Archive for janeiro \31\UTC 2010

Quem que ter um caso com a mulher do Hugo Chávez?
31/01/2010

Eu não sei se você já ouviu falar desse rolo que está acontecendo entre o Google e a China. Tudo bem. Você pode achar que não tem nada com isso, porque você está mais preocupado com o buraco que apareceu na frente da sua casa depois da última chuva. Mas, hoje em dia, parece que até nessas brigas do outro lado do mundo acaba sobrando é para a gente mesmo.

Veja só você o que está acontecendo. Acontece que o Google descobriu que uns caras conseguiram entrar nos seus servidores e ler os e-mails de alguns dissidentes do governo chinês. O governo chinês disse que se sentia no direito de fazer isso. Os Estados Unidos entraram na briga, dizendo que o governo chinês estava violando as liberdades individuais dos seus cidadãos e todas essas coisas que os Estados Unidos gostam de proclamar pelo mundo. E é aí que a coisa pega. Os chineses responderam aos americanos com uma simples frase:

“Oras, todos os países fazem isso, a gente está fazendo exatamente o que os Estados Unidos fazem quando desconfiam que alguém é terrorista”. Ok, ok, a frase era em chinês, mas eles queriam dizer mais ou menos isso aí mesmo que eu escrevi.

Bem, os Estados Unidos, até agora, não responderam decentemente a essa acusação, o que, de certa forma, dá a entender que realmente todos os países do mundo monitoram os nossos e-mails, os nossos orkuts, os nossos messengers, os nossos skypes, os nossos celulares e tudo o mais. E é aí que entramos você, eu, a minha tia Concheta, e até o meu netinho que já tem até um blog, precisa ver que gracinha. Se o governo pode entrar no meu e-mail na hora que lhe der na telha, eles sabem coisas de mim que eu não sei bem se eu queria que eles soubessem.

Não é o caso, evidentemente, mas vamos supor que eu estivesse tendo uma aventura extra-conjugal com a dona Marisa, a nossa calada primeira-dama, e que nós dois trocássemos periodicamente e-mails e torpedinhos amorosos. Isso quer dizer que, de uma hora para outra, a polícia federal poderia baixar aqui em casa e me prender por desacato à autoridade, ou até me acusando de insanidade para me internarem num sanatório de doentes mentais, o que, aliás, seria muito mais coerente. Você pode dizer “Mas aí você está exagerando”. Bem, é claro que eu estou exagerando. Só que na China isso já está acontecendo. Vai alguém tentar ter um caso com a primeira dama chinesa, ou seja lá como eles chamam a mulher do presidente por lá. Ou então com a mulher do Hugo Chávez. Vai ter um caso com a mulher do Hugo Chávez para você ver só uma coisa.

E o Hugo Chávez está aqui, ó, bem do ladinho da gente.

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Sobre a evaporação dos seres humanos
29/01/2010

O gostoso de escrever, eu acho, é que, querendo ou não, uma hora ou outra, a gente precisa parar para pensar. Não é todo mundo que arruma tempo para pensar. E nem eu, agora, estou com tempo. Tenho um milhão e meio de problemas para resolver. Problemas que, para falar a verdade, se eu não estivesse escrevendo, também não estaria resolvendo porcaria nenhuma. A gente fica mais é protelando. Protelar é um jeito que a gente arruma de não resolver o problema e nem de pensar sobre ele. A televisão é boa para se protelar. A gente fica ali, mudando de canal, olhando as imagens, e quando vê já é hora de dormir e a gente nem resolveu nada nem pensou muito sobre. Mas quando a gente senta para escrever, tem que pensar. Não dá para escrever sem pensar. Quer dizer. Até dá. Têm umas coisas que eu já escrevi por aí que eu vou te falar uma coisa. Se tivesse pensado mesmo, com afinco, não tinha escrito aquela bobagem. Mas são casos raros. Normalmente, antes de escrever, eu paro, olho bem para a tela do computador, e fico pensando numa maneira de preenchê-la com alguma coisa que tenha alguma serventia para a humanidade. Nem se for para causar um sorrisinho no canto da boca de alguém, uma informaçãozinha interessante para se comentar na mesa do bar, qualquer coisa assim. A gente fica ali, olhando para o Word aberto no computador, clica numas coisas, desclica, dá Ctrl+Z, levanta, acende um cigarro. E fica pensando nas coisas. É gostoso pensar. Hoje, antes de escrever essa crônica, por exemplo, eu estava pensando em quanta gente eu já conheci nessa vida. E de quantas eu nunca mais ouvi falar. A vida da gente é assim. Pessoas entram, pessoas saem. Às vezes, a gente está olhando para uma pessoa pela última vez na vida e nem sabe. Não, eu não estou falando de morte nem nada disso. As pessoas simplesmente se evaporam. Um dia são praticamente nossos melhores amigos, ou amigas, ou namoradas, ou colegas de trabalho, ou tios, ou primos. E, no outro dia, a gente não sabe mais nem em que cidade moram, o que estão fazendo da vida. E tem aqueles que a gente até esquece o nome. Quando eu tinha dezoito anos e cursava Arquitetura em Moji das Cruzes, eu morei numa república com quatro caras. Certo, eu lembro o nome deles, também não é assim. Arlindo, Adriano, Leandro e Pedro. Éramos, é claro, os melhores amigos do mundo. Inseparáveis. Traçávamos planos para o futuro. Só que hoje (no tal futuro) eu não consigo me lembrar nem do sobrenome deles. Eles sumiram por aí. Evaporaram.

