Archive for julho \31\UTC 2011

Agora eu que bato cara!
31/07/2011

Simplesmente não dá para cair em depressão com uma criança dentro de casa. Não dá. Esse papo de mãe que cai em depressão, é papo furado. Só pode ser. Porque a gente está lá, sentado na varanda de casa, fumando um cigarro e pensando na falta de sentido disso tudo, e nas coisas que deixou de fazer nessa vida. E de repente.

– Vô.

– Hum?

– Eu tive uma idéia.

– Hum, hum.

– A gente podia brincar de… de…

– Olha, nenê, o vovô não está com vontade, eu…

– … de dado!

– Brincar de quê?

– Dado, vô, vem cá.

– Que dado o quê? Você nem sabe o que é um dado e…

E sabe-se lá como, do meio do nada, surge um dado. Na mão dele.

– É assim, ó, a gente joga o dado e…

– Cuidado com o dado, ele vai cair debaixo do sofá e…

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei!

– Mas você mexeu no dado, agora a gente não sabe mais quanto é que…

– Agora o vô que joga, joga vô.

E a gente joga o dado e, deus sabe que é verdade, tenta tirar um número menor do que aquele que ele mostrou. Mas o maldito dado roda, roda, roda e dá seis.

– Ih, nenê, o vô tirou seis e…

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei!

– Como assim, você ganhou nenê? Seis é o maior número que tem e…

E ele joga de novo. E tira um.

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei de novo, eu sou bom em dado, né vô?

– É, você é bom, agora vai lá com sua mãe que o vovô queria ficar um pouco sozinho e…

– Já sei! E se a gente brincasse de… de…

– Olha nenê, o vovô não tá muito bom, eu estou meio triste e…

– Esconde-esconde! Você bate cara, tá vô?

– Nenê, o vô não queria fazer nada que…

Mas ele não está mais ouvindo. Ele está lá dentro de casa, atrás da cortina, que é onde ele sempre se esconde quando a gente brinca de esconde-esconde.

– Nenê, esconde noutro lugar, você só esconde aí, o vô já sabe…

Mas ele não se mexe. No máximo dá uma risadinha de vez em quando, as perninhas e os pézinhos à mostra, para quem quiser ver. Esperando eu levantar a cortina e gritar “achei!”. Eu me levanto. Arrasto meus chinelos pela casa. Levanto a cortina e…

– ACHEI!

E ele ri, e sai correndo até o muro lá fora, onde dobra os braços, encosta os olhos e grita:

– Agora eu bato cara e o vô esconde!

E vou eu para atrás da cortina. Minha depressão, minhas canelas e meus chinelos à mostra, para quem quiser ver. E o máximo que ouvem de mim são uns risinhos abafados.

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O mundo dá volta, volta e meia vamos dar
26/07/2011

Não deixa de ser engraçado ver os Estados Unidos prestes a dar um bruta calote em sua dívida externa. Porque, eu não sei se você sabe, mas os nossos queridos irmãos do Norte estão prestes a deixar metade do planeta sem receber os juros de sua dívida. O presidente Barack Obama, inclusive, defendeu na TV, em cadeia nacional, o corte de gastos em setores estratégicos do país, como a Previdência e a… Defesa! A Defesa, veja só você.

Quer dizer, os norte-americanos, que sempre quiseram passar a impressão de dormirem com uma faca entre os dentes, e uma metralhadora enfiada na sacola, prestes a saltarem sobre nossas cabeças, moradores de paisinhos subdesenvolvidos, vão até diminuir seus investimentos no Exército, na Aeronáutica, na Marinha, na CIA, no FBI e em todas essas agências secretas que a gente sempre vê nos filmes, só para ver se conseguem pagar a grana que devem para o resto do mundo.

Veja bem. Eu não tenho nada contra os Estados Unidos. De uma maneira geral, eu até gosto da maioria das coisas que vêm de lá. O cinema, por exemplo. Minha vida, e imagino que a sua também, teria sido completamente outra se não fossem os filmes norte-americanos. Desde os antigos musicais de Fred Astaire até os incríveis efeitos 3D de Avatar, passando aí por Charlie Chaplin, Wood Allen, Arnold Swazenegger e Clint Eastwood, todos eles, de uma maneira ou outra, estão aqui dentro da minha cabeça, mexendo uns pauzinhos toda vez que penso ou sinto alguma coisa.

