Archive for dezembro \22\UTC 2011

Presente de grego
22/12/2011

Se tem uma coisa nesse mundo que a gente precisa tomar cuidado, é presente. Presente  é uma coisa pessoal, íntima. Tanto para quem dá, quanto para quem recebe.

Eu me lembro como se fosse hoje, por exemplo, de um presente que eu dei para uma garota, quando eu tinha aí, por volta dos dez anos de idade. A garota, cujo nome me escapa (Paula? Angélica?), alvo talvez dos meu primeiros e ainda misteriosos descaminhos hormonais, era uma loirinha requisitadíssima na escola, tanto pelos bando mais atlético dos meninos quanto pelas meninas mais “descoladas”.

Ainda sem experiência no ramo da conquista, ingenuamente arrisquei-me a, anexo ao pequeno pacote de bombons sabor cereja, enviar, junto ao presente de aniversário, alguns versos de minha autoria que, desde aquela época, já tentava infrutiferamente algum sucesso no ramo da literatura. O verso?

“Doces para um doce.”.

Bem, nem é preciso dizer que, na segunda-feira pós-aniversário da loirinha (Beth? Ana Clara?), todos os marmanjos da escola passavam a mão na minha cabeça dizendo “mas que doce…” ou “quer ver o melhor doce do mundo? Aqui, ó!” e outras expressões menos elegantes referentes ao mundo das guloseimas e comilanças.

Presente não é coisa que se brinque. A menos, é claro, que ele seja um supercarrinho de controle remoto, capaz de fazer loopings a 60km/h em 3D numa pista do circuito de Mônaco, como o que ganhou meu sobrinho no último natal.

Isso para você não passar por um vexame semelhante ao que passou um amigo meu, o Orlando, um ilustrador famoso lá pelas bandas da Capital. Ao saber que eu andava meio adoentado, e sem saber exatamente o que eu tinha, veio me fazer um visita, trazendo consigo um presente, preparado carinhosamnte por Cecília, sua esposa. Quando desembrulhei, topei com um vidro de pimenta-dedo-de-moça e um litro de licor de jabuticaba, ambos frutos da produção caseira de seu sítio. Justo para mim, que acabara de dar entrada na papelada para um transplante de fígado, e cuja inflamação nas hemorróidas andava me impedindo até de me sentar.

Para a Cecília, aviso que, quem experimentou, achou tudo uma delícia. Mas, para o Orlando… bem. Da próxima vez, vê se dá uma pesquisada antes de dar um presente, tá?

(a ilustra dessa crônica foi um PRESENTE do grande amigo quase irmåo, Custódio Rosa Filho)

postado do tablet transformer

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Cadáveres
20/12/2011

Os cadáveres. De uma maneira assim, bastante geral, os cadáveres encontram-se irremediavelmente mortos. Ou seja, não se movem, não se reproduzem, não comem e, especialmente, não assistem futebol na TV domingo à tarde, tomando cerveja e fazendo rodelas com as latinhas no verniz da mesa da sala.

Quer dizer, os cadáveres são seres primitivos e altamente previsíveis, dos quais até mesmo um pobre coitado de um débil mental fugido de um manicômio qualquer consegue se desvencilhar sem muitos problemas.

Então, por que cargas d’água a gente fica completamente paralizado quando topa com um deles assim, no meio do corredor de um hospital, como aconteceu comigo ontem à tarde?

Veja bem, nem noite era, horário mais propício aos poucos cadáveres recalcitrantes que insistem em caminhar por aí em alguns antigos filmes de terror ou em pesadelos de crianças ou adultos menos dotados. Não. Era uma tarde ensolarada e calourente, típica desses nossos modorrentos e tristes trópicos. Estava eu andando por ali, vasculhando os corredores do hospital à procura de uma máquina de coca-cola quando, ao dobrar um dos seus muitos cruzamentos, topei com ele: o dito cadáver. E, devo adiantar, não se tratava de um cadáver de todo feio. Era um cadáver até que bastante digno em sua cadaveridade. Nada de sangue, pústulas ou membros amputados. Apenas um cadáver, provavelmente já de banho tomado para sua última viagem, solitário em sua sapiência de conhecer um segredo o qual nenhum de nós, os vivos, ainda sabe ou virá um dia a saber.

