Archive for março \30\UTC 2010

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
30/03/2010

Sei lá. Eu acho que eu tenho algum problema. Segundo todos os maiores filósofos, cientistas, religiosos e até o sapateiro ali da esquina, as grandes dúvidas da humanidade se resumem a essas aí, do título e, quando respondidas, farão da vida do ser humano uma espécie de paraíso sobre a Terra. Pois, para ser sincero, eu acho que são umas perguntas bem idiotas. Acho até que são meio simplórias. Para tentar me explicar melhor, vamos começar pela primeira pergunta. Quem somos?

Oras bolas. Nós somos nós, ué. Não sei o que é que esse pessoal fica arrumando tanta complicação nessa história. Se você não sabe nem quem é, ou está com amnésia ou tem sérios problemas mentais. No caso, tomar uns remédios ou algumas sessões com um bom psicanalista devem resolver ou, pelo menos, atenuar o seu problema. E se não resolver também, que se dane. Se você nem sabe quem é, não deve nem saber ler, e se conseguiu aprender a ler, não deve estar entendendo bulhufas do que eu estou falando, e muito menos está preocupado com esse papo-furado de filósofo.

Então, vamos para a segunda questão. De onde viemos?

Olha. Eu sinto muito mas, se com a idade que você está, você ainda não sabe de onde veio, a coisa está realmente meio complicada. Mas eu vou tentar explicar aqui, o mais delicadamente possível, para não chocar a sua natureza inocente. Para começar, a sua mãe e o seu pai não são virgens. Não, não me olhe com essa cara de espanto. Pelo menos uma vez na vida, com toda a certeza do mundo (no caso de você não ser um filho adotivo, evidentemente), seu pai e sua mãe transaram. Isso mesmo, rapaz. Fizeram SEXO. E aí sua mãe engravidou, ficou barriguda e, respondendo à pergunta inicial, foi daí mesmo que você veio. Direto da barriga da sua mãe para o mundo, passando antes por lugares que você nem imagina, mas eu também não vou entrar aqui nesses detalhes técnicos para não deixá-lo ainda mais chocado do que já deve estar.

E agora, para terminar, vamos logo para a terceira e última pergunta que tanto vem atormentando nossa espécie. Para onde vamos?

Olha, se você, caro leitor, for uma morena de olhos verdes, com aí seus vinte e seis, vinte sete anos, nós podemos combinar um cineminha e um jantar para mais tarde. Se não for, eu, particularmente, pretendo ir para a cama e dormir um pouco, que a noite já se faz tarde.

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Me deu vontade de escrever uma crônica de auto-ajuda
28/03/2010

Um dia ou dois depois de eu comprar meu carro novo, um Fiesta zerinho, ainda com pedaços de plástico enroscados debaixo dos bancos, ele levou uma bela duma riscada. O carro estava ali, estacionado na frente de casa, sem fazer mal para ninguém. Eu, sentado na varanda, lendo um jornal e todo orgulhoso de minha mais recente aquisição. Então ouvi um barulho. Como o de unhas raspando em uma lousa. Lembra das lousas? Aquelas coisas pretas que ficavam na frente da sala de aula no tempo em que a gente era criança e ainda não tinham inventado o datashow e o power point? Pois então. Quando a gente passava as unhas sobre as lousas, elas faziam aquele barulho RRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉCC, que arrepiava até os cabelos da nuca. E foi um barulho desses que eu ouvi, vindo direto do meu carro novo.

Era um desses catadores de lixo, com uma espécie de carrinho-de-supermercado feito em casa, cheio de papelão e outras tranqueiras. Provavelmente, já estava no fim do expediente, porque a pilha de lixo estava aí com uns dois metros de altura, tapando completamente a visão do catador. Andando meio às cegas, não conseguiu se desviar do meu Fiestazinha a tempo e saiu arranhando tudo, desde o pára-lama até o começo da porta.  Quando ele olhou para a porcaria que tinha feito, não sabia direito o que fazer. Sem jeito, deu uma lambida nos dedos e esfregou a lataria do carro, tentando, imagino, minimizar um pouco os estragos. Olhou para mim e, num tom um tanto quanto desconsolado, falou:

– Desculpa aí, tio.

