Archive for outubro \29\UTC 2009

E vai rolar a festa
29/10/2009

Vai chegar uma hora que a coisa vai virar uma festa só. Veja você aí o caso do Natal. O Natal, para quem ainda se lembra, acontece no dia vinte e cinco de dezembro. Repare bem. Eu disse VINTE E CINCO DE DEZEMBRO. Nem mais, nem menos. Tudo bem. Quando eu nasci, já lá se vai quase meio século, já era tradição que a festa de Natal acontecesse no dia vinte e quatro. Mas, até aí, era a véspera da festa mesmo, e tinha um monte de desculpas para começar antes. As crianças tinham que dormir cedo e não iam conseguir ficar acordadas até a meia-noite. A comida e a bebida aí, na geladeira, e a gente não vai experimentar? Então, meio que por sensatez, meio que por embalo mesmo, todo mundo resolveu fazer a ceia de Natal um dia antes. Acontece que, de uns tempos para cá, o povo está exagerando. A gente começa a ver enfeite de Natal pendurado nas portas cada ano mais cedo. Eu mesmo já encontrei aí, na cidade, umas duas ou três casas já todas enfeitadas com aquelas lâmpadazinhas desenhando um pinheirinho ou a silhueta do trenó do Papai-Noel. E as lojas também, já estão partindo para a ofensiva, cobrindo suas vitrines com árvores e faixas desejando “boas festas”. Mas, meu deus do céu. Não é muito cedo não? Nós nem chegamos ao final de OUTUBRO, gente!

Mas isso não é nada quando a gente pára para pensar no Carnaval. O Carnaval, como todo mundo também deve se lembrar, dura apenas quatro dias. Pode perguntar aí, para qualquer criança de dez anos “- Quantos dias tem o Carnaval?” e ela vai responder ali, na bucha: “- Quatro!”. E era assim mesmo, até bem pouco tempo atrás. O Carnaval acontecia no sábado, no domingo, na segunda, na terça. E pronto, acabou. Mas aí alguém resolveu que na sexta-feira à noite ninguém tinha nada para fazer mesmo, porque não começar a farra logo de uma vez? E o Carnaval passou a ter cinco dias. Depois, como a coisa começou a dar certo para o turismo e para o comércio, em algumas cidades eles passaram a embalar a festa pela semana seguinte, enforcando a quarta-feira de cinzas, a quinta, a sexta e entrando pelo sábado e o domingo que ninguém é de ferro. Então uma festa que, em suas origens, tinha só quatro dias, passou a ter dez, e isso sem contar o sucesso desses Carnavais fora de época, como o Carnavotu e…

– Olha, se você não quer ir no Carnavotu, a gente não vai.

– Nossa… Eu só estava comentando…

– Então vamos logo com isso!

– Mas onde foi que eu enfiei o diabo daquele abadá, hem…?

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A Marcha Mundial pela Paz e pela Não-violência
27/10/2009

