Archive for fevereiro \28\UTC 2010

Pombas, a gente vem até aqui e nada de Tsunami?
28/02/2010

Todo mundo sabe que o jornalista gosta é de desgraça. Eu, pelo menos, não me lembro de, em algum dia da minha vida, ter visto numa manchete de jornal, daquelas que aparecem na primeira página, lá em cima, uma notícia boa sequer. Tudo bem. De vez em quando aparecem coisas como “Brasil é Tetracampeão” ou “Lula é eleito Presidente”, mas, mesmo assim, isso só é notícia boa para os que ganharam. Então, se é verdade que jornalista gosta mesmo é de dar má notícia, esse final de semana deve ter tido até festa no sindicato da categoria. Porque foi uma desgraça atrás da outra.

Começou com aquele terremoto do Chile. O que é isso meu deus do céu? As imagens do Haiti nem bem desgrudaram de nossas retinas, e aí acontece um terremoto ainda maior, bem aqui do nosso lado? E não parou por aí. Neste domingo, teve terremoto também na Argentina, embora de menor intensidade, e pasmem: teve terremoto até no Brasil! É… No Recife, um tremor de terra de baixas proporções foi sentido em Caruaru e em praticamente todo o agreste, causando pânico entre os moradores. Os cientistas até que tentaram dar uma amenizada na coisa, dizendo que os terremotos da Argentina e do Brasil não tinham nada a ver com aquele enorme lá do Chile, mas eu não sei nem se isso é muito bom. Se fosse apenas uma espécie de “reflexo” do terremoto do Chile, ainda vá lá, era um terremoto só e pronto. Mas, se pudermos acreditar nos cientistas, foram TRÊS terremotos diferentes, atingindo três países da América do Sul.

E, como se não bastassem as tragédias que vem debaixo da terra, tem também as que vem de cima. O número de mortes causado pelo temporal Xynthia, que varreu o oeste da França no último domingo, já chegou a mais de 40 pessoas, segundo dados divulgados pelas autoridades francesas.

Quer dizer. Foi tempestade pra tudo que é lado, terremotos à revelia. Um fim de semana perfeito para a jornalistada toda. Teve até tsunami, veja você. Por causa do terremoto no Chile, o mundo todo ficou em alerta, com medo de que vagalhões atingissem suas praias. No Japão, mais de 320 mil pessoas foram evacuadas. No Havaí, local mais propenso a um tsunami devido à sua posição em relação ao Chile, uma equipe de jornalistas da CNN falava ao vivo, esperando as ondas. Em dado momento, falando diretamente de uma praia, o repórter olhou para o mar e, sem muito o que dizer, tascou:

– Estamos todos muito ansiosos.

Parecia que estava para começar uma final do Super Bowl.

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Orca: a baleia-assassina
25/02/2010

Lá nos Estados Unidos, mais especificamente no “Seaworld”, de Orlando, um dos mais importantes parques aquáticas do mundo, uma orca matou sua treinadora. Vejam bem. A orca não COMEU a treinadora, coisa que seria terrível sim, mas que não passaria de um resquício  do instinto de sobrevivência da espécie, que por alguma razão escapou incólume depois de todos aqueles anos de treinamento espartano. Não. A orca não comeu a treinadora para saciar sua fome. A orca MATOU a treinadora. Pura e simplesmente. Segundo testemunhas, a orca se aproximou da treinadora como quem não quer nada e, de repente, sem aviso nenhum, agarrou a mulher pelos cabelos e mergulhou na água por uns bons dez minutos, matando a coitada da moça afogada.

A notícia em si não parece ter muita importância. O que é a morte de UMA treinadora de baleias, frente aos MILHARES de mortes que a gente vê por aí, com essas enchentes, terremotos e nevascas que estão se tornando cada dia mais frequentes pelo mundo todo. A notícia só me deixou, sei lá, com uma impressão esquisita. Porque, matar por matar, até pouco tempo atrás era coisa exclusiva do ser humano. Quantas vezes você já não ouviu essa frase? “Só o homem mata por prazer”. Ou coisa parecida. Bem, não sei se por algum tipo de doença, de desequilíbrio mental ou pela perniciosa convivência com os seres humanos, o diabo dessa orca parece que tomou uma atitude que só a nossa espécie, até então, era capaz. Matou porque quis matar, só pelo prazer da coisa.

