exatamente o quê? Será que, como no caso das batatas Pringles, nós vamos acabar descobrindo que eles “não passam de um aperitivo “artificial” com menos de 50% do que deveria ser seu principal componente”?

Sei lá. Eu, da minha parte, nunca gostei mesmo desses salgadinhos. Pra mim, todos eles cheiram pum. Sabe aquele cheiro de chips que fica no nosso dedo, e que não sai nem se você lavar com detergente? Pois então. Cheira pum ou não cheira?

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upgrade
26/10/2010

A verdade é que, aconteça o que acontecer, gente da minha idade jamais vai conseguir tratar essas coisas da informática com a mesma naturalidade que nossos filhos e netos. Para você ver só uma coisa, até hoje eu não entendi direito para quê diabos serve uma planilha de Excel. A gente fica ali, fuçando, entra na internet em busca de informações, volta lá, no computador, e tudo continua parecendo extremamente confuso e sem utilidade alguma. A conclusão que eu cheguei, e isso já faz alguns anos, é que dá muito bem para viver uma vida inteira sem fazer ou utilizar uma planilha de Excel, e se ela, porventura, um dia me trouxesse algum benefício, seria muito menor que o sofrimento que eu teria de ter passado para compreendê-la um pouco melhor.

E esses novos telefones, então? Parecem armas de filmes de ficção científica. São tantos botões, ícones, luzinhas e efeitos especiais, que eu duvido muito que alguém consiga usar pelo menos metade do que aqueles aparelhinhos oferecem. Outro dia desses mesmo, eu precisava ligar para casa e um amigo me emprestou seu celular. Antes que eu conseguisse finalmente completar a minha chamada, já tinha tirado três fotografias do meu pé, enviado dois torpedos em branco para a esposa dele e postado um filme com um close da minha orelha no youtube. Tudo, obviamente, sem querer fazer nada disso e sem a menor idéia de como repetir uma dessas façanhas, caso eu precisasse um dia.

Tudo bem. Não é assim com tudo, também. Tem coisas que eu até sei fazer, e muito bem. Eu sou muito bom com a internet, por exemplo. Entro lá, posto meus artigos, me arrisco a criar perfis no Facebook e no twitter. E sei até melhor que muitos jovens como postar meus vídeos e fotos num blog de maneira rápida e segura. Eu também não sou um débil mental, puxa vida.

O grande problema é que eu tenho a plena certeza de que as coisas não devem parar por aí. Não vai demorar muito e teremos a informática se intrometendo em coisas que hoje sequer imaginamos. Já inventaram, por exemplo, uma geladeira que nos avisa quais produtos estão em falta dentro dela, e aquela nossa velha mania de dar uma espiadinha lá dentro, na hora dos intervalos da TV, promete se tornar obsoleta dentro em breve. E mesmo a TV, que todo mundo achava ser o veículo de comunicação do futuro, com esse negócio de vídeo na internet, já está quase se tornando obsoleta também.

Para ser sincero, já faz um tempo que eu ando achando até eu mesmo meio ultrapassado. Ou, como ouvi de um sobrinho uma vez, já estou precisando “pelo menos de um bom upgrade”.

Não leia, não ouça, não Veja
24/10/2010

É o seguinte. Eu não gosto de conselhos. Nem de dar, nem de receber. Tanto é, que nunca li um livro de auto-ajuda. Nenhum. Acho mesmo que todos nós, se não sabemos, deveríamos saber o que fazer de nossas vidas. Como já dizia o Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas, com a idade chegando, de vez em quando eu tenho me arriscado a, se não a dar um conselho propriamente dito, ao menos a dizer quais foram as minhas escolhas quando passei por determinadas situações. Talvez, para servir de alerta, para que os outros não repitam as burradas que eu acabei fazendo. Talvez, como conselho mesmo, o que se há de fazer?

