Archive for setembro \28\UTC 2011

Ciborgues
28/09/2011

A questão é que o ser humano já vem se transformando numa mistura de máquina com carne há muito tempo. Por exemplo, quando o homem espetou um pedaço de pau mais pontudo contra um bicho, ou até mesmo contra um cara lá que ele não gostava, você acha que ele foi o mesmo depois disso? Pois não foi. A partir daquele momento, ele passou a andar para lá e para cá sempre com sua lança debaixo do braço, porque ele descobriu que a simples posse daquela ferramenta, além de melhor sua qualidade de vida, fazia com que ele fizesse o maior sucesso entre a mulherada da época.

Ou a roda. Tudo bem, a gente ainda anda um bocado. Mas na maioria dos dias, a gente usa muito mais as rodas do carro do que os próprios pés. A roda tornou-se uma extensão tão natural de nossos pés que a gente nem pensa mais na coisa. A gente marca uma reunião de trabalho para daqui uma hora, sendo que o local da reunião está a mais de cem quilômetros – distância absolutamente impossível de cobrir se ainda contássemos apenas com nossos pés. Mas a gente nem pensa nisso na hora de marcar a reunião. A roda do carro já é parte da gente, sem a gente nem perceber.

E isso com mais um monte de coisa. Quanta gente que você conhece que tem um marcapasso incrustado no coração? Pois um marcapasso é uma maquininha de titânio, dotado de pilhas recarregáveis, que de tempos em tempos solta um impulso elétrico no coração do cara, sem o qual ele morre. Morre, entende? E aquele atleta sul africano que, depois de amputar ambas as pernas, colocou próteses de fibra de carbono e atingiu a marca que o qualifica para as Olimpíadas de 2012, em Londres? E quando a gente telefona para a telefônica e quem atende é um computador, dizendo para a gente teclar o dígito 1 se quer uma coisa, o dígito 2 se quer outra coisa? E agora, que uns cientistas da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, inventaram um programa de computador que produz notícias analisando dados disponíveis na internet? Um jornalista robô, veja você, um jornalista robô! Quer dizer, a gente tem que se manter atualizado, senão a gente acaba desempregado e…

– Tudo bem, eu entendo, querido. Mas você já tem dois iMac Pro, um MacBook Air, um iPod Touch, dois iPhone, pra quê diabos você precisa desse tal de iPad?

– Porque… porque… porque eu preciso, oras!

– Precisa uma pinóia! Primeiro você compra uma geladeira nova que depois a gente conversa, tá?

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Larga de dar azia
25/09/2011

Eu tenho uns probleminhas de saúde que me obrigam, de vez em quando, a fazer uma endoscopia. Sabe o que é uma endoscopia, né? É aquela intervenção em que os médicos enfiam um cano na sua boca, e vão empurrando garganta abaixo, passando pelo esôfago e sabe mais por o quê, até chegar lá no lugar em que eles querem chegar, às vezes só para observar, às vezes até para fazer uma operaçãozinha.

E acontece que, depois de fazer uma endoscopia, durante aí uns quatro ou cinco dias, eu fico com azia o tempo todo. Desde a hora em que acordo até a hora que vou para a cama. E azia é um inferno. Aliás, eu acho que, no inferno, a primeira coisa que o diabo faz com os pecadores, só para ferrar, é avisar que, a partir daquele dia, o pobre coitado vai ter azia por toda a eternidade.

Quando a gente está com azia, não tem nada nesse mundo que nos console. Nem festa, nem drogas, nem mulher. Nada. Quando a gente está com azia, só quer saber de tomar alguma coisa gelada, de preferência água mesmo, e ir embora para casa, pra ver se consegue dormir um pouco. O que não é fácil.

Porque, quando a gente está com azia, absolutamente tudo te irrita. O som da televisão está sempre muito alto, acima do limite do tolerável. Ou baixo demais, que não dá nem para ouvir direito o que os caras lá do filme estão falando. E a gente aumenta o som da TV. E diminui logo em seguida. E é mais ou menos nessa hora que a esposa trata de esconder o controle remoto da gente, porque, senão, vai ficar todo mundo louco na sala. E isso sem contar a programação. Diabos, será que esse povo acha que TODO MUNDO gosta de futebol e programa de auditório aos domingos? E o que é esse CONJUNTINHO aí? Meu deus do céu, nem bem os sertanejos saíram de cena, agora a gente tem que aguentar adolescentes de calça cor-de-rosa fazendo pose de roqueiro e mandando beijinhos para a platéia? E alguém aí pode me responder CADÊ O MEU CONTROLE REMOTO?