Fiquei olhando para ele e, ouso dizer, tive a impressão de que também era observado. Dois seres tão iguais em sua anatomia e, ao mesmo tempo, tão diferentes em sua essência.

Cada qual por uma razão paralisado em frente ao outro numa esquina dessa vida que se torna, a cada dia que vivemos, mais estranha e assustadora.

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postado do tablet transformer

Acordei meio zoró
18/12/2011

Encefalopatia. Um nome bem invocado para o que a coisa realmente é. Encefalopatia é, nada mais, nada menos, do que ficar “meio zoró”.  Sabe o que é “ficar zoró”, né? Não conhecer direito as pessoas com quem você convive diariamente, se esquecer completamente de qual seria exatamente a serventia daquele rolo de papel que está ali, ao lado do vaso sanitário. Ou então, em casos mais graves, plantar uma bananeira na beira de um prédio de 12 andares.

A Encefalopatia tem diversas causas. A principal delas é o mal funcionamento do fígado, seja por causa de uma hepatite mal curada, seja por anos e anos de muita farra. Aí você está ali, normalzinho como sempre foi e, de repente, sem nenhum aviso prévio, você se esconde atrás do sofá  tentando se proteger das flechas de índios Apache e gritando: Mulheres e crianças, corram para o porão!

Pois bem. Outro dia desses, fui acometido por uma encefalopatia leve. Não me escondi de Apaches, nem me esqueci de para que servia o papel higiênico, nem nada dessas coisas. Apenas “desliguei” do restante da civilização, e comecei a zanzar pela casa aparentemente sem nenhuma motivação ou destino. Quando dei por mim, estava internado num hospital, com alguns frascos gotejando soro nas minhas veias e, provavelmente, bastante sedado, já que nem consegui dizer para minha mulher que eu estava de volta.

Aos poucos, as pessoas começaram a conversar comigo, as enfermeiras, minha esposa, minha filha, e todos concordaram que eu já conseguia balbuciar algumas palavras que faziam algum sentido, e que minhas afirmativas a respeito dos Apaches (ok, confesso, durante a crise eu me escondi de um Apache) estavam devidamente sanadas. Aliás, a primeira coisa que eu disse, nem foi uma afirmação. Foi uma pergunta:

– Que dia é hoje? – eu indaguei para minha esposa que, com os olhos marejados, sorriu e disse que era segunda-feira.

– Segunda-feira? Puts grila, quer dizer que eu perdi o meu domingo inteirinho?

Todo mundo no quarto riu. Um enfermeiro comentou que eu já estava bom. Minha filha deu risadas altas e nervosas, dizendo que esse sim era o pai dela. E, dois dias depois, embora ainda um pouco assustado, eu já estava em casa, comendo uma macarronada com a família e fazendo planos para a ceia de Natal e Reveillon.

Hoje, pensando no assunto, eu fiquei pensando que, talvez, o que nos diferencia dos outros animais, não seja nem o polegar opositor, nem o tele-encéfalo altamente desenvolvido.

Talvez, o que nos faça seres humanos completos, seja apenas…. o humor!

A lenda da Árvore de Natal (e de quebra, a do Papai Noel também)
17/12/2011


O pai e o filho pendurando os enfeites na Árvore de Natal.

– Passa essa estrela dourada aí, filho.

– Essa?

– É. Ficou bom aqui?

– Ficou. Ficou sim. Mas, ô pai…

– Hum?

– Essa árvore é de verdade?

– É claro que é. Você não está aí, pegando nela? Então é de verdade.

– Não é isso, pai.

– O que é então?

– Eu estou perguntando se ela é de verdade mesmo, dessas de plantar.

– E para quê você quer saber uma coisa dessas?

– Pra saber, ué.

– Tá bom. Ela não é de verdade. Passa essa bola vermelha aí.

– O quê?

– Essa bola aí, do seu lado. Passa pra mim.

– Ah, tá.

– Você acha que a bola fica bem aqui?

– Fica. Fica sim. Ô pai…

– Hum?

– Porque é que a gente tem que colocar árvore no Natal?

– Por quê? Oras, por que… por que sim. Para enfeitar.

– Enfeitar o quê?

– A casa. Todo mundo enfeita a casa no Natal.

– E enfeita com árvore por quê?