Por exemplo. Desde os meus tempos do colegial, antes de uma prova, qualquer prova, eu jamais li ou reli qualquer coisa que fizesse referência àquela matéria. O que era para eu ter aprendido, eu já tinha aprendido, e não ia ser uma leitura desesperada de última hora que ia me fazer saber mais alguma coisa sobre Física, Química, Biologia ou Matemática. Para falar a verdade, na véspera do primeiro vestibular que prestei, para desespero dos meus pais, eu simplesmente acordei às dez da manhã e fui para um barzinho, tomar uma cerveja e comer umas porções de torresmo. Acabei só saindo de lá no começo da noite e, quando voltei para casa, ainda passei a madrugada assistindo uns filmes de terror. Não que eu tenha sido o primeiro da lista da Fuvest também. Mas passei no vestibular, e era isso que interessava.

E nos esportes é a mesma coisa. Por um acaso você pensa que, na véspera de uma maratona, os caras saem correndo 50 km para treinar? Pois não saem. Na véspera de uma maratona, geralmente os grandes atletas descansam, ou fazem exercícios bem leves, senão eles não aguentam o esforço do dia seguinte.

Então, o que eu acho, é que nas eleições a gente devia fazer exatamente a mesma coisa. Nessa semana que antecede a grande ”celebração da democracia”, nós, os eleitores, devíamos parar de ver, ler ou ouvir qualquer coisa que fizesse referência aos candidatos. O que era para a gente saber deles, a gente já sabe, oras. É no mínimo estranho que, depois desse tempo todo de disputa, alguma coisa nova e verdadeira seja descoberta pela imprensa, ou por quem quer que seja, justamente quando não resta tempo para o candidato se defender.

Agora, é hora de todo mundo ficar quietinho no seu canto, apenas torcendo para que o próximo presidente não deixe as coisas desandarem, como desandaram esses últimos dias de campanha.

Tacando coisas nos políticos
22/10/2010

Sei lá. Apesar de reclamar tanto da vida, no fundo, no fundo, eu me considero um cara otimista. Veja bem. Todo mundo fica reclamando dessas coisas que andam tacando nos nossos candidatos à presidência, mas acabam se esquecendo de como eram as coisas antigamente.

Só para dar uma refrescada em nossa memória, a gente pode se lembrar, por exemplo, do Lincoln. Abraham Lincoln foi, provavelmente, o maior presidente que os Estados Unidos já tiveram. Ele conseguiu vencer uma guerra interna, na qual alguns estados queriam se separar do resto do país, preservou a União e, de quebra, ainda aboliu a escravidão. Agora, você acha que, por ter feito isso tudo, ele era recebido em todos os lugares que ia com flores e confetes? Pois não era. Para te falar a verdade, o que ele recebeu em troca foi um tiro na cabeça, tornando-se o primeiro de uma longa lista de presidentes norte-americanos que foram assassinados.

Voltando ainda mais para trás, nós temos o César, de Roma. Júlio César, do mesmo jeito que o Lincoln, foi um dos maiores estrategistas de seu tempo. Ele foi bem sucedido em absolutamente todas as suas campanhas militares. A sua versatilidade permitiu-lhe vitórias em batalhas, cercos e guerrilhas que muitos achavam impossíveis de serem vencidas. Tudo baseado numa disciplina rigorosa e no amor que os soldados lhe tinham. Pois quando ele voltou para Roma, você acha que os políticos o receberam como um herói? Nã-nã-ni-nã-não. Eles receberam o Júlio César sim, mas foi com 23 punhaladas, e no meio da sala principal da sede oficial do Senado romano.

E, como esses, a gente pode enumerar aqui mais um montão de caras. Martin Luther King, um dos mais importantes defensores dos direitos civis deste século, morreu com um tiro de rifle. Gandhi, talvez o maior líder pacifista que o mundo já viu, terminou assassinado, também a tiros, em 1948. E isso sem contar o próprio Jesus Cristo, oras, já que a moda é misturar tudo com religião…

Agora, comparando com essas histórias, você tem de concordar que, nos últimos anos, as coisas melhoraram bastante para o lado dos líderes políticos.