Tudo bem. Eu também sou a favor da paz. Você não é a favor da paz? E sua mãe? E o seu pai? Pois então, todo mundo é a favor da paz. Acho que até mesmo esses terroristas por aí são a favor da paz. Eles só fazem essas coisas todas, de explodir e tudo o mais, porque acham que quem eles estão explodindo são a favor da guerra. Mas ninguém é a favor da guerra. No fundo de todas as guerras, está a esperança da vitória, e da paz. Mesmo Hitler e todos esses caras malucos que fizeram as maiores chacinas possíveis e imagináveis (algumas até inimagináveis). Esses caras tinham lá, na cabeça maluca deles, a idéia de que, logo depois da chacina, viria a paz. A paz é um consenso universal. Ninguém quer chegar em casa às seis da tarde e encontrar os filhos brigando um com o outro, a mulher irritada com a empregada ou o marido querendo assassinar seu chefe. As pessoas querem chegar em casa e encontrar seus filhinhos todos de banho tomado, assistindo um programa educativo da TV Cultura, quietinhos, cada um num canto do sofá e repartindo um saco de pipocas. As pessoas querem chegar em casa e encontrar a esposa e a empregada conversando sobre as experiências delas, e sonhando juntas um futuro promissor para seus filhos. E encontrar os maridos contentes por terem passado um dia tranquilo no escritório, e porque no final do expediente o patrão chamou todo mundo para tomar uma cervejinha e comer uns petiscos por conta da firma. É assim que todo mundo é, entende? Ninguém quer brigar com ninguém. Ou você acha que os jornalistas adoram ficar metendo o pau nos políticos? Pois não gostam. Eles só metem o pau nos políticos porque imaginam que, talvez, os políticos os ouçam e modifiquem seus comportamentos, de maneira que o país viva uma gloriosa e duradoura era de paz e harmonia. E mesmo os políticos. Tirando os pervertidos, os delinqüentes, enfim, todos esses caras que tem graves problemas mentais, os políticos também almejam a paz. Você acha, por um acaso, que algum político quer entrar para a história como um assassino sanguinário? Ou como um pérfido trapaceiro? Pois não quer. Todo político gostaria de se imortalizar como um pacifista, um reconciliador das diferenças, um…
– Olha, tudo bem, se você não quer ir para a Marcha Mundial pela Paz não precisa ir.
– Não é que eu não queira ir. Eu só acho que não adianta nada.
– Tudo bem, fica aí, então. Mas eu vou. Tchau.
– Benhê!
– O que foi?
– Na volta, traz um cigarro pra mim?

É por causa dessas coisas que eu mudei pro interior
25/10/2009

Sabe essas bolas grandes, que geralmente são dadas como prêmios em parques, mas que também podem ser compradas a preço de um pastel nas feiras? Pois então. Elas são quase tão leves quanto as bexigas, e qualquer chute de uma criancinha de dois anos manda a danada para as alturas. Pois foi isso que aconteceu nesse domingo à tarde, com umas crianças que brincavam em frente de casa. Elas jogavam essa bola para cá, jogavam essa bola para lá e, tirando os gritos de “olha o carro” que a mãe deles soltava toda hora que via um carro a menos de três quadras de distância, tudo ia muito bem. Até que, num tremendo de um sem pulo, digno de um daqueles que o Roberto Carlos dava quando estava no auge de sua forma, uma das crianças disparou a bola para cima de uma árvore. As crianças imediatamente começaram a catar umas pedras, no que foram contidas pela mãe. Não demorou muito para que um vizinho se aproximasse e, com as mãos na cintura, decretasse:
– É, essa não sai mais daí não…
O que causou um certo rebuliço entre as crianças, em especial com o mais novo, dono do poderoso chute que mandou a bola para as estrelas, mas que agora se enrolava nas pernas da mãe, fazendo biquinho e já esboçando um início de choro. A avó surgiu de dentro da casa com uma vassoura, sendo praticamente ovacionada pela criançada. Mas, ao perceberem que mesmo na ponta do pé e com os braços estendidos, a vassoura da avó não alcançava nem a metade do caminho, voltaram a desanimar, e dois deles se sentaram na calçada, discutindo sobre qual deles tinha tido a idéia idiota de brincar com o irmão mais novo. Aí surgiu outro vizinho. Carregando uma escada.
– Todo mundo para lá que o tio aqui vai pegar a bola.
O problema é que o diabo da escada não era daquelas de abrir, que a gente usa para trocar lâmpadas em casa. A escada era daquelas normais, que precisam de um apoio. E não tinha apoio nenhum, a não ser o tronco da árvore que, no entanto, ficava muito longe do galho em que a bola tinha se alojado. Aí eles olharam para mim.
– Ô Artur, vem cá um pouco…
E a coisa ficou mais ou menos assim. Enquanto, de um lado, o vizinho ia subindo, glorioso, eu, aqui embaixo, suando em bicas, tentava suportar o peso do homem e da escada da melhor maneira possível. Quando eu já estava quase tendo um enfarte, finalmente ele chegou lá em cima e, com a vassoura da avó, deu uma cutucada na bola que se soltou, caiu e saiu quicando pela rua, com a criançada correndo atrás. O vizinho pegou sua escada e, trinfante, foi embora. Eu voltei para a minha varanda.
E a mãe gritou “olha o carro!”.