E continuou o seu caminho, coçando a cabeça e dando rápidas espiadas para trás. Na esquina, quase que ainda foi atropelado por um Honda Civic, de cujo motorista ouviu um palavrão que, para falar a verdade, estava bem enroscado na minha garganta também. Não vou dizer que eu estava calmo porque eu não estava. Mas, para quem olhasse, eu até que me comportei bem. Coloquei meu jornal de lado. Levantei e fui caminhando lentamente até o carro para avaliar de quanto tinha sido o prejuízo. E eu vou te falar uma coisa. O cara caprichou. Eram um ou dois riscos, fundos e absolutamente imunes a qualquer tentativa de meros retoques na pintura. Era coisa para se trocar a lataria.

Isso faz quase um ano. Não troquei a lataria, nem fiz remendo nenhum. Deixei os riscos lá. Eles são muito úteis para me lembrarem de vez em quando da importância excessiva que damos para certas coisas. E da pouca importância que damos para outras.

O que é que a gente faz quando não tem nada para fazer?
25/03/2010

Outro dia desses, minha filha e minha mulher tiveram que ir até São José do Rio Preto para prestar um concurso. Algum cargo no Senai, Sebrae, ou coisa parecida. Elas entraram na sala por volta da meio dia e avisaram que sairiam de lá só umas quatro, cinco horas depois. Quer dizer, eu teria que ficar zanzando por ali umas quatro horas, sem nada para fazer além de ler um livro que, quis a providência, lembrei de levar.

Andei para lá, andei para cá, e fiquei meio sem saber o que fazer. Dei umas voltas pelas quadras em volta da escola onde estavam sendo realizados os exames e não havia uma droga de lugar para sentar. Mesmo num jardim que margeava o que, aparentemente, devia ter sido um riacho há não muitos anos, mas que hoje não passa de uma espécie de esgoto a céu aberto, não havia nem um banquinho sequer que possibilitasse a um ser humano ler um livro numa posição razoavelmente confortável. Tentei me ajeitar, deitando num pequeno gramado que havia por ali, mas todos os passantes me olhavam como se eu não fosse desse mundo, ou que estivesse consumindo alguma droga pesada. Incomodado, acabei me levantando, não apenas porque detestaria explicar a situação para policiais armados, mas por causa das formigas que teimavam em subir pelas minhas pernas, alcançando locais meio complicados de se coçar assim, em público.

Olhei no relógio e percebi que, desde o momento que deixei minha mulher e minha filha em frente à escola, já haviam se passado cerca de… 10 minutos! Eu precisava fazer alguma coisa. Comer, nem pensar, já que nós três havíamos acabado de almoçar para que as duas não tivessem que fazer as provas de estômago vazio. Resolvi, então, entrar numa loja de conveniência desses postos de gasolina, onde percebi por suas vitrinas de vidro uns dois banquinhos junto de um balcão.Entrei, me sentei e pedi uma água com gás.

– E para comer?

– O quê?

– O que o senhor vai comer?

– Hum… Nada.

– Os banquinhos são só para quem vai comer.

– Bem, então… quanto custa o salgado?

– Cinco reais.

– QUANTO?

– Cinco reais.

– Puts. E a água?

– Dois e cinquenta.

– Tudo dá… sete e cinquenta?

– Isso.

– Pode por o salgado aí, então.

Sete e cinquenta por quatro horas de ar-condicionado. Pensando bem, não era tão caro assim. Abri meu livro, e relaxei.

No fundo, no fundo, é tudo muito engraçado
23/03/2010

Já desisti faz um bocado de tempo de ficar indignado com os políticos, o que só me trazia problemas de saúde, como uma cirrose hepática, uma úlcera mal resolvida e algumas cicatrizes herdadas de passeatas estudantis nos tempos da ditadura.

Mas, desde que eu resolvi dar uma relaxada, tenho percebido que meu bom humor voltou quase a seu estado original e tenho, inclusive, me sentido mais leve e comunicativo. Até mesmo os amigos e parentes notaram as mudanças e minha mãe, um dia, chegou a comentar que minha pele estava perdendo aquela coloração amarelada, o que, vindo de minha mãe, quer dizer que realmente eu devo estar numa ótima fase, já que uma de suas principais diversões é ficar falando que eu não me cuido adequadamente para um homem da minha idade e que eu preciso parar de beber e de fumar e todas essas coisas que as mães falam.