O ser humano deve ser feito de algum material extremamente volátil. Evapora a toa, a toa.

O que é que a gente faz com tanta foto?
28/01/2010

Eu me lembro da primeira vez que eu peguei uma câmera fotográfica digital nas mãos. Era uma coisa bem obsoleta pelos padrões de hoje, evidentemente, mas, mesmo assim, eu me lembro dela como se fosse uma coisa de outro mundo.

– Quer dizer que a gente pode ficar tirando fotografia o quanto quiser?

– É.

– E depois, é só a gente escolher qual fotografia manda revelar?

– É.

– Mas que maravilha, hem? E as fotos ficam tão boas quanto as de filme?

– Bem, aí é um problema.

E era mesmo. As primeiras máquinas digitais eram uma verdadeira porcaria. Para você ver uma coisa, a primeira delas, desenvolvida pela Bell Labs em 1969, capturava imagens com uma resolução de 0,01 megapixels. Bem, mas é claro que não foi uma dessas que eu me lembro de ter pegado pela primeira vez. A que eu peguei era uma Sony, modelo Mavica, que capturava imagens com fantásticos 0,3 megapixels e custava algo em torno de US$ 12 mil. Fui apresentado a tal proeza tecnológica pelo pai de um amigo meu, no tempo que eu ainda morava em Campinas e tinha o estranho costume de frequentar a casa de alguns milionários. E ele me apresentou mais como um troféu do que por acreditar mesmo no futuro daquele treco.

– Nenhuma maquininha dessas vai conseguir competir com o velho e bom filme… – ele me disse, com os olhos no horizonte como gostam de fazer os visionários.

Bem. Ultimamente, além do preço ter despencado ladeira abaixo, as máquinas digitais tiram fotos de mais de 10 megapixels, e simplesmente não há mais diferença entre as revelações das câmeras digitais e das que ainda usam filme. Se é que ainda fabricam filmes.

O que nos coloca na seguinte situação. Hoje, nós podemos fazer quantas fotos e filmes quisermos e publicar isso praticamente a custo zero em blogs e comunidades na internet. O problema agora é o inacreditável número de imagens e filmes babacas que a gente tem de ficar trombando a toda hora. É só fazer uma pesquisazinha no youtube que você vai ver uma coisa. São imagens de gente fazendo careta, filminhos de festinhas familiares, uns tontos simulando danças engraçadas, uma bobajaiada sem tamanho que, antigamente, pelo menos ficavam bem escondidas dentro das gavetas. Tem gente que diz que isso é muito bom e que a memória dessa geração estará bastante documentada e poderá ser lembrada como nenhuma outra foi.

Eu, sinceramente, duvido muito que existam tantas coisas assim a serem lembradas. Para falar a verdade, a maioria das coisas eu venho é tentando esquecer.

Era da Comunicação uma ova
26/01/2010

E dizer que antigamente se reclamava da televisão… Que ninguém mais conversava numa família, que agora ficava todo mundo na frente da TV sem prestar atenção em mais nada e tudo o mais. Os mais velhos reclamam disso desde que eu me conheço por gente. Que no tempo deles o pessoal colocava cadeiras na calçada e ficava conversando, contando histórias antigas e falando mal da vizinha. Mas que, agora, com essa tal de televisão, ninguém mais conversa numa casa. E, quando conversam, conversam sobre as coisas da televisão, sobre o assassinato da novela das sete e sobre o telejornal.

