Archive for junho \21\UTC 2011

Os feriados lilases
21/06/2011

Quando a gente é moleque, não tem coisa melhor no mundo do que um feriado. Era no feriado, afinal de contas, que a gente ia visitar a avó da gente que morava no interior, e que tinha uma jabuticabeira no quintal, e um quintal cheio de terra que a gente molhava e construía piscinas e pistas de carrinhos de plástico que a gente ganhava das tias, e que no fim sempre acabava com uma guerra de barro e a nossa mãe muito brava dizendo que não tinha trazido roupa para o feriado e que se continuasse assim a gente ia ter de voltar pelado na viagem de volta (mas ela dizia isso rindo muito e cutucando a barriga da gente, chamando a gente de “meu sujismundinho” e tudo o mais).

E depois, na adolescência, os feriados ficavam ainda melhor. Nos feriados era quando a gente ia acampar com a escola, e ficava todo mundo junto no alojamento, fazendo aquelas brincadeiras sem graça com pasta de dente na cueca dos amigos, ou tocando violão até mais tarde, ou tentando alcançar o alojamento das meninas de noite e morrendo de medo daqueles barulhos esquisitos da noite, que pareciam uivos de lobos (mas dizendo para os outros que eles eram uns medrosos, isso sim, onde já se viu, que aquilo era só uma coruja)

E os feriados do tempo da faculdade, então? Quando a gente saía de carona pelo Rio/Santos, parando em Ubatuba, Parati e indo até onde dava, dormindo na praia e tomando aquelas coisas todas que a gente tomava naqueles tempos, e acendendo fogueiras e conversando até de madrugada sobre a vida, e a morte, e as ideologias, falando como se naquele tempo a gente já tivesse vivido tudo o que era para ser vivido e não precisasse aprender mais nada (e, pensando nisso hoje, talvez fosse até mesmo verdade).

Agora, ainda ontem, chegou um cliente aqui no escritório, e ele estava mal humorado. Como eu, já beirando seus cinquenta anos, meio careca e transpirando mais do que o normal. E ele entrou no escritório e falou “-Maldito feriado, eu com tanta coisa para resolver, e agora me aparece esse feriado no meio da semana para atrapalhar tudo”.

Eu cocei a cabeça, me virei e olhei pela janela. O céu estava meio lilás.

Lilás, dá para acreditar?

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Nós vamos invadir o seu site
20/06/2011

O mundo está em polvorosa. E, dessa vez, não se trata da eminência de uma guerra nuclear, ou de ataques de homens-bomba, e muito menos de alguma nova gripe surgida nos confins da Ásia. Trata-se de ataques hackers a sites de empresas e governos, nos quais os novos “terroristas” vão buscar dados, informações ou o que encontrarem por lá.

Para você ver como o negócio é sério, até o site do Senado norte-americano foi hackeado, uma falha de segurança constrangedora para uma das mais importantes instituições do ocidente. Mas não ficou só por aí. O tão temido Fundo Monetário Internacional, o conhecido FMI, que mandou e desmandou num monte de país, incluindo aí o Brasil, também foi atingido, assim como a Lockheed Martin, uma das mais importantes fabricantes de produtos aeroespaciais, o Citigroup, talvez o banco mais rico do mundo, e até mesmo uma das empresas que mais deveriam entender do assunto, o Google, foi invadido por supostos espiões chineses. E ainda teve muitas outras, entre as quais podemos citar a Diretoria de Telecomunicações da Turquia, o Governo da Malásia, a conhecida emissora de TV Fox, e as megaempresas de jogos eletrônicos Sega, Nintendo e Sony, essa última, inclusive, tendo que deixar seus jogos um mês e meio fora da internet.

Neste momento mesmo, estão acontecendo reuniões no mundo todo, em busca de uma solução para o problema, e já tem até gente achando que o melhor é voltar a fazer como antigamente, mantendo seus documentos só no papel que, em caso de perigo, pelo menos podem ser queimados sem deixar rastros.

Tudo bem. Esse é mesmo um grande problema, que deve ser estudado e combatido devidamente. Mas o que eu tenho me perguntado desde que esse bafafá todo começou é que eu não sei do que é que esse povo tem tanto medo. Por que, que eles têm medo que a gente descubra alguma coisa errada lá no site deles, disso não resta a menor dúvida. Senão eles não gastariam tudo o que estão gastando para manter seus documentos mais seguros.

Nas minhas contas, por exemplo, esses hackers aí podem entrar na hora que bem entenderem. O máximo que vão descobrir é que eu pedi recentemente um CD do Caetano Veloso pelo site Submarino, e que estou atrasado com uma ou duas prestações de uma TV 32 polegadas que eu comprei nas Casas Bahia.

Se quiserem divulgar isso para o mundo, estejam à vontade. Estou pouco me lixando.

