Archive for junho \29\UTC 2010

O palavrão e a Paz Mundial
29/06/2010

Olha. Nós estamos numa Copa do Mundo. E, mesmo que você não tenha assistido a qualquer jogo, deve estar ouvindo muito palavrão por aí. Isso porque todo mundo fala palavrão durante um jogo de futebol, quer você queira, quer não. Inclusive você – puxa vida, vamos deixar de ser hipócritas – durante uma partida da Seleção, volta e meia deixa escapar algumas expressões que, em dias normais, jamais falaria na frente do seu neto ou da sua sogra, fala a verdade.

Então, é de se espantar o tanto de gente comentando o fato do Kaká, após errar mais um chute no jogo contra o Chile, ter sido flagrado soltando um sonoro puwtaquipariw, que nem precisou daqueles caras da Globo traduzirem para a gente saber do que ele estava falando.

E o pior é que a grande maioria dos comentários citou a religião do Kaká. Que ele, como homem religioso que é, deveria ser o primeiro a dar exemplo. Que onde já se viu, um Homem de Deus, falando uma blasfêmia daquelas, e essas coisas todas.

Veja bem, eu também não estou aqui para defender o Kaká, que para mim não joga nada faz é tempo, e muito menos sua crença seja lá no quer for. Mas eu estou aqui para defender o palavrão.

O palavrão é uma instituição linguística mundial, presente em praticamente todas as civilizações, desde as indígenas até as mais desenvolvidas. E quem já assistiu a um filme policial americano com legendas sabe muito bem do que eu estou falando. A quantidade de “fuck” que os caras falam é simplesmente inacreditável, e o sujeito que faz a legenda nem traduz todos eles para não se tornar muito repetitivo. E é a mesma coisa em filmes espanhóis, italianos, franceses ou alemães.

Agora, se o palavrão é assim tão disseminado por toda parte, é mais do que provável que ele tenha alguma função social importante, como, por exemplo, diminuir o risco de um enfarte entre a população mais idosa, ou até mesmo o de abrandar o problema das agressões físicas entre parentes ou amigos. Pois já imaginou se, toda vez que você se irritasse com algum conhecido seu, em vez de falar um palavrão, você socasse a cara do pobre coitado? Ou se, em cada discussão com seu cunhado, vocês trocassem catiripapos em vez de singelos puwtaquipariws?

Pois, se não fosse o palavrão, o mundo iria se transformar numa grande carnificina, é isso que ia acontecer. O palavrão é, para mim, tal qual um Nelson Mandela ou uma Madre Teresa de Calcutá, um dos maiores símbolos da luta pela Paz Mundial.

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O Brasil está jogando um bolão
27/06/2010

Não. A seleção brasileira não está jogando um bolão. Não é a isso a que me refiro no título acima. Eu me refiro a essa mania do brasileiro de fazer bolões de aposta em todo jogo do mundial. É bolão na escola, bolão no emprego, bolão no boteco. Tem bolão pra tudo que é lado. E, na minha opinião, a gente tem que tomar um certo cuidado com esse negócio de bolão porque nosso palpite, para um cara que está a fim de analisar um pouco mais profundamente,  pode demonstrar muito mais de nossa personalidade do que gostaríamos.

Por exemplo. Um cara que aposta que o jogo vai acabar zero a zero. Sinto muito, mas esse cara é um chato. Talvez nem ele mesmo saiba disso, nem seus colegas tenham prestado atenção o bastante. Mas que o cara é um chato, é. Afinal, ninguém de bem com a vida, que goste de usufruir de bons momentos junto com os amigos, aposta que um jogo vai acabar zero a zero, transformando o que poderia ser uma tarde divertida e animada numa sorumbática e monótona reunião no fim do dia.

E tem o oposto também. O cara que sempre aposta que vai ser dez a zero. O cara que aposta um dinheirinho ali, que ele provavelmente ganhou suando a camisa num trabalho do qual nem gosta muito, devia ser um pouco mais racional. E dez a zero não é um resultado racional, ainda mais quando estamos falando de uma Copa do Mundo. O cara que aposta que um jogo vai acabar em dez a zero é um suicida em potencial. Um desequilibrado com graves problemas psíquicos. Ou então ele é uma besta completa. Em qualquer um dos casos, no entanto, o sujeito é um perigo para a sociedade e deve ser observado mais adequadamente quando no desempenho de suas outras atividades sociais. Conforme o caso, talvez ele deva ser até mesmo internado em alguma instituição psiquiátrica ou penal.