Eu fico pensando se, de uma hora para outra, os bichos todos começassem a se rebelar desse jeito, que pandemônio não ia ser. Imagine só aquelas imensas boiadas partindo para cima dos peões das fazendas no Mato Grosso. Ou dos cowboys do Texas. Ou então nossos… cachorros! É, os nossos poodles, bassês e labradores, atacando nossos filhos e netos que a gente tinha deixado em casa na maior confiança, achando que eles estariam até mais seguros com a presença de um cão de guarda. E os gatos, então? Com aquelas garras e aqueles dentes e aqueles olhos esquisitos que brilham no escuro e…

– Querido, tudo isso porque uma pomba fez um cocozinho na sua camisa?  Tira a camisa aí que eu coloco na máquina de lavar, isso acontece toda hora…

– Acontece toda hora coisíssima nenhuma! Eu vi muito bem o que aquela pomba fez, ela mirou! Aquela desgraçada MIROU!

Elogio ao Político
23/02/2010

Falar mal de político é fácil. Qualquer Zé Mané ali na esquina consegue. Afinal, ele tem a platéia inteira a seu favor. Agora, eu quero ver é aparecer alguém com coragem de defender a classe política. Tirando os advogados, é claro.  Porque, se você pensar bem, ser político não é fácil. Ainda mais se você for razoavelmente honesto. É, porque, entre os milhares de políticos profissionais, tem que existir um ou outro que é honesto. Até mesmo por uma questão de estatística.  E esses aí devem sofrer um bocado. Inclusive na própria família. Já imaginou você ser filho de um deputado, naqueles dias que descobriram aquele rolo todo do mensalão? Até você explicar que o seu pai não tinha nada a ver com isso, que ele não tinha recebido propina nenhuma, e nem era do PT, você já tinha virado alvo de azucrinações de tudo quanto é tipo – E esse tênis novo aí, foi o José Dirceu que deu? – Dez em matemática, ninguém tira dez em matemática, seu pai deve molhado a mão de uns professores aí, não molhou? – e tantas outras.

E época de eleição então, que a gente pode até achar que é a época que político mais gosta, deve ser é um verdadeiro inferno. Porque, pensa bem aqui comigo. Se você, como político, fizer alguma coisa boa, tipos, inaugurar uma escola pública moderna, com professores capacitados, salas informatizadas e tudo o mais, sempre vai aparecer alguém dizendo que você está querendo é se reeleger. Não adianta você fazer aquela obra que todo mundo estava esperando, tipos, duplicar a rodovia Euclides da Cunha, ou criar um novo Posto de Atendimento à Saúde que dá de dez em muito hospital particular. Isso sempre vai soar como se o político tivesse feito aquilo só porque as eleições estão aí e ele precisa mostrar serviço. E vai o político não fazer nada então. Aí é que todo mundo cai de pau, dizendo que se ele não fez nada em quatro anos, vai querer se reeleger para quê? Olha aí os outros, inaugurando uma obra atrás da outra, pelo menos eles estão tentando melhorar alguma coisa nesse país. Quer dizer, em época de eleição, não tem escapatória. Fazendo ou não fazendo, o político é sempre um safado sem vergonha, o que não é bem a verdade… A verdade é que o político é um incompreendido e…

– Querido?

– Hã?

– Você não está querendo se candidatar outra vez, está?

– Eu? Não, que é isso, eu só estava conversando, oras. Não se pode mais conversar nessa casa?

Conversas depois do almoço
21/02/2010

– Olha, tá aqui, ó, para quem quiser ver!

– O que é que está aí, querido?

– Dá uma olhada nessa notícia aqui, que saiu na Folha de S.Paulo de hoje. “Um estudo da Universidade Californiana de Berkeley revela que…

– Berke o quê?

– Ber-ke-ley, querida, Ber-ke-ley, na Califórnia!

– Berkeley. Califórnia. Tá.

– Pois então, como eu estava dizendo, “um estudo da Universidade Californiana de Berkeley revela que uma hora de sono à tarde pode tornar as pessoas mais inteligentes, pois serve para arejar a mente e melhorar a capacidade de aprendizagem”.

– E o que é que tem isso?

– Tem que toda hora que eu vou tirar uma sonequinha depois do almoço, você vem me acordar dizendo pra gente ir no banco, ir no supermercado e não sei mais o quê. Você está me deixando mais burro, entendeu? Mais burro!