E isso sem contar as invenções. Você já imaginou que, se não fosse Henry Ford, a gente poderia estar andando em carroças ou a pé, até hoje? E que, sem o Thomas Edison, talvez  estivéssemos andando completamente no escuro ainda por cima? E a Coca-Cola e o McDonald´s? O que seria de nossas vidas se não houvesse um copo duplo gelado de Coca-Cola e um clássico Big Mac nos aguardando no próximo final de semana? Então, não dá para detestar os Estados Unidos assim, de uma forma ampla, geral e irrestrita.

Mas lá no fundo, bem lá no fundo mesmo, ainda sinto um garotão de dezoito anos, cabelo longo gente jovem reunida, dando gritos de guerra contra o imperialismo numa passeata da UNE, e morrendo de rir dessa dívida dos Estados Unidos.

A relatividade aplicada aos aniversários
24/07/2011

à Amy Winehouse

Esse negócio de tempo de vida é, como diriam os físicos, uma coisa relativa. Veja aí as borboletas. Uma borboleta vive em média um mês. E os passarinhos? Não sei se você sabe, mas um passarinho vive dez, quinze anos, no máximo. Sabendo dessas coisas, a gente pode pensar, “mas, puxa vida, coitados dos passarinhos, vivem tão pouco, né?”. Mas a questão é justamente essa. Não é exatamente que eles vivem pouco. Eles vivem é mais rápido.

Se você não acredita, olhe bem para um passarinho. Ele está sempre arisco, olhando em volta numa velocidade que daria um torcicolo em qualquer ser humano que tentasse fazer a mesma coisa. E pula pra cá. Pula pra lá. Cisca. Se sacode. Olha em volta. Cisca de novo. Dá mais um salto. Dá uma voadinha e pousa na árvore onde dá uma bicadinha numa fruta, se coça, tira uns piolhos, se limpa e se arrepia. E tudo isso em menos de trinta segundos. Já, nós, para fazer metade disso, demoramos pelos menos umas duas horas. E isso sem contar que a gente não voa.

E passarinho transando? Você já viu passarinho transando? É pá, e pimba, e está tudo terminado em menos de cinco segundos. E a gente tem de ficar com esse negócio de levar para jantar, bater um papo, fazer uns carinhos antes, fazer uns carinhos depois. Nossa relação sexual, geralmente, nos toma uma noite inteira e uma boa parte da manhã, que é quando se discute a relação. Agora, vai me dizer que o passarinho vive menos que a gente? Pois não vive. Comparando com o tanto de coisa que ele faz por minuto, se marcar ele vive até mais.

Pois tem gente que é assim também. Eles acham tempo para tudo. Fazem três faculdades, aprendem inglês e alemão, tocam violão, lêem pelo menos um livro por semana, tem emprego fixo e mais uns bicos, já viajaram de mochila até Machu Picchu e pularam de pára-quedas só para ver como é que era. Não deve ser coincidência que os artistas bons mesmo, de verdade, acabaram morrendo cedo, deixando a impressão de que viveram tão pouco. Bem, se você pega a vida dessas caras, vai ver que você aí, com todos esses anos de vida, não fez ainda nem um décimo do que aqueles caras fizeram.

E já está ficando com a leve impressão que não vai dar tempo de fazer nem metade.

Pra não dizer que não falei de futebol
19/07/2011

É difícil eu assistir um jogo de futebol, mas de vez em quando eu assisto. Seja porque não tem nada passando nos outros canais, e eu estou com preguiça de ficar procurando, seja porque eu estou a fim de ver uma coisa que não me faça pensar muito sobre a origem da vida, como esses programas que à vezes passam na TV Cultura. Mas, a maioria das vezes, eu assisto futebol mesmo é para cair no sono, o que geralmente acontece antes dos quinze minutos do primeiro tempo.

Por uma ou outra dessas razões, assisti àquele jogo do Brasil contra o Paraguai, no último fim de semana. O jogo em si, convenhamos, até que foi razoável, tanto que não consegui dormir até seu final, embora tenha dado várias bocejadas. Mas, durante as cobranças de pênalti, é que a coisa realmente pegou. Aquilo, para mim, parecia mais uma daquelas Videocassetadas do Faustão do que qualquer outra coisa. Onde já se viu uma coisa daquelas, meu deus do céu?