E, para finalizar, tem aqueles que, invariavelmente, apostam num dois a um. Pode ser o Brasil contra a Guatemala. A Alemanha contra o Sri Lanka. O cara vai lá e tasca um dois a um. Dois a um é um resultado neutro. Nem muito lá, nem muito cá. É uma aposta, digamos, equilibrada. Digna de um cara com total controle sobre seus instintos.

Mas, pombas, vai ser controlado assim na casa do chapéu! É Alemanha contra o Sri Lanka, gente, bota aí um onze a zero e estamos conversados!

Pra dar sorte
22/06/2010

– Pois aqui em casa é assim, para assistir o jogo, a gente coloca as coisas sempre no mesmo lugar.

– Como assim?

– Para continuar com sorte, entende? Por exemplo, essa bandeirinha aqui, a gente sempre colocou aqui, em cima da televisão.

– E sempre assim, colada com durex?

– Não, antigamente, a gente só colocava em cima da televisão. Mas aí, esse ano, a gente comprou essa aí, de LCD, e não dá para colocar em cima porque a TV é muito fininha, e aí a minha filha teve a idéia de colar assim, com durex. Ficou bom, não ficou?

– É, ficou.

– E tem os sofás.

– O que é que tem os sofás?

– Os sofás a gente sempre coloca assim na hora dos jogos, ó, viradinhos para a TV. Para continuar com sorte. A gente pega e dá uma virada assim, fica todo mundo na mesma posição de sempre.

– Todo mundo?

– É, tem essa também, você pode até rir, mas só pode assistir os jogos aqui em casa quem estava nos outros. Por exemplo, a minha filha, essa que teve a idéia do durex para a bandeira…

– Sei.

– Então, ela agora tem um namorado firme, é bom garoto o rapaz, mas ele não estava nos outros jogos, então não pode vir, senão dá azar. E o meu finado pai, que deus o tenha,que ficava ali, na poltrona dele, a gente não deixa ninguém sentar ali. Pra ficar tudo do mesmo jeito, entende?

– Entendo. Quer dizer, mais ou menos.

– Ah, e tem as roupas também. Tem que usar sempre as mesmas roupas.

– As mesmas roupas?

– É. Quando tem jogo do Brasil, todo mundo fica com a mesma roupa que usava. A mesma camiseta, a mesma calça… tudo mesmo.

– Tudo?

– É… Se você não contar para ninguém, eu te falo uma coisa.

– Fala.

– A gente usa até as mesmas, hã… roupas de baixo. Eu uso a mesma cueca, as meninas, todo mundo.

– Puxa vida, eu não sabia que você era tão supersticioso.

– Bem, eu não sou, mas, quando é jogo do Brasil, você sabe…

– Sei, sei… Mas, vem cá, desde quando vocês fazem isso tudo?

– Bem, já faz aí uns bons dez anos…

– Dez?

– É, por aí.

– Mas… o Brasil não perdeu a última Copa?

– O quê?

– Se vocês fazem isso tudo para dar sorte, como é que o Brasil não chegou nem nas finais da última Copa?

– Na última Cop… Puts, é mesmo!

Copa do Mundo é um inferno
17/06/2010

Na boa. Uma coisa é a gente assistir um joguinho de vez em quando. Outra é ter que ver todo mundo falando de futebol pra todo lugar que se olhe.

Até que tudo bem se a coisa toda se resumisse a só assistir o futebol. Curtir um joguinho de vez em quando, especialmente se o Brasil não estiver jogando, é até que razoavelmente divertido. A gente percebe mais as jogadas, as tabelas, os dribles, os chutes com efeito. Coisas que a gente nem repara quando o Brasil está em campo, que é sempre aquele deus-nos-acuda. O meu problema é mais com o que está acontecendo com as pessoas do que com os jogos em si.

Durante a Copa do Mundo, todo mundo simplesmente enlouquece.