E não é só a minha saúde que tem melhorado. Coisas que, antigamente, me irritavam profundamente, hoje em dia eu acho até que bastante divertidas. Por exemplo, enquanto todo mundo começa a se coçar só de imaginar que, daqui alguns dias, estaremos em plena campanha presidencial, com direito a horário político obrigatório e debates na TV, eu, da minha parte, aguardo esses programas ansiosamente para dar umas boas risadas. Aliás, eu consigo me divertir muito mais com esses políticos do que com esses programinhas humorísticos, tipo “Zorra Total”, ou coisa que o valha. Ainda mais porque esse ano promete.

Veja bem. Outro dia, o José Serra inaugurou uma maquete. É, uma maquete. O (ainda) potencial candidato do PSDB à presidência inaugurou, antes mesmo da licitação, o projeto e a maquete de uma ponte que ligará Santos a Guarujá. E, depois, ainda cumpriu o percurso numa balsa, seguido pelo conhecido séquito de puxa-sacos e jornalistas.

Alguns dias depois, o PT deu o troco. Segundo a “Folha de S.Paulo”, o “Lula e a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT ao Planalto, viajam pelo país para inaugurações que, após a desmontagem do palanque oficial, voltam a ser canteiros de obras”. Morto de inveja, na mesma semana, o governador José Serra, logo depois de inaugurar um Centro de Reabilitação em Campinas, descerrou no mesmo local as placas de duas estradas, pomposamente assentadas em cavaletes!

A coisa toda é ou não é muito engraçada? O Lula e a Dilma inaugurando obra em construção, o Serra inaugurando pontes que não existem e placas de obras à distância…

É para desopilar o fígado de qualquer mortal.

O Devorador de Mundos
22/03/2010

Apaixonados por peixe cru. Simpatizantes do sashimi. Amantes do sushi. Correi. O atum acabou de entrar para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

Quer dizer, entrar, entrar, ainda não entrou. A Comissão Européia, braço executivo da União Européia, defendeu a inclusão do atum vermelho na lista de espécies ameaçadas com o objetivo de proibir o comércio internacional deste peixe já em 2011. O Japão, é claro, posicionou-se radicalmente contra. Afinal, embora no ocidente tenha muita gente que não passe sem o seu sashimizinho diário, são os japoneses que consomem 80% do atum vermelho pescado no planeta. O problema é que os ocidentais aficionados pela guloseima asiática vêm crescendo exponencialmente. E, ao mesmo tempo, os japoneses continuam se  procriando como nunca e sua outrora grande ilha parece estar ficando cada dia menor para tanta gente. Então, segundo aí esses grupos de defesa do meio ambiente, as reservas de atum vermelho diminuíram 75% só nos últimos cinqüenta anos, com tendência ao extermínio total em menos de 20 anos.

E, para ajudar, o salmão também não anda muito bem das pernas. Ou das nadadeiras, como preferir. Acontece que, quando os donos de restaurante japonês perceberam que o salmão poderia um dia sumir da face do planeta, tiveram a excelente idéia de começar a criá-los em cativeiro.

Como se sabe, o salmão é uma espécie migratória que começa seu ciclo de vida nos rios montanhosos, nada até o mar onde passa anos se alimentando e fugindo das ameaças oceânicas. Aqueles que sobrevivem, voltam até o rio onde nasceram para reproduzir, de uma só vez, toda uma nova geração de salmão. Só que isso demora mais do que a demanda mundial por sushis e sashimis suporta e, então, os caras começaram a criar o salmão em fazendas aquáticas. E o que aconteceu foi que, agora, praticamente todos os… os… (salmãos? salmões?) pegaram o diabo de um parasita que não apenas enfraquece e mata os peixes, mas que também pode fazer a mesma coisa com o consumidor desavisado. Afinal, as pessoas comem aquele negócio cru!

Esse negócio me faz lembrar de um conto de ficção científica que eu li uma vez. Não me lembro de quem era, preciso dar uma procurada nos meus livros. Mas a história era assim. O ser humano conseguiu chegar, enfim, a um planeta habitado, iniciando a “Era da Colonização Espacial”. Quando chegou lá, no entanto, a terra era improdutiva e não tinha nada para comer, a não ser uns lagartinhos dourados, que tinha aos montes. Os humanos se fartaram e, quando morreu o último espécime, resolveram que não dava para viver naquele planeta e viajaram para outro. Chegando lá, o solo também era improdutivo, e também não tinha nada para comer.

A não ser uns estranhos peixes azuis.