Rio de Janeiro: o game
22/10/2009

Sei lá. Eu acho bastante estranho que, bem agora, menos de um mês depois da Olimpíada ter sido dada assim, de presente para o Brasil e para o Lula fazer campanha eleitoral, os traficantes das favelas do Rio de Janeiro resolvam se revoltar desse jeito.

Tudo bem. A gente sabe que, lá nas favelas do Rio, volta e meia morrem uns caras e a gente nem fica sabendo, porque eles escondem ou queimam os corpos lá por cima mesmo. Mas, mesmo nas outras vezes, quando os crimes saem no jornal, ninguém presta muita atenção porque esses crimes já se tornaram carne-de-vaca. Por exemplo, depois de ler o título “Policiais matam dois traficantes em morro do Rio” você continuaria lendo a notícia inteira? Pois leria nada. Nessas coisas, a gente só bate o olho, e vai logo para a seção de esportes ou para os quadrinhos no caderno de cultura.

Mas, dessa vez, muito provavelmente por causa desse negócio da Olimpíada ser no Brasil, a notícia saiu no New York Times e nos maiores jornais e TV’s do mundo todo. Não que não merecesse. A coisa foi mesmo feia. Parecia um filme do Sylvester Stallone. Caiu até um helicóptero no meio de um campo de futebol, causando a morte de todos os ocupantes. Foi um tal de gente correndo dos tiros de metralhadoras. Comerciantes fechando as portas. Estudantes sendo trancados nas escolas. Granadas. Balas perdidas. Se não me engano, tinha até mísseis na jogada. Um verdadeiro videogame.

Aliás, foi lançado, ainda outro dia desses, um jogo de tiro violentíssimo chamado “Modern Warfare 2” que vai retratar exatamente isso. Ele terá uma favela carioca como parte do cenário do jogo, e o jogador controlará com seus joysticks alguns atiradores de elite de um exército de mercenários assassinos. Com direito, inclusive, a pilotar helicópteros e disparar mísseis. Agora, vem cá. Não é muito esquisito o lançamento desse jogo acontecer exatamente nesse momento tão delicado para o Brasil? Eu nunca fui muito chegado nessas teorias de conspiração, embora não descarte totalmente a possibilidade de ter o corpo de algum ET mergulhado em formol, escondido num galpão do exército americano, ou que o Presidente Kennedy tenha sido morto por algum guarda-costas do Nixon.

Mas que parece que tem alguém muito poderoso por aí tentando secar a Olimpíada de 2016, isso parece.