Cheiro de enxofre no ar
14/06/2011

Eu não sei de você mas, mesmo puxando bastante assim, pela memória, eu não consigo me lembrar de alguma vez na minha vida ter ouvido falar tanta coisa a respeito de desastres naturais como tenho ouvido ultimamente. Por exemplo. Você já tinha ouvido falar de linhas aéreas terem que cancelar vôos de seus aviões por causa da cinza de vulcões? Pois eu nunca tinha ouvido falar numa coisa dessas. E, agora, em menos de dois anos, já aconteceu duas vezes, uma em cada lado do mundo. A primeira foi no ano passado, quando uma nuvem de cinzas vulcânicas, causada pela erupção de um vulcão na Islândia, provocou o fechamento do espaço aéreo e o cancelamento da maioria dos vôos do Reino Unido, da Noruega, da Dinamarca, da Suécia, da Finlândia e, é claro, da própria Islândia. Foi um deus-nos-acuda nos aeroportos da Europa inteira. Parecia até Congonhas. E agora, acontece esse negócio aí, com esse vulcão do Chile. Depois da sua erupção, a nuvem de cinzas que saiu dele foi se espalhando, se espalhando, e até agora já parou aeroportos da Argentina, do Uruguai e causou o cancelamento de vôos em várias cidades do sul do Brasil, como Porto Alegre e Florianópolis. E a coisa, em vez de melhorar, está é piorando. Já que o vulcão continua ativo, a nuvem de cinzas vinda do Chile já chegou até no espaço aéreo de países como Austrália e Nova Zelândia, e continua avançando pelos estados brasileiros. Embora alguns meteorologistas discordem, já tem muita gente reclamando do cheiro de enxofre no ar aqui mesmo, em São Paulo. Por que, não sei se você sabe, mas é nas proximidades de vulcões que o enxofre é encontrado na sua forma original. E o enxofre tem um cheiro absolutamente horrível. Não é à toa que dizem que, quando o diabo aparece, sente-se imediatamente o cheiro de enxofre no ar. O enxofre tem um cheiro parecido com o de ovo podre, sabe? Ou de repolho estragado, essas coisas que…

– Olha, pode parar com esse papo, querido. Você soltou foi um pum.

– Não soltei nada. É o vulcão do Chile, tô te falando.

– E eu já falei que embaixo da coberta é sacanagem!

– NÃO FUI EU, ORAS, JÁ FALEI!

A Cura Universal
13/06/2011

Não. Não é mais uma teoria da conspiração. É só uma constatação. Sinceramente, eu acho que, em certas áreas, o ser humano está eternamente condenado a não evoluir. Ou, pelo menos, a evoluir até um certo, digamos, teto.

Pensa bem aqui comigo. Se descobrissem, por exemplo, a cura para todas as doenças, onde é que a gente ia enfiar esse monte de médico, enfermeiro, hospitais, e isso pra não falar de toda a indústria farmacêutica? Pois não ia ter mais lugar para eles no mundo, essa é que é a verdade. Então, tudo bem enquanto os cientistas vão inventando remédios para as doenças. É bom para todo mundo, oras. É bom para o médico, que pode continuar mantendo sua áurea de semideus, com o poder da vida e da morte em suas mãos. É bom para a indústria farmacêutica, que continuará ganhando rios de dinheiro à custa de nosso eterno medo da morte. É bom para os enfermeiros, que assim preservam seu emprego.

Agora, imagina só se, um dia, um cientista meio amalucado descobrisse o remédio universal. Ou seja, um remédio que curaria todas as doenças conhecidas e ainda as que ainda se está por conhecer. E que, além disso, o tal remédio tivesse o poder de rejuvenescer o paciente até o auge de seu esplendor físico e psíquico. E, o melhor de tudo: seria um remedinho barato, uma espécie de comprimido feito à base de alguma substância bastante comum e acessível, como a água, o ar, ou, porque não, o arroz, o feijão ou coisa que o valha. Uma fórmula simples, que qualquer tia acostumada a fazer receitas de bolo conseguisse produzir ali, no fundo do quintal. Se acontecesse uma coisa dessas, diz aí para mim. O que seria da chamada “indústria da saúde”?

Mas o pior é que, se a gente for pesquisar um pouco mais a fundo, vai descobrir que 99% dos cientistas da face da Terra que pesquisam novos medicamentos trabalham diretamente ou em hospitais, ou em indústrias farmacêuticas. Ou então para os Ministérios da Saúde (os quais, aliás, também deixariam de existir com a invenção de nosso hipotético remedinho).