Eu nunca imaginava que um dia ia ver uma coisa dessas
18/03/2010

Eu nunca imaginava que, um dia, ia ler a notícia de que alguém descobriu a cura do câncer ou algo parecido. O câncer, para a minha geração, era uma coisa invencível. Uma espécie de castigo dos deuses. Aliás, quando eu era pequeno, o câncer nem era chamado de câncer. Ele era chamada de “aquela doença”. E em sussurros. Eu acho que as pessoas tinham tanto medo de câncer que achavam que pegava só de falar “câncer” em voz alta. No entanto, estava lá, essa semana, na primeira página da “Folha”, para quem quisesse ver. “Cientistas matam células do câncer por meio de envelhecimento. Uma droga experimental contra o câncer, chamada de MLN4924 – já na primeira fase de experimento clínico em humanos – tem o poder de desencadear um processo de envelhecimento só das células cancerígenas, e elas são impedidas irreversivelmente de crescer”. Em outras palavras. Descobriram a cura para o câncer. Ou quase. E nem houve nenhum bafafá a respeito. Eu, pelo menos, só consegui achar a notícia no jornal e na internet , e quando comentei com o pessoal do escritório, ninguém nem estava sabendo de nada.

Eu fico com a impressão de que, ultimamente, a gente tem visto tanta coisa nova, tanta descoberta, tantas invenções, que estamos ficando meio insensíveis a tudo. A gente já não liga a mínima para absolutamente nada. Nem para pequenos milagres.

Veja você, por exemplo, o celular. Você pode se comunicar com quem você quiser, seja onde você ou a pessoa estiver, na hora que bem entender e, se marcar, até com imagens ao vivo e em cores. E mais milagroso ainda é que um aparelho com tamanha capacidade caiba em seu bolso, seja pelo tamanho, seja pelo preço. E alguém percebe isso? Pois ninguém percebe. As pessoas reclamam muito do celular quando ele NÃO funciona, mas o milagre mesmo é ele funcionar do jeito que ele funciona, entende?

E a internet, então? Você lembra o trabalho que dava quando a gente encanava com o nome DAQUELE ator, que trabalhou NAQUELE filme, e aí a gente não conseguia lembrar nem o nome dele, nem o nome do filme e ficava ali, dias e dias, até encontrar alguma coisa num jornal ou numa revista? Pois hoje é só entrar no google e pronto. Descobrimos tudo sobre o artista, que trabalhos ele já fez, e ainda assistimos um trecho do tal filme no youtube. Se marcar, descobrimos até que ele teve um caso com o diretor para conseguir o papel. Com fotos, câmeras escondidas e tudo o mais.

É ou não um verdadeiro milagre?

Ninguém é anjo
16/03/2010

Sempre quando a gente imagina um ser humano bom, desprovido de maldade, rancores e hipocrisias, o que nos vem à mente é um índio ou uma criança. Se possível, uma criancinha índia.

No caso dos índios, é sempre aquele papo de que eles vivem mais em harmonia com a natureza, respeitam os animais, são sinceros e puros em sua nudez e tudo o mais. Bem, para mim, só fala isso quem não entende nada de índio. Não que eu entenda tanto assim também, mas eu sei muito bem que, bem antes do homem branco chegar por aqui com toda sua impureza, sua cobiça, suas doenças e guerras, o índio já fazia muita porcaria. Aliás, a guerra tinha muita importância para os povos indígenas, e algumas tribos chegavam a exterminar umas às outras. As guerras ocorriam para vingar parentes mortos, conquistar terras mais produtivas, espantar maus espíritos. Tudo igualzinho a nós. Pois a Guerra do Iraque não foi uma espécie de vingança e, de lambuja, para arranjar uma terras mais produtivas em petróleo? E o terrorismo do Islã, não é uma espécie de guerra religiosa, tentando espantar maus espíritos? E, para piorar a coisa para o lado dos índios, alguns povos praticavam a antropofagia, pois acreditavam que, devorando o prisioneiro, incorporavam suas virtudes. Quer dizer, o índio, além de vingativo, ganancioso e extremamente supersticioso, ainda era antropófago. E onde é que esses estudiosos vêem pureza e sensibilidade nos índios? Os índios são o que são, oras, nem melhores nem piores que você ou eu.