– Eu não estou deixando ninguém burro. Se depois do almoço é a única hora que a gente pode fazer essas coisas, o que é que se há de fazer?

– E olha aqui, ó, tem mais.  “A descoberta reforça a hipótese de que o sono facilita o armazenamento da memória a curto prazo e permite espaço para novas informações”.

– Memória de curto prazo?

– É, é, memória de curto prazo e novas informações! Você tem que meter na cabeça que, toda hora que me acorda quando eu estou dormindo no sofá depois do almoço, você está fazendo com que eu não me lembre mais das coisas que eu tinha de fazer. E pior. Não me deixa espaço para enfiar coisas novas na cabeça! Depois, fica reclamando que eu não converso com você, que eu só reclamo do trabalho, que eu só falo de futebol e coisa e tal! É tudo culpa sua mesmo! Você está acabando com todo o espaço livre do meu cérebro!

– Puxa vida, mas como é que eu ia saber de uma coisa dessas?

– É, tem que se informar mais, mulher! E olha aqui, ainda “segundo a equipe de pesquisadores, permanecer muitas horas acordado leva a que nossa mente funcione a um ritmo mais lento.”

– Ah, então deve ser por isso que você é tão devagar…

– Eu sou muito o quê?

– Nada não, querido. Nada não. Pode continuar dormindo, então. Deixa que eu pego as crianças na escola e depois dou uma passadinha no banco, tá?

Vamos produzir, gente…
18/02/2010

Não vou dizer que a cena não estava muito bonita. Inspiradora, até. Na praça, a manhã meio nublada ainda recendia a terra molhada. O murmurinho dos pássaros se movendo entre as árvores. Uma senhora de uniforme varrendo as folhas que caíram durante a noite. Um ou outro madrugador, fazendo sua caminhada matinal. Até que uma garota, usando um daqueles colants de academia e tênis Nike, enquanto iniciava o que parecia ser uma espécie de alongamento, resolveu puxar assunto com a mulher que varria o chão.

– É bom fazer um exercíciozinho logo de manhã, né?

– Pra senhora, pode até ser.

– Experimente dar uma respirada bem fundo, sshhhhhhhhhhaahhh… A gente se sente tão bem disposta, revigorada…

– Eu não me sinto revigorada coisíssima nenhuma. Eu me sinto é cansada. E se a senhora gosta tanto de fazer exercício de manhã, porque não pega essa vassoura e sai varrendo o jardim? Eu, da minha parte, preferia estar em casa, assistindo a Ana Maria Braga.

Não pude deixar de dar uma gargalhada. Veja bem. Não é que eu ache o programa da Ana Maria Braga a melhor coisa para se fazer numa manhã, e muito menos que a atração da Globo contribua culturalmente para a formação de nossos cidadãos. Mas aquela senhora falou uma coisa que eu sempre pensei em falar, e nunca tive coragem. Será que esse pessoal que fica aí, fazendo exercícios e caminhadas, não poderia usar toda essa disposição para fazer alguma coisa pelos outros? Por exemplo, em vez do cara ficar correndo em volta de uma praça, o que não tem serventia alguma, poderia muito bem ajudar o carteiro em suas entregas pela cidade. Ou então esses caras que vão para uma academia, levantar peso. E se eles passassem uma semana trabalhando como ajudante de pedreiro, em serviços voluntários para entidades assistenciais? Eles poderiam levantar sacos de cimento, tijolos e todas essas coisas pesadas que a gente tem de carregar daqui para lá quando está construindo ou reformando. Os caras ficariam saradinhos e, ao mesmo tempo, estariam fazendo sua parte pelo bem estar da sociedade. E aqueles que ficam horas e horas andando naquelas bicicletas que não saem do lugar, ou naquelas esteiras? Será que não dava, por exemplo, para ligar naquelas engrenagens um dínamo, um aparelhinho, sei lá, qualquer coisa que gerasse energia suficiente para, pelo menos, iluminar a sala ou ligar a televisão?

Por mim, eu criaria até uma lei. A partir de agora, exercitar-se à toa passa a ser considerado um crime grave e, se realizado na semana depois do carnaval, torna-se imediatamente inafiançável. Revogam-se as disposições em contrário.