Tudo bem. Perder um jogo de futebol não é nenhum fim do mundo. Todo time perde de vez em quando. O que me deixa boquiaberto é saber o quanto aqueles caras ali ganham para fazer aquilo, e que depois daquele vexame eles não sejam despedidos na mesma hora. Puxa vida, um cara que ganha uma pequena fortuna por mês para jogar futebol deveria, pelo menos, conseguir bater um pênalti entre as três traves do gol!

Se você não concorda, pense bem comigo. Vamos supor que você trabalhe no açougue de um supermercado. Um cliente vem e pede um filé mignon, e você entrega para ele uma costela. O cliente reclama, mas você insiste que a costela é um filé mignon, e que se ele não gostou, que vá reclamar com o gerente. Que é justamente o que o cliente faz. Bem, o que você acha que o gerente vai fazer com você?

Pois ele vai te despedir, caramba. Na mesma hora. É a mesma coisa de um motorista de taxi em São Paulo que não sabe onde fica a Av. Paulista. Ou um engenheiro que se esquece de colocar um telhado em cima de sua casa. Se eles não mudarem de profissão, estão fadados ao desemprego e, em alguns casos, até mesmo a serem presos. O que fazer com um médico que opera o rim de um paciente enfartado?

Agora, vê se algum desses jogadorzinhos de futebol vai ser despedido. Vai nada. Vão todos continuar ali, com seus salários milionários, batendo pênaltis na arquibancada e gastando fortunas em cabelereiros para ficarem parecendo índios moicanos.

 

Escolhe você
17/07/2011

Todo mundo sonhava em ser alguma coisa que não foi. Sei lá. Ser um cientista, descobrir a cura do câncer e ganhar um prêmio Nobel. Ser um cantor de rock ou, no nosso caso, talvez um cantor sertanejo famoso. Um ator de novela da Globo ou, pelo menos, um dos Big Brothers. Talvez, até ser um astronauta, embora isso, convenhamos, é mais sonho de americano do que de brasileiro. Sei que, e a gente nem sabe direito quando ou porque, em determinado momento de nossas vidas acabamos desistindo dessas coisas todas e vamos fazer uma faculdade de engenharia, ou abrimos uma padaria, ou uma oficina mecânica. E passamos o resto da vida com o cotovelo no balcão, arrependidos das escolhas que fizemos.

Acho que é por causa disso que, até hoje, eu odeio fazer escolhas. Qualquer escolha. Parece que qualquer coisa que eu faça ou compre, acabo sempre arrependido. E isso colocando aí, no mesmo balde, desde qual sabor de pizza escolher no restaurante até a compra de uma nova geladeira. Eu passo tanto tempo pensando nas vantagens e desvantagens de comprar um celular, por exemplo, que acabo não comprando porcaria nenhuma, e até hoje não tenho um.

– Quanto é que está aquele ali, ó?

– Esse?

– É.

– Um mil e novecentos.

– Puts. E o que ele faz?

– Bem. Esse aqui é um superlançamento. Ele entra na internet, pode ser usado para ler e-books, tem uma câmera fotográfica de 8 megas e filma em HD.

– Nossa. E aquele outro ali?

– Qual?

– Aquele ali, vermelhinho.

– Bem, esse é muito bom também. Ela se conecta no Facebook de graça, pela rede Wi-Fi. Manda twitter. Faz chamadas com vídeo. Tem até TV.

– E quanto é?

– No nosso plano Pré, sai por cento e vinte reais por mês, no cartão, sem taxa de adesão.

– Humm…

– E nós temos essa nova linha de Tablets também.

– Tablet?

– É, eles são maiores, facilitam a leitura, entram na internet de qualquer lugar via 3G. Tem câmera também, mas são um pouco mais fracas, de 3 mega, e ainda tem teclado virtual. É a nova mania mundial, o senhor nunca ouviu falar?

– É, acho que já.

– E então, vai levar algum deles?

– Humm… Deixa eu dar uma pensada. Nessas compras assim, melhor conversar com a mulher antes, né?

E aí, eu volto para casa, e telefono para a minha mulher do meu velho telefone. Puxa vida. Tem hora que eu acho que eu sou o único cara do mundo que ainda tem uma linha fixa, viu…

Tapa o olho, vô!
12/07/2011

As crianças, geralmente, descobrem maneiras muito mais simples de resolverem as coisas que a gente costuma achar complicadíssimas. Por exemplo. Outro dia desses, meu neto e eu estávamos ali, assistindo televisão, e de repente começou a passar um filme de terror. Não, eu não sou nenhum maluco que gosta de ficar aterrorizando criancinhas. Acontece que, no comecinho do filme, nada dava a entender que aquilo se transformaria num pesadelo sanguinolento. Aliás, como acontece na maioria dos filmes de terror, tudo parecia que ia muito bem. Uma família feliz, passeando num parquinho, com roda gigante, bexigas e tudo o mais. Meu neto gostou e pediu para eu deixar ali, e eu deixei.