Bem, sobram-nos as criancinhas.  Ah, as criancinhas. Elas sim, são a personificação do angelical, o último reduto da alma pura e ingênua. Pois são o escambal. Eu gostaria que você, em vez de ficar assistindo televisão, observasse melhor seus filhos (ou sobrinhos, ou netos, ou sejam lá o que forem aquelas criancinhas que sobraram para você ficar tomando conta). Pois as criancinhas passam a maior parte do tempo tentando ser melhores que as outras, seja nos jogos de pega-pega, seja nos videogames. Ou isso, ou então partem para o pau mesmo, rolando pelo chão agarradas aos cabelos umas das outras. E vai uma prima tentar brincar com o brinquedo do primo para você ver só o rolo que dá. O que mais se ouve numa conversa de criança é “isso é meu” para cá, e “isso é meu” para lá.

Não adianta. O ser humano é ruim desde pequenininho. Seja branco, índio ou lilás.

Tem cada gente doida no mundo, né?
16/03/2010

Se eu já não consigo entender um soldado morrendo numa guerra idiota como essa que acontece no Iraque, ou em qualquer outra guerra, imagine se dá para entender um cartunista morrendo ao lado do seu filho, cada um com quatro tiros disparados a queima roupa.

Para quem é cinquentão, como eu, o Glauco era daqueles caras que sempre estiveram por aí. A gente abria o jornal e topava com um daqueles narigudinhos dele, cheio de pernas e braços, falando algum palavrão ou apertando a bunda de um guarda.

Tudo bem. Ultimamente, ele andava meio repetitivo. E, para falar a verdade, volta e meia eu nem lia a tirinha dele no site da “Folha de S.Paulo”, sabendo que eu ia encontrar ali mais ou menos a mesma coisa que encontrei ontem e anteontem. Mas não é disso que eu queria falar.

Eu queria falar sobre outra coisa. O Glauco, para quem não sabe, além de ter sido um cartunista revolucionário que, junto com o Angeli e o Laerte, deu uma nova vida para os quadrinhos no Brasil, era também o fundador de uma Igreja em Osasco, a Céu de Maria, um templo de Santo Daime. O Santo Daime é aquela seita que, em seus rituais, inclui um chá feito de uma espécie de cipó amazônico que causa uns efeitos esquisitões em quem bebe, como alucinações visuais e auditivas. Os amigos dizem que a tal igreja ajudou bastante o Glauco, que andava meio enrolado com umas drogas mais barra pesada do que qualquer cipozinho amazônico, e que, ultimamente, ele estava um pouco mais calmo e centrado.

Bem, aí, um cara entrou na casa do Glauco dizendo que era JESUS CRISTO, tirou um revólver e deu quatro tiros no cartunista e mais quatro no filho dele, matando os dois que nem tiveram tempo de reagir. Veja bem. O Glauco, um dos caras mais sarcásticos, gozadores e (porque não?) malucos que o Brasil conheceu nos últimos anos, foi assassinado por um sujeitinho que achava que era JESUS CRISTO. Não parece uma… piada?

Faz lembrar de uma história que li. Uma vez, o Bernardo Ajzenber, na época diretor da “Folha de S.Paulo”, levou o Glauco para conversar com um alto executivo, que precisava de um ilustrador famoso para um trabalho. Segundo o Ajzenber, “A sala do executivo era típica, as roupas também (gravata, terno etc), assim como o jeito do executivo falar: o sorriso na hora certa, as gesticulações comedidas, tudo exato, claro, do começo ao fim. Do outro lado estava o Glauco: atabalhoado, aquelas roupas despretensiosas, cabelos desajustados, aparentemente nas nuvens, mas de ouvido atento, sorriso tímido, mas franco – uma criança na sala do diretor da escola.” Ao final, quando saíram, o Glauco se virou para o Bernardo e disse sorrindo, perplexo:

– Tem cada gente doida no mundo, né?

Rodeios são uma merda
11/03/2010

Rodeios podem ser proibidos em Araraquara. A Câmara dos Vereadores de lá já aprovou uma lei determinando o fim dos rodeios na cidade, e agora só falta a aprovação do Prefeito.

Sempre que uma coisa dessas acontece, começa todo mundo a dar sua opinião a respeito, então acho que eu também tenho direito a expressar a minha.

Bem, particularmente, eu odeio rodeio. Acho um rodeio uma das coisas mais abomináveis que o ser humano inventou, além de ser um exemplo de mau gosto e da falta de uma educação cultural razoável. Simplesmente não entra na minha cabeça como é que alguém pode gostar de passar horas assistindo a um homem montado num bicho, pulando para lá e para cá, num terreno totalmente empoeirado, correndo o risco de se ferir gravemente. Mas será possível que esse povo não tem mais o que fazer não? Sei lá, tem tanta coisa que podia acontecer ali, no meio daquela arena, que não dá nem para contar. Tipos, uma peça de teatro. Já imaginou? O povo todo ali, e rolando uma peça de teatro com a Fernanda Montenegro, e o povo aplaudindo de pé e gritando com as mãos para o alto:

– Segura, Fernanda!