– É porque a árvore é… é… é uma lenda antiga, filho.

– E como é que é a lenda?

– A lenda? Bem. É uma lenda comprida, quer mesmo saber?

– Quero.

– Hum, bem, é que antigamente, tinha…hum… uma árvore que…hum… dava
presentes!

– Dava?

– É. Os presentes nasciam nela, sabe? Que nem fruta. E a época dela de dar
frutas era justamente na época do Natal. Nascia de tudo. Videogame.
Computador. Celular. Mp3. De tudo mesmo. E aí era só as pessoas irem lá e
pegarem os presentes. Ninguém precisava pagar nada. E então… então…

– Então o quê?

– Então… bem, então os donos das lojas começaram a ficar bravos porque
ninguém mais comprava presentes e eles não ganhavam dinheiro. E então…
então eles resolveram cortar todas as Árvores de Natal do mundo!

– Nossa…

– Uma noite, os donos das lojas, vestidos de vermelho e usando uma barba
branca falsa para disfarçar, saíram cortando todas as árvores, usando a
serra que eles levavam num saco. Não sobrou nenhuma! E desde aquele dia, a
gente tem que pagar caro pelos presentes de Natal…

– Os donos da loja… De vermelho? Com um saco? E barba branca?

– É… isso mesmo e… e… me passa esse sininho aí.

– O quê?

– Esse sino prateado. Pega aí. Pra pendurar na árvore!

– Ah, tá… – disse o filho, olhando desconfiado.

Onde será que anda aquele Papai Noel de porcelana que minha mãe colocava todos os anos embaixo da Árvore de Natal?
17/12/2011

Entrei na sala de espera de um escritório e lá estava ela. Era moderna, quase irreconhecível em suas linhas retas recortadas em plástico transparente. Só as bolas coloridas e a estrela prateada ainda a caracterizavam como uma autêntica e genuína Árvore de Natal.

Houve um tempo em que a primeira Árvore de Natal do ano sempre me causava um certo espanto. Eu não conseguia conter um comentário “— Nossa, mas já é Natal de novo?” ou “— Parece que ainda ontem eu estava comendo o último pedaço do tender do reveillon!”. Acontece que até esses comentários se tornaram meio repetitivos. Todos os anos o Natal chega mais rápido do que a gente imaginava que ia chegar. Todos os anos o ano acaba mais depressa. Todos os anos o comércio prepara uma Promoção de Natal onde são sorteados carros e motos entre os consumidores. Todos os anos os jornais na TV começam a tecer comentários comparando o péssimo Natal deste ano com o maravilhoso Natal do ano passado e mostram os comerciantes preocupados e as vitrines enfeitadas com placas de liquidação.

No Fantástico, vai ter aquela reportagem mostrando aquele mundaréu de gente andando pelos corredores refrigerados de um Shopping, e outra cena mostrando as lojas vazias, e aí um balconista comentando que o movimento deste ano caiu bastante em comparação com os outros anos, e depois uma entrevista com um consumidor dizendo que só vai comprar umas lembrancinhas e olhe lá.

E depois vai ter aquelas entrevistas na rua, perguntando o que é que o pessoal vai fazer com o décimo terceiro, e a maioria vai fazer piadinha, que vai pegar o décimo terceiro e pagar as contas e assim mesmo não vai dar, e outros dizendo que vai ter ovo frito e carne moída na ceia desse ano ah ah ah, e depois a reportagem fecha com uma velhinha dizendo que vai comprar sim uns presentinhos e que Natal é só uma vez por ano, que vale a pena e tudo o mais, e ela vai olhar para a tela e sorrir e o pessoal da produção do jornal vai colocar uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa noite sorrindo.

E o Papai-Noel vai chegar de helicóptero numas cidades, e vai descer de pára-quedas em outras, e vai dar a volta num carro de bombeiros em outras, e em outras ainda o prefeito vai dar a chave da cidade para o Papai Noel e vai sair uma foto do evento na manchete do jornal do dia seguinte e depois as lojas vão ser invadidas por velhinhos aposentados com fantasias calorentas e distribuindo balas e tocando sininhos e o repórter da TV vai entrevistar um deles e ele vai fazer um rô rô rô e o pessoal da produção vai colocar uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa noite sorrindo.

É meio melancólico ficar velho. Não triste. Melancólico.