Aquele sapato que jogaram no Bush, essa bolinha de papel que tacaram no José Serra, ou mesmo aquela bexiga de água atirada de um prédio, que quase pegou a Dilma quando ela passava por umarua de Goiás. Para mim, isso é sinal de maturidade política.

Você há de convir comigo que, dependendo a hora, dá vontade de tacar coisas bem piores…

Afinal, isso é uma Eleição ou um Concílio?
17/10/2010

Tem hora que eu acho que a sociedade já atingiu seu ápice de desenvolvimento. E, pior: já estamos em curva descendente, voltando para a Idade Média, rumo a uma nova Inquisição. Parece que estamos andando para trás, deus do céu.

Veja só esse negócio do fim do mundo em 2012. Eu recebo pelo menos um e-mail por semana me avisando que em 2012 o mundo vai acabar. Está lá escrito, em alguma profecia maia ou coisa parecida. Tudo bem. Suponhamos que o mundo vá mesmo acabar em 2012. E o que é que os caras querem que eu faça depois de ficar sabendo disso? Que eu saia correndo por aí, desesperado, agitando os braços como se estivesse num show da Ivete Sangalo, e gritando “O mundo vai acabar! O mundo vai acabar!”? Oras. Se o mundo vai acabar em 2012, não há nada que eu, você ou a NASA possamos fazer.

Assim como não tinha o que fazer no ano 2000. Lembra do ano 2000? Todo mundo ficava falando que aquele seria o último ano da humanidade sobre a Terra, que estava escrito lá, na Bíblia, que de “1000 passará, mas de 2000 não passará”. Pois bem. Quando 2000 passou, descobriram que tal frase nem existia na Bíblia, nem no Alcorão, nem em nenhum desses livros mais famosos. Parecia mesmo que era coisa de um tal de Nostradamus, uma espécie de “chutador oficial” do seu tempo, ocupação hoje dignamente representada por nossos institutos de pesquisas eleitorais.

E quando eu vejo o José Serra desfilando em carro-aberto, beijando e levantando um Terço Católico na frente de uma carreata, como aconteceu outro dia desses, em Goiás, me dá até vontade de vomitar. Como bem lembrou o Jânio de Freitas, na “Folha de S.Paulo”, parecia até a Marcha com Deus pela Família e a Liberdade, patrocinada pela CIA em 1964 para abrir caminho para o golpe militar que – nunca faz mal lembrar – torturou e matou milhares de brasileiros durante 20 anos.

Ou quando observo a Dilma, até outro dia desses uma defensora da descriminalização do aborto, posando para fotos com seu netinho no colo e dizendo que se compromete a não tocar nas leis referentes a esse assunto, o que, provavelmente, levará mais e mais mulheres a se entregarem nas mãos dos “açougueiros” de plantão, encontrados em qualquer esquina pelo Brasil afora.

Isso tudo é de dar medo. Se continuar nesse ritmo, em breve não estaremos mais elegendo um Presidente da República mas, sim, um Pajé.

Agora todo mundo vai na missa
14/10/2010

Como diz aquele ditado antigo, tem três coisas que não se discute: futebol, política e religião. Eu, aqui da minha parte, incluiria sexo nessas coisas. E a descriminalização das drogas. Todas essas coisas, as pessoas defendem, ou são contrárias, de uma maneira tão radical que beira a insanidade. Querer defender sua posição em qualquer um desses itens é a mesma coisa que enfiar a mão num vespeiro: você pode até ganhar, mas vai sair cheio de picadas.

E é justamente esse o grande problema dessa época de eleições. Todos os candidatos fogem de perguntas sobre esses assuntos como o diabo foge da cruz. E o pior é que eles não estão completamente errados ao fugirem desses assuntos. Em 1985, por exemplo, o Fernando Henrique Cardoso disputava com o Jânio Quadros a prefeitura de São Paulo, e estava disparado na frente em todas as pesquisas. O FHC chegou até mesmo a se sentar na cadeira da Prefeitura, para posar para uma foto. Aí, num debate na TV, o jornalista Boris Casoy perguntou se o FHC acreditava em Deus. O homem, apesar de tantos estudos e tudo o mais, se embananou todo com a resposta, foi “acusado” de ser ateu, e o Jânio Quadros acabou vencendo a eleição.