Até mesmo pessoas das quais a gente jamais esperaria um dia ouvir certos tipos de comentários, acabamos por flagrar dando uma de fanático desbocado. Outro dia desses mesmo eu presenciei uma cena inacreditável. Uma respeitável senhora, da qual – por reverência à sua sempre discreta e até um pouco aristocrática figura – reservo-me o direito de não publicar o nome, estava dando tapas e socos raivosamente em sua televisão, gritando a quem quisesse ouvir:

– Mer** de televisão do inferno, bem que eu falei para aquele via** do meu marido não comprar a por** dessa TV do Paraguai, que se fosse um país que prestasse pra alguma coisa tinha é ganhado daquele timinho da Itália!

Quer dizer, quando a questão envolve futebol, parece que as pessoas, mesmo as mais recatadas, perdem completamente as estribeiras e saem falando coisas que nem sabem direito o significado.

E isso sem contar o que elas fazem com seus carros. A gente vê aqueles caras que nunca na vida deixaram nem a esposa dirigir o automóvel da família, que passam o domingo lavando e lustrando a lataria do Corcel II prateado, que fazem todas as crianças lavarem os pés antes de entrarem e ainda avisam que ali dentro ninguém come nada que vai encher os bancos de farelo, e aí esse mesmo cara pega e pinta os vidros e a lataria de verde e amarelo, enfia uma bandeira na antena e enche o carro de amigos bêbados comendo chips e derramando cerveja pra tudo que é lado.

Sei lá. Eu acho melhor o brasileiro começar a gostar de um outro esporte qualquer. O golfe, o handebol. Quem sabe até o ping-pong. Porque esse negócio de futebol, pra mim, é coisa do demo.

Uma sonequinha em plena tarde de terça-feira
15/06/2010

Para você ver só uma coisa, quando deu uns quarenta minutos do primeiro tempo, a minha mulher dormiu. É, dormiu. Dormiu de roncar. E não adiantou show de intervalo nenhum, nem o primeiro gol do Brasil. Ela nem se mexeu. Só no segundo gol que ela deu uma viradinha no sofá, abriu os olhos apenas um pouco mais do que aqueles coreanos (coreanos, gente, coreanos…), e perguntou quanto é que tava o jogo. Mas eu desconfio que ela nem ouviu minha resposta e caiu no sono outra vez.

É nessas horas que eu detesto ser jornalista. Eu não posso fazer de conta que não aconteceu nada, porque aconteceu. O Brasil inteiro largou suas atividades rotineiras e foi para a casa assistir televisão, sob o olhar beneplácito e até incentivador da maioria dos patrões. Só que, ao mesmo tempo, não dá para comentar um jogo de futebol em que a maioria dos torcedores teve vontade de aproveitar essa folguinha inesperada para colocar o sono em dia.

Aliás, é impressão minha ou o intervalo do jogo do Brasil foi o único momento desde que começou a Copa que os sul-africanos pararam de tocar aquelas vuvuzelas? É, porque, já no finzinho do primeiro tempo, parece que eu parei de ouvir aquele som infernal de enxame de marimbondo, e o silêncio continuou até começar o segundo tempo. Será que até os nossos anfitriões acabaram aproveitando para tirar uma pestana?

Mas, tudo bem. Também não vamos falar que tudo foi assim, de uma monotonia só. Durante o jogo, houve diversos tipos de monotonias. Teve aquela, mais sentida no primeiro tempo, quando meus olhos começaram a pesar. Teve também aquela monotonia do Galvão Bueno, tentando levantar o astral dos consumidores da Globo, dizendo que no segundo tempo ia melhorar. E teve até uma monotonia que eu nunca havia sentido antes. A monotonia de ver dois gols do Brasil sem levantar a bunda do sofá.

Imagino que tenha gente por aí que vá discordar de tudo o que eu disse. Que foi um jogo emocionante. Que, no finalzinho, ficaram rangendo os dentes com medo da Coréia (a Coréia, gente, a Coréia…) empatar o jogo. Ou que o Maicon (quem?) jogou um bolão. Mas esse é o tipo de gente que faz festa para qualquer coisa. Eu, da minha parte, estou esperando ansiosamente pelo jogo de domingo à tarde. Já imaginou só? Comer uma feijoadinha e assistir o Brasil depois do almoço?

Eu vou acordar só na segunda-feira. Revigorado.