Depois, os pais da gente começaram a reclamar ainda mais, especialmente quando nós, os seus filhos, começamos a comer na sala, assistindo televisão. Que quando eles eram crianças a hora do almoço e da janta eram sagradas. Eram as únicas horas do dia que a família se reunia para falar um pouco sobre os acontecimentos da escola, do emprego. E que agora vai todo mundo para a sala ver televisão, engolindo tudo às garfadas e praticamente nem sentindo o gosto da comida. E era verdade mesmo. Eu sou de uma geração que cresceu na frente da TV, e nem me lembro mais quando foi que eu sentei com a família em torno de uma mesa para comer alguma coisa.

E agora, pelo visto, chegou a minha hora de reclamar. Vá lá. Se sentar na frente da TV com sua esposa sem praticamente trocar uma palavra durante umas quatro horas, com isso eu já estava mais ou menos acostumado. E quanto a comer na frente da TV, devo confessar que eu sou o primeiro a fazer o meu prato e ir direto para o sofá da sala, equilibrando um copo de suco de laranja numa mão e o prato na outra, para assistir algum desenho animado ou um telejornalzinho mostrando as últimas imagens das enchentes. Mas, como já dizia minha finada avó, as coisas sempre podem piorar um pouquinho.

Hoje, além do fim das refeições em família e do nosso silêncio frente ao poder hipnotizante da TV, o celular não pára de tocar. Eu estou ali, tentando conversar um pouco com minha filha, e ela enviando torpedinhos para as amigas. Tento puxar assunto com meu filho, e ele está no meio de uma caçada intergalática a dragões, pilotando seu playstation. E, enquanto isso, a minha mulher, que sempre foi mais clássica, continua assistindo as suas novelas da Globo.

De vez em quando eu fico pensando que, se eu morrer, minha família só vai se dar conta daqui uns dois ou três meses. E assim mesmo, pelo cheiro.

Ode ao Leite Condensado
24/01/2010

Eu realmente não consigo entender como é que a humanidade conseguiu existir antes da invenção do leite condensado. Os cientistas e esses caras todos metidos a intelectuais, sempre quando são perguntados sobre qual foi a maior invenção ou descoberta da história da humanidade, sempre falam sobre umas coisas esquisitas, como a roda, o fogo, a bomba atômica e até o iPhone. Bem, para mim, essas coisas são absolutamente insignificantes quando comparadas com a invenção do leite condensado. O leite condensado é um divisor de águas. Antes do leite condensado, a humanidade não tinha nenhuma perspectiva de vida. Nós já havíamos chegado naquele ponto em que tanto faz como tanto fez. Nosso dia a dia era composto de um eterno acordar-trabalhar-almoçar-trabalhar-jantar-assistir-a-novela-e-dormir sem fim. Não é à toa que começamos a inventar coisas como a psicologia, o existencialismo e o Prozac. A vida estava perdendo completamente o sentido.

E foi aí que surgiu o leite condensado. Um cara chamado Gail Borden, em 1852, estava viajando de navio. Naquela época, nessas excursões transatlânticas, era necessário embarcar vacas para que os passageiros pudessem ter sempre leite fresco a bordo, já que ninguém ainda havia inventado a geladeira.  Contudo, nessa viagem de Gail, a vaca do navio adoeceu e não podia mais fornecer leite. Uma criança morreu por causa disso. O grande Borden, então, estudou uma solução que, de alguma forma, pudesse conservar o leite por mais tempo. Entre uma experiência e outra, Borden acrescentou açúcar ao leite e o desidratou. Experimentou uma colherada e, para sua surpresa, ele percebeu que o mundo era colorido, que a vida tinha um sentido oculto e magnífico e também que sua sogra até que não era uma pessoa tão má assim. Ele havia inventado o leite condensado e, ao mesmo tempo, já tinha sucumbido aos seus incríveis poderes curativos.

Como todas as invenções revolucionárias, o leite condensado também demorou um pouco para pegar aqui no Brasil, onde só chegou em 1876, na Bahia, estado que sempre se mostrou aberto a experiências gustativas de ponta, como já demonstraram o vatapá, o acarajé, o caruru e o xinxim de galinha. Depois disso, disseminou-se rapidamente por todos os outros estados, tornando a vida de milhares e milhares de brasileiros numa grande festa, repleta de brigadeiros, beijinhos e pavês de bolacha maizena. Já eu, particularmente, sempre preferi mesmo ao natural, fazendo dois pequenos furos na lata e ficar chupando, bem devagarinho.