Mas é claro que toda essa irritação se deve à minha interminável azia. Geralmente, eu suporto tudo muito bem, como todo mundo. Aguento esperar meia hora em fila de banco. Aguento aguardar dois meses para uma consulta pelo SUS. Aguento até a proramação da TV aos domingos, sem muitas reclamações. Mas eu te falo mais uma coisa. Se, um dia, toda a população do planeta acordasse com uma baita azia, a gente ia resolver esses problemas todos rapidinho.

Só de raiva.

foto do transformer
22/09/2011

image

foto do transformer

postado do tablet transformer

O santo desconfia
20/09/2011

Nos últimos dias, recebi umas visitas. Tudo bem receber visitas. Eu adoro receber visitas. Ainda mais de pessoas que a gente gosta, e que não precisa ficar fazendo muita sala.

Porque não tem coisa mais chata que aquelas visitas que a gente precisa ficar fazendo sala. O cara quer beber água e, em vez de ir lá na geladeira pegar a maldita água, ele olha para a gente e pergunta se não dava para arrumar um copo de d’água. Ou quando vai tomar banho. Ele chega e pergunta se “tudo bem tomar um banho”. Oras, é claro que está tudo bem se ele tomar um banho. Ou tomar um copo d’água. Aliás, são hábitos muito saudáveis, que todos devemos não apenas cultivar, mas disseminar entre nossos conhecidos. Especialmente os banhos, no caso das visitas.

Mas divago. O ponto a que quero chegar é que, embora todas essas visitas que tenho recebido sejam de amigos bastante íntimos, daqueles que ficam e nos deixam à vontade, sua frequência está me deixando um bocado encafifado.

Uma dessas visitas, por exemplo, foi de uma prima que eu não via há pelo menos dez anos. Vieram ela, o marido, a filha mais nova e uma netinha, que eu nem conhecia. De repente, assim como quem não quer nada, eles viajam quase mil quilômetros para fazer uma visitinha de dois dias e voltam, tudo isso de carro, porque a minha prima morre de medo de avião. Pombas. São dois mil quilômetros de estrada! Isso não é coisa que se faça assim, sem mais nem menos. Mesmo assim, deixei minhas desconfianças de lado e passei o final de semana rindo das lembranças em comum de nossa infância e adolescência.

Só que, nem bem eu havia me refeito da visita da minha prima, um casal de amigos de São Paulo veio logo em seguida, também para passar uns poucos dias em casa. Foi uma deliciosa surpresa, colocamos o papo em dia e recebemos muitas gozações a respeito de nossos cabelos brancos e nossas recém adquiridas calvícies.

Mas, à noite, já na cama, sem conseguir dormir, não aguentei a pressão:

– Querida? Você está acordada?

– Estou. Que foi?

– Pode falar a verdade. Eu estou nas últimas?

– O QUÊ?

– Por um acaso, eu estou morrendo, e você não me contou? Pode falar, eu aguento.

– Larga de bobagem, amor!

– Sei lá, esse monte de gente visitando, parece até despedida…

– Dorme aí, querido, e vê se para de pensar besteira!

– Tudo bem, tudo bem… Mas que é esquisito, é.

E agora, o que é que a gente faz com essa democracia?
18/09/2011

Todo tipo de liberdade tem um preço. E, se tem um preço, não é tão livre assim, afinal de contas. Vamos pegar como exemplo a chamada “Democracia Corinthiana”. Para quem não conheceu, ou não se lembra, a Democracia Corinthiana foi um movimento iniciado em 1982, época em que o Brasil ainda vivia em plena Ditadura Militar.

Com o sociólogo Adilson Monteiro como Diretor Técnico, o técnico Mário Travaglini, e jogadores que marcaram época como Sócrates, Casagrande, Biro-Biro e Wladimir, a Democracia foi uma experiência inédita e única no futebol mundial. Antes de qualquer decisão, seja a contratação de um novo jogador ou a troca de um chuveiro do vestiário, um diálogo aberto era iniciado entre jogadores e comissão técnica. Todos participavam das decisões: jogadores, roupeiro, técnico, presidente, e o voto de cada um possuía o mesmo valor. Foi abolida a concentração, e os jogadores casados podiam passar as horas anteriores ao jogo juntos de suas famílias, e até mesmo tomar uma cervejinha para dar uma relaxada.