Como se divertir numa quarta-feira de cinzas
16/02/2010

Outro problema do carnaval é a quarta-feira. A quarta-feira é um tormento para todo mundo, desde para o patrão quanto para os funcionários. Porque a firma precisa voltar a trabalhar, oras bolas, e está mais ou menos estipulado que, depois do almoço, todo mundo já deve estar ali, cumprindo seus compromissos e tudo o mais. Mas acontece que ninguém vai trabalhar na quarta-feira feliz. O pessoal desacostumou, entende? E a impressão generalizada entre todos é que os patrões podiam muito bem ter dado a quarta-feira inteira de folga também, ora essa, afinal, a gente se esforça tanto durante o ano, o que custava para a firma um meio dia a mais ou a menos? E o coitado do patrão fica ali, pagando o pato, vendo cara feia o dia inteiro, como se fosse ele o culpado por essa farra toda que se apodera do país nesses quatro dias.

Bem, o patrão não tem culpa nenhuma, essa é que é a verdade. Porque, se ele decretasse que a semana começaria na quinta-feira, todo mundo ia aparecer com a mesma cara feia, e cochichando que, já que a firma ficou até quarta-feira fechada, porque diabos voltar a trabalhar numa quinta-feira, se amanhã já é sexta, quase fim-de-semana, e não vai dar tempo é de fazer coisíssima nenhuma mesmo, ainda mais com essa ressaca toda que dá para ver na cara de todo mundo. Então, o patrão sai sempre como o bandido dessa história de carnaval, embora ele mesmo esteja com olheiras e a garganta irritada, tomando até própolis com limão para ver se a rouquidão melhora um pouco, e fazendo as contas no extrato do cartão de crédito tentando se lembrar onde diabos foi que ele gastou tudo aquilo.

Mas essas coisas só acontecem mesmo com quem gosta de carnaval. No meu caso, por exemplo, que estava fazendo até contagem regressiva para ver essa festa idiota acabar, voltar ao trabalho é quase uma revanche contra os meus colegas foliões. Enquanto eles chegam lá no escritório, todos de ressaca, fazendo fila em frente ao bebedor de água e à cafeteira, eu sempre chego muito disposto, sorridente e fagueiro, propondo reuniões de trabalho para o fim do expediente no intuito de discutir as novas alternativas de investimento nessa nova situação brasileira frente à economia global.  Faço isso porque é muito engraçado reparar na reação de cada um.

Teve uma vez, que até o patrão correu para o banheiro. O estômago não estava muito bom, ele disse ao sair, esfregando compulsivamente um lenço na testa suada.

Quem tem coragem de prender a Ivete Sangalo?
11/02/2010

O problema do carnaval é que a gente se sente obrigado a ficar feliz. Então, minha encanação não é com o carnaval em si, mas com esse lance da obrigação. Eu nunca gostei de ser obrigado a nada. Para falar a verdade, a maioria das coisas que tentaram me obrigar a fazer, eu não fiz. Estudar antes das provas, entrar numa universidade federal, fazer exercícios. Não fiz e pronto.

Veja bem. Eu até que gosto de estudar, por exemplo. Eu leio bem mais do que a maioria das pessoas que eu conheço. E, quanto aos exercícios, eu não vou mentir que a gente não se sente mesmo um pouco melhor fazendo algum tipo de exercício todo dia. Mas, a partir do momento que isso virou uma obrigação, eu não quis mais fazer. De birra mesmo, entende?

E eu tenho esse mesmo negócio com a praia também. Porque diabos todo mundo tem que gostar de praia? Vá lá, eu até achava o mar muito bonito, tranquilo e tudo o mais. Mas, com o passar do tempo, passei a odiar a praia. Nas férias, se a gente não vai para a praia, é porque estamos duros. Pelo menos é isso que todo mundo fala. Mas eu não vou para a praia porque parece que a gente é obrigado a ir para a praia. E aí eu não vou.

E tem, como estávamos dizendo no início, o carnaval. No carnaval, a gente é forçado a ser feliz. Tem que entrar na folia. Pegar no ganzê. Pegar no ganzá. Ouvir Axé. Dançar e pular. Quer dizer, somos praticamente obrigados a nos tornar uns perfeitos idiotas.