Aí, é só sentar na varanda de casa e, entre uma chupadinha e outra, observar o mundo passar e concluir que, apesar de tudo, o ser-humano ainda deve ter salvação.

A volta das mortas-vivas
21/01/2010

O que era para ser um show de beleza e sofisticação,fica parecendo até um filme de terror do George Romero. Estou falando desses desfiles de moda, em que as modelos parecem todas um bando de zumbis esqueléticos, com braços e pernas descarnadas, olheiras profundas e andar cambaleante, sendo aplaudidas por milionários gordos e suas fartas esposas. Nessa última São Paulo Fashion Week, por exemplo, teve gente que ficou até revoltada. Saiu artigo na Folha de S.Paulo e tudo o mais, dizendo que alguém tem de fazer alguma coisa antes que aquelas meninas morram de anorexia. E são meninas mesmo, algumas de apenas 18 anos, ou até menos.

Eu não sei exatamente em que ponto da evolução humana resolveu-se que uma mulher, para ser bonita, precisava ser magra. Ou até mesmo os homens. Durante praticamente toda a história da humanidade, ser gordo significou ser rico, bem de vida, ou então alguém muito culto, que passava sua vida em bibliotecas ou laboratórios, lendo, experimentando e se aperfeiçoando. Pode reparar nas pinturas da época. Os reis, os condes, os bispos, os papas, todos eles eram muito gordos. Veja aí o nosso D. João 6º, por exemplo, que é sempre mostrado com aquela pança enorme e geralmente lambuzado de frangos assados e vinhos tintos. Os magros, pelo contrário, eram os trabalhadores braçais, ou escravos, ou seja, aqueles que eram OBRIGADOS a fazer exercícios físicos para ganhar a vida. Quer dizer, não deviam ser considerados um bom partido e, muito menos, eram o exemplo mais perfeito da espécie humana.

Agora, de uns tempos para cá, o mundo virou de cabeça para baixo. Quem tem um monte de dinheiro para comer o que quiser, passa fome porque precisa ser magro. Essas modelos mesmo, não vamos mentir, ganham verdadeiras fortunas só para ficar andando para cá e para lá, mas nem com essa dinheirama toda elas podem comer um sundae de chocolate ou uma pizza de calabresa como os pobretões fazem praticamente  todo final de semana. Outro dia desses mesmo eu li uma mensagem no twitter dizendo que seria uma boa idéia eles mandarem essas modelos para o Haiti, para disseminar sua experiência de uma vida sem comida. Quer dizer, a coisa toda parece mesmo uma brincadeira de mal gosto e…

– Querida, eu nunca falei que você está gorda.

– Não falou mas fica olhando.

– Mas fico olhando o quê, meu deus do céu?

– O MEU PRATO! PÁRA DE OLHAR PARA O MEU PRATO!

Hipoglós
21/01/2010

Não existe coisa mais humilhante que uma dor de barriga. Existem doenças que têm até um certo charme. Como, por exemplo, um leve desvio de coluna, que nos obriga a andar de bengala, como um daqueles lordes ingleses do século passado. Ou então uma tendinite causada por uma LER, que faz com que você use uma daquelas luvas de couro que vão até mais ou menos o cotovelo, deixando bem claro que você é um cara ligado em novas tecnologias, modernoso. E até umas doenças mais graves, como uma pneumonia ou uma bronquite crônica, que sempre causa comentários a respeito de sua vida boêmia e tudo o mais.

Mas as dores de barriga não. Uma dor de barriga é absolutamente humilhante. Além de fazer com que você se levante de dois em dois minutos, tendo que dar explicações às pessoas com quem você está conversando, ainda tem aquela barulheira toda que a gente faz quando entra no banheiro, sons que eu, pessoalmente, tento disfarçar de todas as maneiras, seja abrindo as torneiras da pia, assobiando ou até mesmo ligando o chuveiro. Aliás, o chuveiro também pode ser usado para tentar dar uma amainada nos odores. É uma técnica que eu desenvolvi desde pequeno. Você pega, abre o chuveiro bem quente, para fazer aquela fumaceira, e coloca um sabonete embaixo, fazendo com que o vapor se torne levemente perfumado. Mas é claro que eu sei que essas são só medidas paliativas. No fundo, no fundo, na hora que abrimos a porta do banheiro, a gente tem certeza absoluta de que todos pararam de rir exatamente naquele momento.