E teve aquela também, do Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, que, após confessar a uma repórter que já havia experimentado maconha em sua juventude, voltou atrás e completou com sua mais célebre frase, que entrou para a história da tergiversação: “- Fumei, mas não traguei”.

Quer dizer, se depender dos políticos, a gente nunca vai conseguir debater esses temas mais sérios, porque os políticos fogem como podem de polêmicas. Eles gostam de falar que são a favor da saúde, da educação, da habitação para todos. Mas isso é fácil, oras. Pois me diga quem, em sã consciência, seria contra a saúde, a educação e a habitação para todos?

Agora, é só surgir um tema um pouco mais áspero, como nesse ano foi o caso do aborto, que os políticos se metem num emaranhado de acusações e desmentidos dos quais muito dificilmente se livram pelos próximos quatro anos. Agora, eu me pergunto. Se não é para discutir essas coisas, para que diabos serve um debate? Que eles são a favor da saúde, da educação e da habitação, todo mundo já está careca de saber. Eu quero saber é o que os candidatos pensam sobre a Igreja Católica, que proíbe o uso da camisinha e acha que o homossexualismo é uma doença.

Isso que eu gostaria de saber.

A barraca no meio da sala
12/10/2010

Meu neto vive me pedindo para montar uma cabaninha. A coisa começou no rancho do meu sogro, onde os quartos possuem, cada um, três ou quatro desses beliches de dois andares. Uma vez, minha mulher resolveu pendurar uns lençóis no beliche de cima, para que o sol não batesse diretamente no meu neto, enquanto ele dormia. Foi a conta de ele acordar e não querer mais sair de lá. Passou o resto do fim de semana escarafunchando entre cobertas e travesseiros dentro de sua cabaninha. Até comia por lá mesmo, deixando de lado as pescarias e os jogos de futebol com os primos.

Depois disso, volta e meia estamos ali, em casa, assistindo um desenho do Ben 10 ou brincando de qualquer coisa, e ele pára, me olha e diz naquele tom que as crianças se sabem fazer irresistíveis: – Vô, vamos fazer uma cabaninha? – E toca a gente correr atrás de cobertas, lençóis, colchonetes e outros artefatos, se possível macios e não pontiagudos, tudo para criar uma cabaninha razoavelmente decente e que se suporte de pé ao menos os dez primeiros minutos de entusiasmo de uma criança de três anos.

Eu nunca entendi direito o que ele via naquilo. Afinal, que graça tinha passar um belo dia ensolarado de primavera debaixo de panos mal-ajambrados, entre edredons e almofadas cobertos de restos de pipoca e catchup? Bem, isso até o dia em que eu entrei na cabaninha com ele. Não foi fácil, confesso. Além das minhas costas já não se curvarem tão bem quanto antigamente, a cabaninha improvisada era bastante frágil e pequena para alguém do meu tamanho.

No entanto, quando consegui, fiquei assombrado. Engatinhando, fui entrando no mundinho do meu neto e, ainda com as pernas de fora, fui reparando nos bonequinhos pendurados no teto, nos pacotes de bolacha cuidadosamente empilhados num dos cantos da barraca, nos carrinhos sem roda dentro da caixa de sapatos, na bola de futebol murcha que ele ganhou no aniversário de um ano, e aquele cheirinho engraçado de chulé de criança. Me veio a indescritível sensação de já ter estado ali há muitos anos e, no entanto, apesar do tempo, tudo parecia exatamente igual eu tinha deixado.

Nesse Dia das Crianças, comprei uma barraca, dessas de verdade, de acampamento, e dei de presente para o meu neto. Juntos, ele e eu a montamos bem no meio da minha sala de visitas, na frente da televisão. Tudo bem. Provavelmente a barraca não ficará aqui por muito tempo.