Fala Galvão!
13/06/2010

Vocês podem falar o que quiserem. Que ele é chato. Que ele é mal educado com os entrevistados. Que ele grita muito. Que ele não sabe as regras direito. Que ele é ufanista. Que ele não entende patavinas do que está falando. Podem falar até que ele está meio esclerosado. Mas um jogo da Seleção Brasileira sem a locução do Galvão Bueno não tem a menor graça. Descobri isso quando vi, nesse último domingo, a corrida de Fórmula 1.

Fiquei um tempão ali, olhando as primeiras imagens da corrida. Os carros estavam todos lá, parados no grid de largada. Os mecânicos com aqueles guarda-chuvinhas que os caras colocam para o piloto não tomar sol. Os pilotos sentados nas suas devidas acomodações. Só que parecia que estava faltando alguma coisa. A princípio, imaginei que fosse o ronco do motor. Mas os motores ligaram, e eu continuei com aquela sensação. Foi só na hora que os carros arrancaram que eu me dei conta. Não era o Galvão Bueno que estava narrando a corrida, mas um outro cara lá que eu nem lembro o nome. E, apesar de até ter sido uma largada bem emocionante, com uns acidentes legais – que é o que, no fundo, no fundo, a gente gosta mesmo de ver na corrida, mas tem vergonha de confessar – eu não consegui ficar muito tempo na frente da televisão.

Que graça tem assistir uma corrida sem o Galvão Bueno fazendo a disputa de dois carros retardatários pela vigésima colocação parecer uma batalha épica? E quem melhor que ele para não deixar o coitado do comentarista especialmente convidado falar? Ou de discutir em pé de igualdade com um ex-piloto de Fórmula 1 quais são as melhores maneiras de se trocar as marchas num carro de… Fórmula 1?

Tudo bem, tudo bem. Eu entendo que vocês não gostem dele. Eu também já tive a minha fase de “Cala a boca, Galvão!”. Mas, venhamos e convenhamos. Faça ele calar a boca de verdade para você ver só uma coisa. Por exemplo, no jogo do Brasil desta terça-feira, tire o som da TV. Pois aqueles vinte e dois homens correndo para lá e para cá, sem o Galvão se esgoelando nas nossas orelhas, vai perder totalmente o sentido. A gente quase não vai conseguir entender como é que o nosso chefe resolveu dar uma folga no trabalho só para a gente assistir o jogo.

Pois é o Galvão Bueno que faz as coisas parecerem espetaculares num mundo absolutamente chato e monótono. Eu, se pudesse, escolhia o Galvão Bueno para narrar a minha vida.

Ia ser emocionante.

Dia de quem?
11/06/2010

Você sabe de onde surgiu essa história de Dia dos Namorados? Pois eu vou te contar. Não sei se você sabe, mas o nosso Dia dos Namorados é chamado, no mundo inteiro, de Dia de São Valentim. E a história de São Valentim, ou Saint Valentinus, que é um santo católico, é a seguinte.

Durante o governo do imperador Claudius II, isso ainda lá pelo ano 300 d.C., foi proibida a realização de casamentos em toda Roma porque o tal do Claudius encanou que um soldado de verdade não podia ficar preocupado com família, esposa, filhos, pais, mães e essas coisas. Um soldado de verdade só podia pensar na guerra. Então, como ele queria formar um grande e poderoso exército, proibiu o casamento e, por extensão, os namoros.

Para você entender direito, se tivesse telefone, twitter ou messenger na antiga Roma, ele ia proibir tudo isso para os soldados, para eles não ficarem por aí, respondendo recadinhos de fãs, e perdendo o foco no treinamento. O Claudius era uma espécie de Dunga para o pessoal lá de Roma, entende? Pois então.

Acontece que um bispo da Igreja Católica continuou a celebrar casamentos em segredo, mesmo com a proibição do imperador. O nome do Bispo era Valentim. Ele achava, ao contrário do imperador, que é a família que fortalece o homem, que o casamento é a base de sustentação da sociedade, que qualquer método anticonceptivo é pecado e esse blá-blá-blátodo que a Igreja Católica prega até hoje.

No entanto, o imperador Claudius descobriu tudo, prendeu o bispo Valentim e o condenou à morte na guilhotina. Enquanto estava preso, muitos jovens apaixonados jogavam flores e bilhetes para o Valentim, dizendo que ainda acreditavam no amor e no romantismo.