Lei anti-fumo: o efeito colateral
20/10/2009

Uma das coisas boas desse negócio de não poder mais fumar dentro dos estabelecimentos comerciais, dos prédios e dos condomínios, é que a gente agora começou a ficar mais tempo nas calçadas, sem nada para fazer. Quer dizer, quando eu digo “a gente”, estou querendo dizer “nós, os fumantes”. Pode reparar. Tem hora que, debaixo dos prédios comerciais, junta tanto fumante que fica parecendo que a gente está em Londres, de tão esfumaçado que fica. Mas, além dessa parte ruim, tem hora que aquele ambiente também fica parecendo aqueles cenários antigos, de cidade do interior, quando os nossos avós colocavam cadeiras nas calçadas para comer uns petiscos e jogar um pouco de conversa fora.
É claro, também, que o ambiente que a gente encontra agora não é mais tão saudável quanto o de antigamente. Afinal, são todos fumantes. Mas o astral continua mais ou menos o mesmo. A gente fica falando da vida alheia, dos anos que passam, faz planos para o futuro, encontra amigos antigos, faz novas amizades, de vez em quando até fecha um negócio. Mas, sobretudo, a gente fica vendo como são ridículas todas aquelas pessoas andando apressadas, indo ou vindo de algum lugar, a maioria delas com um celular numa mão e uma pasta cheia de papéis na outra.
Para falar a verdade, ficar ali, aqueles cinco, dez minutos, todos os dias, sem nada para fazer além de observar o movimento, tem me trazido uma grande paz de espírito, efeito colateral que o José Serra jamais poderia ter imaginado que iria causar quando decretou essa lei idiota. Agora, muito mais que para fumar, eu aguardo ansiosamente aqueles momentos de paz e tranquilidade para recolocar minhas idéias em ordem. Para pensar a respeito da vida. Para dar uma “respirada”, se é que se pode falar assim.
Depois dessa nova lei do cigarro, para ser sincero, eu passei até a fumar mais, só para curtir aqueles momentos de devaneios solitários, que tanta falta nos fazem na correria do dia-a-dia e…
– Tudo bem, tudo bem… Pode descer para fumar de novo. Mas só dessa vez, ok?
– Tudo bem, chefinho. Você é um anjo!
– Vai andando, vai… E me traz um salgadinho aí do boteco.
– Uma coxinha tá bom?
– Tá. E traz uma coca dois litros aí pro pessoal.

Todo mundo quer ser star
18/10/2009

Eu não sei o que é que esse povo gosta tanto de aparecer. É o caso desse moleque aí, que supostamente teria voado num balão a mais de três mil pés de altitude (aliás, porque será que esse povo mede a altura de um “vôo” por “pés”? não devia ser por “asas” ou algo assim?).
Bem, agora descobriram que tinha tudo sido um plano do pai do garoto para gerar publicidade sobre… sobre… sobre o quê mesmo? E é aí que está. O pai desse moleque não tem nada que possa ser vendido, alugado ou usado. Ele é um cara meio amalucado, que vive caçando furacões pelos Estados Unidos, observando o céu em busca de OVNI’s e que já tinha participado de um desses reality shows em que duas famílias trocam de esposas por uma semana.
Quer dizer, o grande lance, hoje em dia, não é fazer nada que preste, nem ter uma idéia sensacional e muito menos inventar um novo sistema de despoluição das águas dos esgotos salvando o eco-sistema de uma catástrofe sem volta. Não. O grande lance é… ficar famoso.
Não que o americano não tenha conseguido algo parecido. Ele até que conseguiu. O balão no qual estaria seu filho foi perseguido por mais de cem quilômetros pela guarda nacional americana, sendo acompanhado ao vivo por inúmeras emissoras de TV de todo o planeta. Transformou-se também num fenômeno de comentários no twitter em todos os blogs da internet. Só que, cinco horas depois, o menino apareceu são e salvo na garagem de sua casa, onde, segundo a família, esteve o tempo todo.
O mundo inteiro coçou a cabeça, desconfiado. Bem, para falar a verdade, eu não sei do mundo todo. Eu, pelo menos, cocei a minha cabeça, desconfiado. Já faz alguns anos que eu deixei de acreditar na ingenuidade da humanidade. E não deu outra. Numa primeira investigação, a polícia já descobriu que o sonho do pai do garoto do balão era ter um programa só seu na televisão. Ele já tinha, inclusive, apresentado um projeto a uma rede americana, mas foi rejeitado. E não o foi à toa. Pelo jeito, o programa devia existir única e exclusivamente para que homem se mostrasse um pouco mais e que, provavelmente, só teria ele mesmo como audiência.
Esse, aliás, é o destino de 99% desses vídeos que as pessoas enviam para o youtube. Só elas mesmas assistem, e uns poucos e desafortunados amigos para os quais elas enviam um e-mail, com um comentário tipos “olha que legal”. É o seu momento de super-star.