Mas, também, quem ficará?

Seu palhaço analfabeto!
11/10/2010

Tudo bem. Agora vamos falar a sério. Vamos falar do deputado Tiririca. Não, é sério mesmo. Pode parar de rir. Afinal, qual é o problema de ter um palhaço analfabeto ocupando um cargo no nosso legislativo? Porque é que tanta gente está se sentindo assim, tão incomodada?

Para começar, se alguém mostrar sua Carteira de Trabalho, e lá estiver registrado “Palhaço”, você não deve se assustar. Sim, a atividade circense é reconhecida pelo Ministério do Trabalho já há alguns anos, inscrita sob o código 3762-45 na Classificação Brasileira de Ocupações. A profissão aceita, inclusive, denominações variadas: palhaço, clown, cômico de circo e outros nomes mais ou menos parecidos. Então, nada mais justo que essa profissão, digníssima como todas as outras, tenha um representante seu na Câmara dos Deputados. Se até advogado pode, ué.

Porque é que ninguém protesta, por exemplo, quando a “Bancada Católica” resolve se intrometer em nossas políticas de saúde? E porque é que ninguém se espanta quando lê que existe uma “Bancada Evangélica”, aliás bastante poderosa? O que é que tem a ver Deus com essa lama toda da nossa política? Se palhaço não pode ser deputado, pastor também não devia poder. Nem padres. E muito menos advogados.

É claro que você pode argumentar que o Tiririca, além de palhaço, ainda é analfabeto. Ok. É uma boa argumentação. Mas, que eu saiba, analfabetismo ainda não é crime nesse país. E, se existe algum crime no analfabetismo, não é da parte dos analfabetos, mas dessa gente que é incapaz de oferecer uma educação digna para a população. Além do mais, existem no Brasil algo em torno de 14,2 milhões de analfabetos. São jovens com mais de 15 anos que não sabem nem escrever um bilhete para a namorada. Nada mais justo, portanto, que essa parcela significativa da população também tenha seu representante lá em Brasília. Talvez, até, para modificar essa situação.

Quando eu vejo esse monte de grã-fininho indignado com a eleição do Tiririca, nada me tira da cabeça que essa pegação no pé é, pura e simplesmente, preconceito. É, preconceito.

Todos nós (eu incluído), que cursamos universidades, lemos jornais e ainda temos a maioria dos dentes em nossa boca, adoraríamos ver intelectuais loiros, altos e de olhos verdes sendo eleitos para os mais nobres cargos da República. E, quando temos que encarar um palhaço nordestino, baixinho, meio mulato e falando errado tendo mais de 1,3 milhões de votos para deputado federal, achamos que esse tipinho não nos representará a contento. E não representará mesmo, essa é que é a verdade.

Mas representará uma boa parcela do Brasil.

Aqueles homens que falam
11/10/2010

– Pai…

– Hum?

– Cadê aqueles moços que falam?

– Cadê o quê?

– Aqueles moços que falam.

– Do que é que você está falando agora, filho?

– Na televisão, aqueles homens, que ficavam falando, falando.

– Os políticos?

– É, acho que é.

– O que é que têm eles?

– Por que não passa mais aquele programa deles falando?

– É porque a eleição acabou, mas já já começa de novo.

– E o que é eleição.

– Eleição? Bem, é… é um negócio que a gente escolhe quem vai mandar na gente.

– Quer dizer que tem gente que manda no senhor, pai?

– É, mais ou menos.

– Mas porque alguém tem de mandar no senhor?

– Hum… não, não é bem isso… Vamos dizer assim, então: eleição é quando a gente escolhe quem vai construir as casas, as escolas, as estradas, essas coisas todas.

– E onde é que os políticos vão construir essas coisas todas?

– No Brasil, ué.

– Puxa vida, quer dizer que tem gente que constrói essas coisas no Brasil inteiro? Mas isso deve dar um trabalhão!