Entre essas pessoas que jogavam lembranças carinhosas ao bispo estava uma jovem cega. Um dia, quando ela foi visitar o bispo Valentim, milagrosamente recuperou a visão. Foi por causa disso que o Valentim acabou virando santo e, anos depois, emprestou seu nome e essa mania de dar presentes no Dia dos Namorados. Então, não me venha falar que eu nem sabia do Dia dos Namorados que eu…

– Eu não falei que você não sabia, eu falei que você ESQUECEU!

– Tudo bem, tudo bem, esqueci… Mas com esse negócio de Copa do Mundo, parece que até a TV Globo esqueceu!

– Podia ter dado pelo menos um presentinho…

– Que tal… Que tal… essa camiseta da seleção, hã? Olha só, que bonita! Número 10, do Kaká!

Sabe o que você faz com essa vuvuzela?
08/06/2010

Sabe como é o nome dessas cornetas que os torcedores sul-africanos tocam nos estádios de futebol? Pois elas são chamadas de “vuvuzelas”. Mas, a partir dessa sexta-feira, muito provavelmente eu as chamarei de um monte de outras coisas também.

Porque, se as outras Copas do Mundo já foram um inferno em termos de poluição visual, essa Copa promete encher de lixo também os nossos tímpanos. Além dos cartazes, outdoors, faixas, bandeirolas e propagandas de TV cheias de camisetas e bandeiras verde-amarelas, ainda vamos ter de aguentar os rojões, os gritos histéricos do Galvão Bueno, os carros tocando buzina de madrugada e… aquelas malditas cornetas fazendo PÓWÓWÓWÓWÓWÓW nos nossos ouvidos.

Olha, eu não vou mentir aqui para vocês. Eu também torço pela Seleção. Eu reclamo, falo que não gosto de futebol, que o futebol é o ópio do povo, que os pais deviam dar mais atenção para suas famílias em vez de passar os domingos assistindo jogos pela televisão. Mas, na hora do “vamo vê”, eu estou ali, que nem todo mundo, na frente da TV, roendo as unhas e xingando o Dunga a cada jogo da Seleção. Mas entre isso e se pintar de verde e amarelo e começar a tocar uma corneta maluca no ouvido dos outros existe uma enorme diferença. Vamos ser sinceros. Não existe a menor necessidade disso. Os jogos, por si só, já são bastante emocionantes sem essa barulheira toda. Para ser sincero, eu acho que é no silêncio que a gente se emociona mais. Vejam vocês as igrejas.

Nas igrejas, antigamente, reinava um silêncio absoluto, que nos trazia lágrimas aos olhos. Era um silêncio, digamos, quase “divino”. Ou que, pelo menos, nos passava essa impressão de divindade. Agora, depois que começaram com aquelas cantorias, palmas, solos de guitarra, pandeiros e tudo o mais, a coisa virou um deus nos acuda. Acabou a emoção, entende? Eu, pelo menos, não fico mais emocionado como ficava. Agora, imagina só se a moda pega e o povo começar a tocar aquelas “vuvuzelas” nas igrejas. Pois é isso que eu estou falando. Não precisa desse barulho todo. Dá muito bem para se emocionar e torcer pela seleção, se não em silêncio, pelo menos sem esse escândalo todo dessas cornetas malucas e…

– Querido, faz a vontade do seu neto e compra logo essa corneta, vai…

– Tudo bem, tudo bem. Eu compro. Mas quero só ver você reclamar quando ele começar a tocar a corneta na hora da novela, tá?

Tudo faz parte de uma grande conspiração
06/06/2010

Eu tenho mania de perseguição. É uma coisa que nasceu comigo e que – fazer o quê? – eu aprendi a viver com ela. Isso desde quando eu era pequeno. Tipos, durante toda minha vida de estudante eu sempre achei que ninguém gostava de mim. Muito mais que isso. Eu tinha certeza absoluta de que as pessoas nem sabiam que eu existia, fato que era facilmente comprovável, bastando você perguntar meu nome entre os alunos da escola – pesquisa, aliás, que nunca me arrisquei a fazer. Com o passar dos anos, minha mania de perseguição foi piorando, piorando e, aos poucos, se transformou numa grande capacidade de criar teorias conspiratórias. Em absolutamente todas as atividades humanas, eu construo uma teoria da conspiração, algumas delas tão boas que já chegaram a convencer muita gente. Até a mim mesmo. Só para citar um exemplo, eu tenho a Teoria dos Dentistas.