Para você ver como esse negócio de ser feliz é uma coisa totalmente fora de sentido, outro dia desses, um lote de trigo estragado fez um monte de gente rir sem parar no Sudão. É verdade. Segundo a “Folha de S.Paulo”, mais de 100 pessoas começaram a rir de forma histérica depois de terem consumido trigo contaminado. Após o incidente, as autoridades locais formaram uma comissão investigadora para saber como os grãos chegaram à região e apreenderam grandes quantidades de trigo. Quer dizer, se rir à toa fosse normal, o Sudão, que não é o país mais rico do mundo, poderia ganhar muito dinheiro com esse trigo estragado. Mas não. Os sudaneses, ou seja lá como se chamam os caras que nascem no Sudão, estão atrás dos CULPADOS e, se encontrá-los, muito provavelmente vão prender os caras por uns bons anos.

E aqui? Alguém tem coragem de prender a Ivete Sangalo?

Quem é que disse que eu já fui hippie?
09/02/2010

Não sei direito quando foi que isso começou. Mas, a maioria das coisas que eu sempre quis ser nessa droga de vida, e até umas coisas que eu fui e tinha orgulho de ser, acabaram se tornando quase um xingamento. Ou, em casos mais leves, uma espécie de gozação.

Outro dia desses mesmo, uns caras me chamaram de comunista. Eles falaram – E aí, Artur, você continua comunista? Ah Ah Ah Ah. Eu não sei direito o que eles acharam de tão engraçado nesse negócio, mas eles riram até escorrer lágrimas. Quer dizer, nos anos 70, ser comunista era um ato de coragem. Era até meio charmoso. Quando eu tinha dezessete anos, eu me lembro de ter falado que era comunista numa aula do cursinho, e falei bem alto, para todo mundo ouvir. Foi um deus nos acuda. Mas, na hora do intervalo, duas ou três garotas se encostaram perguntando se eu não queria ler “O Capital” no apartamento delas. E, agora, comunista virou gozação.

Do mesmo jeito que ser hippie. Para quem não é daquela época, os hippies só desejavam paz e amor. Ser hippie era ser livre. E, muito antes dessas reuniões todas da ONU sobre o clima, os hippies já pregavam a volta à natureza e lutavam por uma vida com menos consumismo e menos poluição. Bem, só para você ver como as coisas mudam, hoje em dia eu não posso deixar a minha barba crescer nem dois ou três dias, que sempre aparece um peão pra me falar – Ô Artur, vai fazer essa barba, tá parecendo até um daqueles hippies Ah Ah Ah Ah.

E por falar em barba, tem o negócio do PT também. Não faz muito tempo, qualquer sujeito antenado votava no PT. Ser do PT era uma atitude respeitada até pelos adversários, já que a sigla era sinônimo de honestidade e de solidariedade. E isso sem contar a inteligência. Todos os grandes intelectuais, por uma razão ou outra, ou eram do PT ou eram simpatizantes. Resumindo. Ser do PT significava, basicamente, ser honesto e intelectual. E hoje em dia… bem. Você sabe o que significa ser do PT para a maioria das pessoas hoje em dia.

Sobrou até, vejam vocês, para o Caetano Veloso. O Caetano sempre foi um dos meus maiores ídolos. Ele era tudo o que eu queria ser. Revolucionário. Romântico. Cabeludo. Andrógino. Politizado. Aí, num fim de semana desses, o Caetano apareceu no “Altas Horas”, da Globo, e minha sobrinha mais nova olhou pra mim e tascou:

– Ô Tio, quem é esse velhinho?

Eu, vagarosamente, olhei para o teto. E comecei a chorar.