Mas tudo isso não seria nada se não fossem as assaduras. A dor de barriga, os cheiros e os barulhos passam rápido, geralmente em um ou dois dias. Mas as assaduras ficam com a gente durante quase uma semana, nos obrigando a andar como se fôssemos o John Wayne num daquele filmes de faroeste, com as pernas meio abertas para tentar amenizar o atrito. A gente vai caminhando pelas ruas, e todo mundo que passa fica olhando para trás, imaginando o que diabos pode ter acontecido com aquele pobre coitado (no caso, eu) para ficar andando daquele jeito. E tem mais…

– Querido, você quer ir no médico?

– Não.

– O que é que você quer que eu faça, então?

– Vê se acha aquela pomadinha do nenê pra mim.

– Qual pomada?

– Aquela, branca.

– Hipoglós?

– É, é, hipoglós. Tá rindo do quê?

O cara que gostava de ver sangue
17/01/2010

Agora, me fala aí. Quem é que gosta de ver sangue? Se você é uma pessoa normal, e não é um vampiro, nem nada dessas coisas, deveria responder: ninguém gosta.

Ou então, vá lá, mudemos a pergunta. Vamos dizer que sua filha de quinze anos comece a namorar um cara de dezoito anos, um cara até que bem apessoado, que usa camiseta pólo da Lacoste e calça jeans com tênis Nyke, quer dizer, um rapaz aparentemente decente e bem educado. Por via das dúvidas, um dia você resolve conhecê-lo melhor e o convida para almoçar na sua casa, para conversar um pouco, saber sobre os seus gostos profissionais ou culturais, e, para começar a conversa num tom mais ameno, você chega e pergunta para ele o que ele gosta de ver na televisão. E ele te responde:

– Sangue.

Você acha que não ouviu direito, e pergunta de novo, e ele reafirma. Ele gosta mesmo de ver sangue. Ele passa todo o tempo zapeando os canais da TV a cabo atrás de filmes de guerra, de lutas de vale-tudo ou de boxe, de séries sobre hospitais ou de delegacias de polícia, ou até mesmo atrás de uns canais de notícia especializados em crimes hediondos.

– Contanto que tenha bastante sangue.

Agora, mesmo se esse cara tenha um bom emprego, uma família religiosa e trabalhadora e tudo o mais, você ficaria tranquilo sabendo que sua filha anda por aí, para cima e para baixo, namorando um cara que gosta de ver sangue? Pois não ficaria. Eu, pelo menos, não. Um cara que gosta de ver sangue, para mim, tem algum tipo de desvio psicológico grave, e precisa é de tratamento. Não pode ficar por aí, solto, como se fosse o cara mais normal do mundo.

Então, me diga aí uma outra coisa. Por que diabos esses caras das TVs, dos jornais e das revistas não param de mostrar essas imagens daquele monte de gente morta lá no Haiti? Tudo bem. É claro que eu também estou com pena do haitianos, e até já fiz uma contribuição para ajudar o país pelo site dos “Médicos Sem Fronteiras” http://www.msf.org.br. Mas isso não quer dizer que eu queira ficar vendo, de cinco em cinco minutos, uma pilha de corpos ensanguentados. Até mesmo porque não adianta nada. Se eles usassem esse espaço para divulgar como cada um pode ajudar no que lhe for possível, seria muito mais útil.

Mas não. A imprensa insiste em tratar a população como se fôssemos um bando de bárbaros sedentos por sangue. Bem, nós não somos isso.

Pelo menos, eu não sou.

As férias do Veríssimo
14/01/2010

Um dos problemas de se escrever para o blog é que não dá para fugir de certos assuntos.

Eu me lembro de uma vez que o Luis Fernando Veríssimo precisou fazer uma viagem urgente e, para isso, tirou uns dias de folga do “Estadão” onde, diariamente, escrevia uma coluna. Geralmente, o Veríssimo falava de assuntos bem atualizados, comentando as notícias do dia anterior, sempre daquele seu jeito bem-humorado e fácil de ler que fez de sua coluna uma das mais lidas da imprensa brasileira. Acontece que, como esses dias de folga não coincidiam com suas férias anuais, o Veríssimo resolveu que deixaria umas colunas prontas, atemporais, e que poderiam ser publicadas em qualquer época que não haveria problema algum.