Quer dizer, se você está esperando que, um dia, alguém vai descobrir o segredo da imortalidade, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Se você pensar bem, talvez até já tenham descoberto. Mas isso, meu chapa, você nunca vai ficar sabendo. (uhahahahahahahahha)

Tem terno com decote?
08/06/2011

O médico tinha avisado. Com esses remédios, e o lance da doença em si, meus hormônios estão meio bagunçados e não sabem direito o que fazem. Uma das coisas comuns em pacientes no meu estado é um certo inchaço nas mamas que, se não ficam assim, parecidas com a de uma estrela pornô, também não ficam devendo nada para essas modelos anorexas que a gente encontra desfilando por aí. Mas, tirando uma ou outra dorzinha quando dou um esbarrão (minha mulher e minha filha disseram que isso era normal), eu até que estou me acostumando bem à situação de ter seios.

Para falar a verdade, tem hora que até é gostoso. Por exemplo. Uma das melhores lembranças que eu tenho do meu tempo de criança é de quando eu me machucava jogando bola, ou então quando eu pegava uma gripinha mais forte, e minha mãe me dava uns remédios e me aconchegava no seu colo, com minha cabecinha de nenê fazendo dos seios dela uma espécie de almofada. Ficar assim, juntinho da minha mãe, ouvindo sua respiração, foi o máximo que eu consegui me aproximar até hoje do pleno relaxamento e da paz espiritual.

Então, hoje em dia, quando eu estou me sentindo meio sozinho, ou meio deprimido, o que eu tenho feito é baixar minha cabeça até encostar o máximo possível nos meus próprios seios, tentando resgatar aquela plenitude que só encontrei no colo da minha mãe. Um homem com seios tem seu próprio colo, entende? Sempre ali, à disposição.

Mas é claro que nem tudo é um mar de rosas. Outro dia desses, me peguei em frente à vitrine de uma loja de lingerie  dando uma olhada em alguns modelos de sutiã, que o pessoal havia colocado naqueles manequins. A moça da loja, muito solícita, veio ver se podia ajudar, e eu apontei uma das peças, e perguntei se tinha números menores que aquele que estava ali, exposto. Aí a moça me perguntou.

– O senhor pretende dar o sutiã para uma garota de mais ou menos quantos anos?

– Não, não vou dar para ninguém. É para mim mesmo.

Quando ela disse que ia chamar a polícia, eu fui embora. Na próxima vez, vou pedir para minha filha comprar. Acho que já estou mais ou menos com número dela, mesmo.

Gramática numa hora dessas?
08/06/2011

Alguém aí sabe o que é um advérbio? Então fala aí, de bate-pronto:

– O que é um advérbio?

Pois não tem quem não gagueje frente a uma pergunta dessas. Imagine-se assim, andando pela rua numa manhã de domingo, e alguém segura no seu braço, olha bem nos seus olhos, e pergunta:

– O que é um subjuntivo?

Tudo bem. Eu já devo ter sabido o que é um subjuntivo em alguma época da minha vida, já que cheguei à faculdade relativamente sem muitos tropeços. Mas agora, no momento, eu simplesmente não tenho a menor idéia do que seja um subjuntivo. E mais. Eu acho que não sei o que é um subjuntivo desde o meu terceiro ano colegial, que não vou dizer aqui em que ano fiz, mas eu te garanto que faz muito mais tempo do que você imagina.

Agora, convenhamos. Não saber o que é um advérbio ou um subjuntivo simplesmente não me faz a menor falta. E olha que eu trabalho diretamente na área, seja escrevendo aqui, nesse cantinho, seja montando textos publicitários para a agência de propaganda na qual ganho a maior parte do meu sustento. Imagina então para pessoas que trabalham com outras coisas e não as palavras. Para quê, por exemplo, um médico precisa saber o que é um pretérito perfeito ou presente do indicativo? Pois simplesmente não precisa.

Assim como um adjunto adnominal.Quando eu ouço assim, no ar, a expressão “adjunto adnominal”, ela me soa até que bastante familiar. Me faz lembrar de um tempo longínquo, de um cheiro de livros novos e de professoras usando aventais brancos, escrevendo em lousas negras e repetindo para a gente “dei, deste, deu, demos, destes, deram…”. Mas lembrar assim, do que seja ou deixe de ser um adjunto adnominal, aí já é pedir demais.

Aliás, duvido muito que até os caras mais bilionários desse mundo, tipos Steve Jobs, Bill Gates ou até mesmo o nosso Eike Batista, tenham a menor idéia do que seja um predicado verbal ou uma conjunção coordenativa aditiva. Ninguém sabe uma coisa dessas, oras.

– Tudo bem, vô, e essa aqui: “dobrar a direita” tem crase?

– CRASE? CRASE? Você deve estar brincando comigo! Desde que eu nasci, NINGUÉM nunca soube onde usar esse negócio de crase! Se você quer saber, eu aposto que nem essa sua professora sabe onde colocar essa maldita crase! Crase… Só me faltava essa, agora…