A princípio, ninguém deu muita bola para aquilo. Até que a coisa começou a dar certo. O Corinthians conquista dois campeonatos paulistas e chega às fases finais da Taça de Ouro, como era chamado o Campeonato Brasileiro naqueles tempos. Inúmeras pessoas públicas acabam aderindo à causa do time, que extrapola o campo de futebol e começa a fazer campanhas pelas Diretas Já. Osmar Santos, Juca Kfouri e Rita Lee acabam vestindo a camisa da Democracia Corinthiana. Sócrates, Casagrande e Wladimir sobem em palanques e discursam ao lado de políticos e figuras públicas.

Os militares ficam de mãos atadas. Afinal, o que podiam fazer quando o time com a maior torcida do país começa a discutir política e pôr em debate o porquê de uma ditadura?

Bem, passados trinta anos, a liberdade daquele grupo de jogadores visionários já começa a cobrar seu preço. Veja aí o Casagrande. Seus problemas com as drogas não são de hoje. Desde aqueles tempos, ele já experimentava umas e outras. Até que, agora, a coisa piorou, andou se envolvendo em acidentes de carro, quase morreu e passou a ser um frequentador assíduo de clínicas de recuperação.

E agora, o Sócrates. Mesmo sendo médico, nunca negou que gostava de uma cachacinha, de uma cerveja e de fumar os seus cigarros. Depois de ser internado duas vezes por cirrose alcoólica e só conseguir respirar com a ajuda aparelhos, a vida de Sócrates, hoje em dia, está dependendo de uma restauração milagrosa de seu fígado ou até mesmo de um transplante.

A liberdade é mais ou menos assim, igual um cachorro correndo atrás das rodas de um carro. Quando alcançamos, não sabemos o que fazer com elas.

Uma mentiraiada atrás da outra
11/09/2011

Uma vez, faz uns quinze anos, chegaram para um desses cantores sertanejos, não lembro qual deles, um desses aí, Leandro, Leonardo, Zezé Di Camargo, Luciano, sei lá, e disseram que eles precisavam lá de um documento, que sem ele não ia dar para assinar o contrato do show, nem receber o cachê. O tal do cantor ainda estava em início de carreira, e não dava para mandar um jatinho buscar o tal documento na fazenda deles nem nada dessas coisas. Aí, então, um dos assessores teve a idéia:

– Pede para eles mandarem por email!

E realmente, eles telefonaram, avisaram qual documento estavam precisando, e os caras lá o enviaram sem muitos problemas. Naquele tempo, as pessoas ainda não tinham entendido muito bem o espírito desse negócio de internet. O tal do cantor sertanejo coçou a cabeça enquanto olhava o documento saindo da impressora, pensou um pouco sobre a vida, e resolveu deixar para lá. No dia seguinte, quando eles mostraram os tais documentos, viram que estava faltando uma fotografia. Ligaram novamente para a cidade deles e, instantaneamente, a foto chegou, também por email, resolvendo de vez o tal problema.

Alguns meses depois, já devidamente reconhecidos como ídolos, um dos cantores entrou no camarim especialmente reservado para eles no principal hotel da cidade e encontrou seu companheiro revirando tudo o que era gaveta e armário do quarto.

– O meu cinturão! Aquele, com a minha inicial, esqueci lá em casa!

O que tinha entrado no quarto sorriu e falou, do alto de toda sua experiência tecnológica:

– Não tem problema, pode deixar que eles mandam por email!

Li essa história uma vez, num jornal, e me esborrachei de tanto rir. Há uns vinte anos, ninguém ainda sabia direito onde é que esse negócio de informática ia dar, e nem passava pela cabeça da gente que a coisa fosse mudar o mundo do jeito que mudou. Éramos todos aprendizes e, pelo visto, continuaremos sendo ainda por um bocado de tempo.

Outro dia desses mesmo, há menos de uma semana, desenvolvedores de um aplicativo para iPhone tiveram que pagar uma multa porque eles prometiam curar cravos e espinhas com luzes coloridas emitidas dos aparelhos diretamente no rosto do paciente. É óbvio que isso é um absurdo, sem nenhum estudo ou evidência científica, mas, mesmo assim, milhares de pessoas já tinham comprado o programinha antes que eles proibissem sua venda. É como o velho Einstein já dizia:

“Só duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana.”