A cueca é dele, ele usa como quer
15/10/2009

Depois de ter mostrado um baita de um cartão vermelho para o presidente do senado José Sarney, na época em que ainda se discutia se o Sarney devia ou não continuar no cargo depois de arrumar emprego lá para uma dúzia de parentes, fato este que quase ninguém mais se lembra – parece até que foi há uns bons dez anos, não parece? – agora, o Eduardo Suplicy desfilou de cuecas vermelhas  pelos corredores do senado. Tudo bem. Até aí, ninguém tem nada com a cor das cuecas do Suplicy, mas acontece que o ex-marido da dona Marta e glorioso pai do Supla resolveu usar as cuecas por cima das calças. É, isso mesmo. Por cima das calças. A Sabrina Sato, do “Pânico”, disse para o Suplicy que ele podia ser considerado um super-herói por ser autor do projeto que deu origem à lei da renda básica. E se ele não topava usar uma sunga, como o Super-Homem e o Batman fazem há mais de cinqüenta anos. E o Suplicy topou.
Agora, toda a imprensa está caindo de pau em cima dele, dizendo que ele quebrou o decoro parlamentar, e já tem um monte de senadores querendo sua cabeça, dizendo que vão abrir uma sindicância e tudo o mais.
Olha, eu não sei de vocês. Mas eu estou ao lado do Suplicy, para o que der e vier. Para começar, se a Sabrina Sato me pedisse para desfilar com uma camisa do Palmeiras na frente da Gaviões da Fiel, eu desfilava sem nem pestanejar. Por outro lado, quanto ao lance do decoro parlamentar, oras, vamos ser sinceros. O que é que esse bando de político entende de decoro parlamentar? Se você der uma olhada na folha corrida do Suplicy, além do já citado projeto de renda mínima e do cartão vermelho para o Sarney, vai encontrar uma vida só dedicada a lutas pelo direito do homem, da mulher e dos homossexuais. Se você procurar ler sobre qualquer desses escândalos mais recentes, inclusive os que envolviam membros do seu partido, o PT, lá está o Suplicy cobrando providências.
No Brasil, sempre que acontece um problema mais grave, tipos, uma rebelião de presos, ou então um brasileiro que sofra alguma ação discriminatória no exterior, ou então uma invasão de terras, quem é que eles chamam para garantir um mínimo de paz ao ambiente? O Sarney? O José Dirceu? O Arthur Virgílio? Não. Eles chamam sempre o Suplicy.
Por mim, o Suplicy pode desfilar de cueca samba-canção, de terno ou até pelado. Não tem ninguém naquele senado que tenha altura suficiente para roçar os seus calcanhares.