Então ele escreveu umas cinco, seis crônicas, uma falando de um encontro com uma ex-namorada, outra sobre seu cachorrinho, uma outra sobre sua sogra e ainda outra sobre o encontro de alguns amigos num bar. Coisas assim. Entregou as crônicas no jornal, explicou que era para ir publicando enquanto ele não voltasse, e saiu de viagem. Não haveria problema algum, e o fato do Veríssimo estar de folga passaria até mesmo despercebido pelo grande público, se não fosse o dia em que ele saiu de viagem. Dia 10 de setembro de 2001.

Não sei se a data faz você lembrar-se de alguma coisa, mas o dia seguinte certamente sim. No dia 11 de setembro de 2001, dois aviões estatelaram-se contra as Torres Gêmeas de Nova York, matando milhares de pessoas no maior atentado terrorista de nossa época.

E aí aconteceu o seguinte. Enquanto todos os jornalistas do mundo escreviam sobre a tragédia, o Veríssimo escreveu sobre a ex-namorada. No outro dia, sobre seu cachorrinho. E no outro, sobre sua sogra. Começaram a chegar cartas no “Estadão”, pedindo explicações. Onde já se viu uma coisa dessas? O mundo ali, à beira do caos, e o maior colunista do jornal escrevendo sobre amigos num boteco?

A explicação era simples. Por coincidência, o Veríssimo estava em Manhattan justamente naquele dia, e ficou tão “passado” com os acontecimentos que simplesmente se esqueceu das crônicas deixadas para trás. Quando encontrado pelos editores, precisou escrever uma nota de esclarecimento, explicando para seus leitores tudo isso que eu contei aqui.

O que eu estou querendo dizer é que não dá para eu fazer de conta que não aconteceu um terremoto no Haiti. Ele aconteceu.

Eu só não sei direito o que escrever sobre isso.

Herodes
12/01/2010

Tudo bem. Eu sei que as crianças são uns amorzinhos. Na publicidade, inclusive, sempre que nos faltam idéias mais criativas, a gente acaba usando a foto de uma criancinha para estampar um outdoor, um anúncio de jornal ou o que quer que seja. Sempre dá algum resultado porque todo mundo gosta de criança. Os cientistas dizem que isso acontece devido a um conjunto de características chamado de “esquema bebê”. Sabe aquele lance que toda criança tem, olhos e cabeças grandes, bochechas fofinhas. Então. Não há ser humano que resista a isso. Especialmente aquelas tias velhas que adoram dar beliscões na nossa cara e dizer “grachinha da titia” até quando a gente já virou adolescente.

O biólogo austríaco e prêmio nobel Konrad Lorenz foi o primeiro a descobrir e explicar esse efeito que as crianças exercem sobre os humanos. O “fator fofura”, como é chamado pelos leigos, faz parte de um dos nossos principais instintos, o da perpetuação da espécie. Nós tendemos a gostar e proteger as crianças porque, desta forma, estaremos também garantindo a sobrevivência da civilização como um todo. A sensação é tão forte que a coisa “amada” nem precisa ser propriamente um bebê. Qualquer objeto ou animal fofinho imediatamente nos faz sentir bem. É por isso que a gente gosta tanto de filhotes de cachorro, de gatinhos, de ursos pandas, de fuscas. E, obviamente, das crianças.

O problema é que não existe instinto de perpetuação da espécie que resista à experiência de ficar com quatro crianças de férias trancadas em casa com essa chuva que anda caindo. As crianças começam a procurar coisas para fazer. Também está no instinto delas. E as coisas que você tem dentro de casa, geralmente, são coisas que você não gosta que ninguém mexa, senão você as deixaria no quintal, e não trancadas dentro de casa, oras. Então, quando você menos espera, aparece o seu neto gritando “óia o caminhaum do nenê”, correndo pela sala com o seu celular sendo puxado pelo fio do carregador. Ou então o controle remoto de sua TV novinha é transformado em peteca, e a sua agenda aparece cheia de desenhinhos de patinhos, casinhas e au-aus.

Mas, até isso a gente agüenta. A brincadeira acaba mesmo quando elas resolvem jogar frisbee com minha coleção de antigos discos de vinil, ou com meus últimos DVD’s.

Aí, que me perdoe a espécie humana. Esses bandidinhos vão ver só uma coisa!