Ia ou não ia ser o máximo? Ou então… um circo! É, um desses espetáculos novos, tipos “Cirque du Soleil”, com malabaristas, clowns, mágicos, dançarinos e muitas luzes. Vai dizer que uma coisa dessas não é muito mais interessante que a droga de um boi sendo esporeado por um peão com uma fivela no cinto maior que o pára-choque do meu carro?

Tudo bem. Existem sempre aqueles que argumentam que a indústria do rodeio traz movimentação financeira para os municípios, gerando empregos que vão desde veterinários e fisioterapeutas até ambulantes, parques de diversão e os próprios peões. Mas, se você pensar assim, a indústria das drogas também gera empregos, como plantadores, distribuidores e traficantes, e ninguém sai por aí, defendendo as drogas.

E, antes que me venham com aquele papo de que os touros e os cavalos são muito bem tratados, eu já vou avisando que a minha opinião não tem nada a ver com a proteção dos animais nem com ecologia. Por mim, se fossem homens que estivessem sendo montados, tanto faz como tanto fez. Os rodeios seriam um pouco mais justos, é claro.

Mas ia ser a mesma porcaria.

Ocos
09/03/2010

Apesar de todo aquele papo de revolução cinematográfica, de efeitos 3D como nunca vistos antes, dos milhões de dólares gastos na descoberta de novas tecnologias e tudo o mais, o filme “Avatar” perdeu o Oscar para um filme de baixo orçamento que pode ser considerado bastante normal e até, digamos, no limite do convencional: o “Guerra ao Terror”. Mesmo quem não gosta muito de cinema nem lê muito a respeito sabe que o “Avatar”, nas primeiras pesquisas, era considerado por todo mundo favoritíssimo ao Oscar de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro. Para falar a verdade, ele era o favorito a melhor tudo. Pois, apesar disso, o “Avatar” ganhou só três oscars, e ainda por cima ganhou nessas categorias que ninguém dá muita importância, tipos, o melhor som ambiente digital ou coisa que o valha.

E porque é que o “Avatar” não ganhou quase nada, enquanto todo mundo esperava tanto dele?

Bem, a meu ver, a resposta é muito simples. Como a maioria das coisas e das pessoas de hoje em dia, faltou conteúdo. É. Con-te-ú-do. “Avatar” tem uma históriazinha até que bem legal, mas não passa disso. É roteiro de filme de Sessão da Tarde. São sempre aqueles mesmos heróis tentando mudar o mundo, lutando praticamente sem recursos contra uma grande potência bélica, tentando salvar a liberdade e a pureza de uma civilização qualquer, tudo isso com muita correria e batalhas épicas salpicadas por momentos românticos ou engraçadinhos.

O “Avatar” me faz lembrar de um amigo meu que, maravilhado pelas novidades tecnológicas da internet, resolveu criar um site totalmente inovador.

– Vai ser “O” Site.

Para isso, fez um monte de cursos, comprou um computador de última geração, e dedicou-se ao trabalho por quase um ano. Ele só falava disso, dizendo que O Site ia ter capacidade para gerenciar redes sociais, interagir com a nuvem e mais um monte de façanhas. Aí, um dia, ele me telefonou.

– Está pronto!

– O quê?

– O Site, oras. O Site!

E aí ele me mostrou. Realmente, era um site muito bonito. Cheio de efeitos especiais, luzinhas piscando e movimentos sensacionais.

– Bem, e o que é que eu faço nele?

– Como assim, “faz”?

– Oras, esse é um site de quê? De notícias? De fotos? De filmes? De jogos?

– Hã… Não, não tem nada disso no site…

– Bem, então porque é que as pessoas vão entrar nele?

Meu amigo ficou olhando para mim. A princípio, com uma certa raiva. Mas, aos poucos, a raiva foi dando lugar a um ar de frustração. E, finalmente, tristeza. Antes que ele começasse a chorar, eu ofereci umas crônicas e umas ilustrações para colocar lá no site dele.

Não chega a ser nada muito especial, mas já era um começo.