Bum bum paticumbum burungundum
07/02/2010

Começou. Aliás, começou já jaz uns bons dias, eu é que estou meio atrasado. É o carnaval. As coisas todas, agora, só lembram o carnaval. Mesmo coisas que não tem nada a ver com carnaval, são quase que obrigadas a entrar no ritmo. Na televisão, então, você vê de tudo quanto é coisa entrando no ritmo do carnaval. As Casas Bahia já devem ter começado seu carnaval de ofertas. Se não elas, o Magazine Luíza, as Americanas, uma dessas. Todo ano tem. Ofertas que são a alegria do povo. A alegria contagiante em 17 vezes sem juros. Bum bum paticumbum burungundum. Eu me lembro de uma vez que até o Bombril teve um comercial de carnaval, com aquele carequinha de óculos apontando os dois dedos para cima, simulando uma dança, e assoprando um apito. Era o Bombril no carnaval. Não lembro direito como eles fizeram para juntar Bombril com carnaval, mas não deve ter ficado de todo mal, porque qualquer coisa que aquele carequinha de óculos fizesse acabava ficando engraçado. Bum bum paticumbum burungundum. E os bancos? O Bradesco, por exemplo, lançou esse ano um negócio esquisito chamado Concurso Bradesco Quiz Carnaval Brasileiro. Ou algo assim. Para ganhar, o cara tem que responder lá umas perguntas sobre o carnaval brasileiro e esperar um sorteio. Bem, eu posso ser um babaca, mas um banco é uma coisa que deve primar pela ordem, pela seriedade. E carnaval é justamente o oposto. É o caos, a bagunça. Agora, me diz aí. O que é que tem a ver carnaval com uma instituição bancária? Bum bum paticumbum burungundum. Quem responder, ganha uma temporada em Salvador, com direito a levantar as mãozinhas para cima e ficar balançado de lá para cá quando passar o trio elétrico da Ivete Sangalo. Bum bum paticumbum burungundum. A coisa pega até os telejornais. Os telejornais mostrando o trabalhador brasileiro, sempre feliz e alegre, costurando suas fantasias e preparando a Marquês de Sapucaí para o maior espetáculo da Terra.

E, é claro, como poderiam deixar de faltar. Os comerciais de cerveja. Um mais animadinho que o outro. Aquela mulherada suada sob o sol de 40 graus, vestindo três lantejoulas e uma pulseirinha de pano do Senhor do Bonfim. Tem um amigo meu que chegou no bar e pediu uma Brahma e começou a olhar dos lados. Passou um pouco, ele começou a ficar nervoso. Pediu outra, e outra. Aí ele olhou para mim e perguntou:

– Vem cá, que horas que todas aquelas loiraças de biquini vão aparecer, hem?

Bum bum paticumbum burungundum.

Ponha-se no seu devido lugar
04/02/2010

Esse negócio de Dengue faz a gente não apenas ficar doente, mas também nos coloca no nosso devido lugar em relação ao planeta, ao universo e tudo o mais. Porque, veja bem. Quando a gente morre num terremoto, por exemplo, nós morremos numa coisa imponderável, grande demais para ser controlada ou prevista. Ou num furacão. Ninguém sabe direito, até hoje, como ou porque diabos surge um furacão, e muito menos uma maneira de prever o surgimento de um. E teve também aquele baita asteróide que, segundo os cientistas, caiu por aqui uma vez, decretando a extinção dos dinossauros e o início da era dos mamíferos sobre a Terra. Mas, com essas tragédias todas, nós já estamos mais ou menos conformados. Elas ultrapassam e muito nossa capacidade de desafiá-las e já quase nem tentamos mais, essa é que a verdade.

Bem diferente desse mosquitinho da Dengue. Um mosquito é uma coisa meio banal, do qual a gente está acostumado a se desvencilhar com uma simples abanada de mão, uma soprada ou, no máximo, uma chinelada. Mas esse mosquito da Dengue é um verdadeiro inferno. Para você ver só uma coisa, entre 2008 e 2009, foram mais de um milhão de casos de dengue no Brasil e mais de seiscentas mortes notificadas. E há quanto tempo que a gente ouve essas campanhas aí, para combater o mosquito da Dengue? Parece que desde que eu me conheço por gente, esses caras ficam aí, avisando para a gente não deixar a água empoçar em cima da casa, não deixar a água parada nos pratinhos de plantas, para deixar as garrafas de ponta cabeça no quintal. E, isso a gente não pode negar, até os governos fazem a parte deles. Pelo menos, aqui na minha casa, todo ano passam uns agentes sanitários, dão uma olhada no quintal, ensinam para a gente as providências que devemos tomar, e depois de uma semana ainda passa aquele caminhão soltando fumaça pelas ruas. E adianta alguma coisa? Pois não adianta. Todo ano, o tal mosquito da Dengue surge sabe-se lá de onde e recomeça a procriar, como se ninguém tivesse feito coisa nenhuma.

É por isso que eu te falo. O ser humano é muito metido a besta. Acha que está com a bola toda, mas com todos seus iphones, notebooks e aviões supersônicos, não dá conta de exterminar nem um bichinho desse tamanhinho, ó, que não dá nem uma cabeça de fósforo.

No fundo, no fundo, nossa espécie é um verdadeiro fiasco.