– É, hum… digamos que sim.

– E é a gente que escolhe os homens que fazem isso?

– É, a gente que escolhe. É por isso que eles aparecem falando lá na TV, para a gente escolher um deles para trabalhar.

– Nossa, e porque tem tanta gente assim querendo ser político, se dá tanto trabalho?

– É porque… oras, deve ser porque eles gostam.

– Eles gostam de trabalhar?

– Bem, digamos que pelo menos uma parte deles deve gostar sim.

– E quanto é que os políticos ganham para fazer isso tudo?

– Bem, aí depende.

– Depende do quê?

– Depende de… bem, depende de um monte de coisa.

– Do quê, por exemplo?

– De… de… de um monte de coisa, oras!

– Mas é bastante dinheiro?

– É… para falar a verdade, algumas vezes, dá até para ficar milionário fazendo isso.

– Milionário, é?

– É.

– Então eu quero ser isso quando eu crescer.

– Isso o quê?

– Político, ué.

– Vê se pára de falar besteira, menino!

– Mas, e se eu quiser, o que é que tem?

– Já para o seu quarto! E vai ficar sem assistir televisão!

– Sem televisão, não, pai, hoje vai passar aqu…

– Sem televisão e está acabado!

– Mas até quando?

– Pelo menos até acabar o segundo turno, tá?

Ainda não inventaram sistema melhor desde a Grécia antiga*?
11/10/2010

Uma eleição como esta, que estamos tendo em 2010, já contabilizando os dois turnos que iremos ter, custa mais ou menos R$ 500 milhões à Justiça Eleitoral. Ou seja, a nós. Tudo bem. Meio milhão de reais também não é lá essas coisas. Mas, se você começar a somar tudo o que os próprios candidatos gastaram e ainda gastarão para se eleger, aí a coisa muda de figura.

As doações eleitorais já registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foram, até agora, de R$ 274 milhões, considerando todos os cargos em disputa, de presidente da República a deputado estadual. As registradas, veja bem. Então, a soma já está aí, próxima de R$ 800 milhões. Com o segundo turno, agora, de um jeito ou de outro, a coisa toda deve arredondar aí para, no mínimo, R$ 1 bilhão. Isso, lembro novamente, a gente olhando só para o dinheiro contabilizado legalmente, tudo certinho, conforme todas as leis e tudo o mais.

Bem, um bilhão de reais já é uma quantia bem significativa. Mas ainda não ficamos por aí. Cada candidato tem direito, também pela lei, a gastar dinheiro do próprio bolso para suas campanhas, mas os partidos costumam colocar um teto nesses gastos. No PDT, por exemplo, o teto estabelecido como previsão de gastos para cada candidato a deputado estadual do partido, foi de R$ 6 milhões. Mas é natural que, conforme a importância do cargo cresce, crescem também os gastos do candidato.

O PMN do Paraná (do qual, confesso, nunca tinha ouvido falar até hoje) informou à Justiça Eleitoral há uns meses uma previsão de gastos no valor de até R$ 20 milhões para seus candidatos a deputado federal. O valor é individual. Já, o maior partido do Estado, o PMDB, foi mais modesto. A previsão de gastos para cada deputado federal foi de R$ 6 milhões. E isso a gente nem chegou aos digníssimos Senadores e à Presidência da República, cujos gastos perdi a vontade de procurar, só para não passar raiva.

Se eu estou aqui dizendo que a gente não deve ter eleição? Não. Eu não estou dizendo isso. Eu tive a experiência de passar uma boa parte da minha vida sem elas, e sei que, embora não precisassem ser obrigatórias, as eleições são muito importantes para manter um país razoavelmente estável e livre. No entanto, esses números incomodam.

Também não me perguntem como resolver esse problema. Eu não sei. Só sei que, se um sistema só permite que elejamos pessoas que tenham todo esse dinheiro sobrando, há algo de muito errado com esse sistema.

*A democracia foi inventada na Grécia, pois não?