Deus ajuda quem cedo madruga o escambau
13/10/2009

Esse papo de que deus ajuda quem cedo madruga é história pra boi dormir. É coisa que deve remontar os tempos da escravidão. Os senhores de escravos devem ter falado isso só para que os escravos acordassem mais bem humorados pela manhã. Porque ninguém gosta de acordar antes do sol nascer. Aliás, não é nem acordar cedo o grande problema. O grande problema é SER ACORDADO. Esse negócio de despertador deve ser coisa inventada pelo demo. A gente deveria poder dormir, todos os dias, como dormimos aos domingos e feriados. E acordar da mesma maneira: quando e como bem desejarmos. Porque também não adianta nada ir trabalhar com sono. Eu, da minha parte, acho que trabalho muito melhor quando ninguém vem me acordar pela manhã. Minha cabeça trabalha melhor. Meus olhos trabalham melhor. Tudo funciona melhor. Agora, ficar acordando cedo para poder trabalhar mais, isso é papo furado. Deve até fazer mal, deus do céu. Até mesmo porque, não sei se a gente deve trabalhar tanto assim também. Ou você acha que quem fez o mundo se transformar no que é hoje foram os trabalhadores compulsivos? Pois foram nada. Se você for pensar bem, se a gente dependesse desses caras que gostam de trabalhar, a gente ainda ia estar tratando a terra com um arado amarrado no nosso lombo, e cavando cada buraco no qual gostaríamos que nascesse alguma coisa. Quem inventou de amarrar primeiro um animal no arado, e depois inventou a roda, e depois inventou o trator e essas coisas todas foram aqueles que não estavam tão a fim de trabalhar assim. Eles passavam o tempo todo imaginando um jeito de trabalhar menos, e acabaram inventando os motores, as estradas, o telefone e o e-mail, só para não precisar ficar andando de lá para cá, só para passar alguns recados. Então, esse negócio de dormir pouco, e trabalhar muito, isso não tem nada a ver com progresso, com honra, nem nada dessas coisas. Trabalhar muito e dormir pouco tem a ver com burrice, isso sim. E, além do mais, se a gente pegar e…
– Olha, tudo bem, quer dormir mais um pouco, eu não tenho nada com isso. Mas eu não vou ligar para seu emprego dizendo que você não está se sentindo bem.
– Mas amor, você não entende? Trabalho é retrocesso, é atraso!
– Tá, tá, então liga e fala isso pro seu chefe…

Minha filha é uma Palhaça
12/10/2009

Acho que nunca tive tanto orgulho da minha filha quanto estou tendo agora. Minha filha resolveu ser palhaça. É, palhaça. Ou “clown”, como eles chamam os palhaços hoje em dia.

Quando minha filha era pequena, eu, como todos os pais, às vezes ficava um tempão olhando para ela, imaginando o que aquela menininha ia querer ser quando crescesse. De vez em quando até me dava vontade de fazer a clássica pergunta “-E aí, o que você vai ser quando crescer?”, mas eu nunca perguntei, até mesmo porque eu mesmo, até hoje, não me resolvi direito a respeito do meu próprio futuro. Mas quando eu ficava ali, olhando para ela, ainda no berço ou já dando os primeiros passos, não conseguia deixar de imaginá-la nas mais diversas profissões. De vez em quando, eu imaginava ela uma arquiteta. É, uma arquiteta seria uma boa. Já imaginou? Minha filha construindo lugares onde as pessoas iriam viver, se amar, se confraternizar. Mas, de vez em quando, olhando algumas construções que já foram feitas, como a do Congresso Nacional, em Brasília, achava que minha filha poderia se frustrar bastante com o uso que poderiam fazer de seus belos projetos. E aí eu imaginava minha filhota sendo uma médica. Porque não? A medicina é uma profissão das mais honradas. Dessas que os pais da gente, e os pais dos pais da gente, sempre sonharam para seus filhos escolherem. No entanto, a medicina é uma profissão ingrata. Qualquer vitória que você obtenha, seja ela um nariz um pouco mais arrebitado, ou até mesmo um coração recauchutado, uma hora ou outra você acabará derrotado, e sua obra, ou seu paciente, repousará eternamente sete palmos abaixo da terra. E também não vou mentir aqui para vocês que, volta e meia, também não sonhava com a possibilidade da minha filha seguir a carreira do pai. Já pensou, uma filha escritora? Mas, do jeito que as coisas andam, com essa molecada cada dia lendo menos e pior, não sei também se seria lá uma grande opção para ela.

E foi assim até que, outro dia desses, ela começou a fazer um curso de palhaço. Todo dia ela chegava em casa com uma novidade. Um dia, um número novo de malabarismo. No outro, mágica. Depois, festival de piadas. Dia desses mesmo, ela foi com um grupo para o Hospital do Câncer de Barretos, brincar de “Doutores da Alegria” com a molecada que está lá, internada. Disse que as crianças adoraram. E até os pais delas se animaram um pouco com aquela palhaçada toda.

Fala a verdade. É para ter orgulho dessa filha ou não é?