Vá plantar batata
04/09/2011

Por exemplo. Olha aí como esse povo reclama da poeira. Que quando eles eram crianças, nessa época do ano, ficava um tempo sem chover sim, ninguém está falando que não ficava. Mas de vez em quando caía uma chuvinha e dava uma amenizada nas coisas. Mas hoje em dia não. Hoje em dia, os rios secam quando chega o meio do inverno. Secam. Que eles nunca viram um rio secar antigamente. Antigamente os rios não secavam. Os rios até baixavam um pouco de nível, mas secar? Nunca. Igual esse negócio de fome. Tudo bem, sempre teve pobre no mundo, mas antigamente não se passava fome. As crianças comiam aí, o que tinha no quintal, tinha mandioca, batata doce, jabuticaba, mamão, toda casa tinha essas coisas. Agora, esse povo é tudo preguiçoso e ninguém planta mais nada, por isso que passa fome. Tem que ter pelo menos para comer, ué. A gente vê aqueles baitas quintais com churrasqueira, cobertura, tudo com piso de pedra e não sei lá mais o quê. E não tem nem um pedacinho de terra para plantar alguma coisa, uma cebolinha, uma salsinha, que são coisas que nasce em todo lugar que nem mato. Agora, antigamente, a gente não tinha medo de pegar na enxada não. Sempre tinha umas espigas de milho, umas abobrinhas, umas alfaces. E era tudo a gente mesmo que plantava. A gente tirava aquele mato todo, aquelas árvores que não prestavam pra nada só pra juntar bicho, e plantava coisa que dava pra comer. E a água não faltava, era só cavar que a água brotava do chão, limpinha, não é que nem hoje que a água é tudo contaminada por esgoto.

– E onde é que você jogava o esgoto, naquele tempo?

– O quê?

– O esgoto. Onde é que vocês jogavam o esgoto antigamente?

– Ah, tinha as fossas.

– E as fossas que vocês cavavam, vocês acham que iam dar aonde?

– Aonde?  Ah, sei lá, na terra eu acho.

– Pois não iam. Elas iam dar direto na água.

– Na água?

– É, na água. E, por falar em água, sabe por que não chove mais que nem antigamente?

– Por quê?

– Porque vocês cortaram “aquele mato todo, aquelas árvores que não prestavam pra nada só pra juntar bicho”. Por isso a Terra esquentou, e agora não chove mais.

– Ih, lá vem você com esses papinhos ecológicos.

– Vai lá então, no seu quintal, quero ver tirar a piscina e plantar batata!

– Também não precisa ficar bravo, né? Puxa vida…

E o que a gente coloca no lugar?
02/09/2011

Antes de mais nada, quero lembrar que eu sou jornalista. Apesar de ter cursado outras três faculdades, essa foi a única que eu consegui me formar ali, de papel passado, com diploma, beca, cerimônia de formatura e tudo o mais. Mas, mesmo antes de me formar jornalista, eu já tinha essa estranha mania de meter o pau em qualquer coisa que encontrava pela frente. Acho que sou um dos maiores seguidores e – por que não? – divulgadores daquela famosa frase anarquista “Hay gobierno? Soy contra.”.

Esse meu lado, digamos, mais crítico, começou quando eu ainda era criança, lá na casa dos meus pais. O meu pai, para quem não sabe, é daqueles católicos fervorosos. Acredita em tudo o que a igreja católica diz, inclusive na infalibilidade do Papa. Para você ver até onde vai o seu “devotismo”, até hoje, quando sintonizamos um canal no qual o Papa está fazendo algum discurso, meu pai exige silêncio absoluto na sala, como um ato de respeito à palavra de Deus.

Pois bem. Mais ou menos com dez anos de idade, provavelmente só para ser contra o meu pai, eu resolvi que seria ateu. Não disse isso na hora, é verdade. Demorei mais uns cinco ou seis anos para divulgar a minha decisão para a família. Mas foi mais ou menos por aí que eu me dei conta de que não acreditaria em mais nada para o resto da minha vida, e passei a desconfiar de tudo e de todos.

A família, por exemplo, é uma instituição falida. É coisa da época das cavernas. Até mesmo os orangotangos e gorilas já se tocaram que esse negócio de manter apenas um parceiro sexual durante toda a existência é uma idéia totalmente equivocada, que pode até condenar uma espécie à extinção.

E o sistema educacional, então? Já se colocava alunos sentados em carteiras voltadas para uma lousa, ouvindo um professor se distender sobre a geografia mundial, desde a Antiga Grécia.

Política, então, é uma grande porcaria, da qual só participam os homens mais corruptos produzidos pela sociedade, num jogo de poder de onde saem sempre os mesmos vencedores.

Como você pode ver, é bastante fácil criticar. Basta ter um pouco de raciocínio lógico, misturar com uma pitada de conhecimento, e pronto: você já pode até ser considerado um jornalista.

O grande problema do jornalismo é aquele, que eu sugiro no título dessa crônica. Tudo bem. A coisa realmente vai de mal a pior, e são necessárias mudanças urgentes.

Mas… o que é que a gente coloca no lugar?