Veja você uma coisa. O ser humano já chegou na Lua. Já inventou aparelhos que se comunicam por meio de ondas invisíveis, transmitindo imagens e sons em tempo real. E os dentistas, até hoje, precisam cavocar o nosso dente até fazer um baita de um buraco só para curar uma cárie? Vamos ser sinceros. Tem alguma coisa errada aí. Alguém, em algum lugar, já deve ter inventado a cura para a cárie, mas e aí o que é que os dentistas iam fazer para ganhar a vida? Então, a JDI – Junta dos Dentistas Internacionais, ou coisa que o valha, deve ter dado uma grana para calar a boca do sujeito e os dentistas puderam continuar a exercer suas atividades normalmente.

No mesmo plano, os médicos. É uma coisa muito esquisita esse negócio de toda hora aparecer uma doença nova no pedaço. Uma AIDS ali, uma gripe aviária aqui, uma gripe suína acolá. E todo mundo sai correndo atrás dos seus médicos, pedindo medicamentos, exames, vacinas e internações que acabam por enriquecer ainda mais, além dos próprios médicos, toda a indústria farmacêutica.

E os carros? Com todo esse avanço tecnológico, porque é que ainda não inventaram um carro movido a água?  E até mesmo o carro elétrico, porque diabos está demorando tanto a chegar ao mercado?

E o Dunga? Vai dizer que não tem mão de alguma potência estrangeira por trás da escalação do Dunga para técnico da Seleção Brasileira, para ver se conseguem baixar um pouco a bola do Brasil, que já anda colocando muito suas asinhas de fora até na política internacional? Tá na cara que tem.

Esses caras, eles sabem muito bem o que fazem…

Das invenções e outras coisas
01/06/2010

Se você mora em uma cidade, todas as coisas que estão ao seu redor foram criadas por alguém. Li essa frase outro dia desses, na Folha de S.Paulo, num artigo sobre um novo livro de design que estava sendo lançado. E é verdade. Até mesmo o seu bicho de estimação, se você tiver algum, foi inventado. Porque os bichos deviam estar correndo por aí, livres, e não presos na sua casa.

É uma coisa que eu nunca tinha pensado muito a respeito. Se a gente olhar em volta, desde a hora que acorda, a gente começa a conviver com coisas que alguém, no mínimo, pensou um pouco para ela estar ali, à nossa mão. Vejam vocês o colchão. O colchão precisou ser pensado, pois não? Primeiro, devem ter feito alguma coisa bem dura, como o chão das cavernas, que é onde nossos antepassados deviam dormir. Depois, alguém achou por bem amolecer um pouco aquele troço, porque não havia costas que aguentassem. Aí, eles fizeram um colchão de espuma bem mole, o que deve ter iniciado uma verdadeira epidemia de desvios de coluna e bicos de papagaio. Isso até chegarem mais ou menos ao colchão que temos hoje, uma coisa nem muito dura, nem muito mole, se possível com uma consistência que nos faça esquecer por completo que ele estava ali enquanto dormíamos.

E aí a gente senta na cama e coloca o chinelo e começa a pensar em quem foi que inventou o chinelo. Um chinelo desses normais, estilo havaianas. Que a idéia daquela tira enfiada no meio dos meus dedos, a princípio, deve ter parecido uma péssima solução. Afinal, aquele negócio devia incomodar, puxa vida. Provavelmente, se eu fosse o dono da fábrica das Havaianas, teria rejeitado a invenção de um calçado tão esdrúxulo. O que, talvez, explique um pouco o fato da minha conta bancária estar eternamente no vermelho.

Agora, pense bem. Nós ainda nem levantamos da cama, e eu já escrevi quase que a crônica inteira só falando de duas dessas invenções todas a que nos sujeitamos todos os dias. Nós nem começamos a pensar ainda no carpete do quarto, na maçaneta da porta, na própria porta, no banheiro, na torneira, na pia, no espelho da parede. E foi ali, olhando para o meu reflexo no espelho, que me passou pela cabeça, como um flash, a mais antiga das nossas dúvidas: e eu? Quem diabos me inventou?

Joguei um bocado de água na cara. Melhor parar com essas coisas. Eu já devo estar é atrasado pro emprego, isso sim.