Pois bem. Não tinha se passado nem vinte minutos de filme, e uma criança já tinha sido atropelada por um trem, um homem tinha morrido enforcado e um grupo de velhinhos com cara de bruxo fazia rituais satânicos degolando galinhas e bebendo seu sangue. Um verdadeiro inferno.

Eu, mais do que depressa, tirei do canal, mas o meu neto, novamente, não deixou. E aí eu comecei a reclamar.

– O vô não está gostando nadeca desse filme.

– Por que, vô?

– Porque, porque… porque tem muita coisa feia, ué.

– Que coisa feia que tem?

– Tem galinha morrendo. E o vô não gosta de ver sangue.

– Mas é só fazer que nem eu vô: na hora que aparece sangue, tapa o olho!

E foi aí que eu comecei a reparar que, toda vez que aparecia uma cena mais feia, ele realmente levava as mãozinhas para frente dos olhos, e só dava umas espiadinhas entre os dedos de vez em quando, para ver se a cena já tinha acabado. Se tinha, ele tirava as mãos e continuava a ver o filme, sem problemas.

Infelizmente, essa maravilhosa técnica, que, convenhamos, não é exclusiva do meu neto, mas da maioria das crianças, foi completamente esquecida por nós, adultos. A maioria das porcarias que a gente vê acontecendo por aí está muito além de nossa capacidade de mudá-las. Basta olhar, por exemplo, o movimento hippie, com seus sonhos de paz e amor, o socialismo, com sua proposta de uma sociedade mais igualitária, ou até mesmo as tentativas de afastar o José Sarney do poder.

Tem hora, que o único jeito é tapar os olhos. E ir tocando a vida.

Os ciborgues estão chegando
10/07/2011

O pesquisador e cientista Miguel Nicolelis é o brasileiro mais perto de ganhar o prêmio Nobel de todos os tempos. Tudo bem. Eu entendo que você nunca ouviu falar dele. Afinal, o cara não é nenhum cantor de música sertaneja, nem um jogador de futebol, nem um participante do Big Brother Brasil, e muito menos um ator de novela da Globo. O cara é um neurocientista. Só que ele não é um simples neurocientistazinho, não. Ele foi eleito pela revista “Scientific American” um dos 20 cientistas mais influentes do mundo.

E tudo isso porque ele descobriu um jeito de fazer com que o cérebro humano fale diretamente com as máquinas, sem precisar de teclado, mouse ou telas touchscreen. Ele já fez coisas inacreditáveis. Que beiram a ficção científica. Por exemplo. Só colando uns eletrodos na cabeça de um macaco, ele conseguiu com que o bicho mexesse, à distância, o braço de um robô. Pode parecer uma bobagem, mas ninguém tinha conseguido fazer um treco desses até hoje. Se você parar para pensar, dá para imaginar onde é que uma coisa dessas vai nos levar.

Além das pessoas usarem seus computadores, dirigirem seus carros, abrirem suas casas e tudo o mais, elas vão também poder se comunicar só com a força do pensamento. Vai ser uma espécie de telepatia, ajudada pelo que há de mais moderno na tecnologia. Em vez de você telefonar para alguém, basta pensar na pessoa e… PIMBA! Você já vai entrar em contato com ela, sem teclar nada, sem se conectar pelo wifi ou ficar torcendo para o sinal da sua operadora pegar onde você está. Uma verdadeira revolução nas comunicações.

E mais. A mesma tecnologia pode manter controlados os sintomas do mal de Parkinson e da doença de Alzheimer, além de fazer os paraplégicos voltarem a andar. Aliás, Nicolelis contou um plano ambicioso, e bem ao gosto dos brasileiros que, assim, talvez comecem a dar valor às pessoas que realmente fazem alguma coisa pelo mundo, e não apenas ficam se exercitando em torno de uma piscina mostrando seus corpos em rede nacional.

Na abertura da Copa de 2014, o nosso neurocientista espera já poder fazer com que uma criança quadriplégica brasileira, vestindo um traje especial, possa dar o pontapé inicial, ou até fazer um gol, só com ação do cérebro. Melhor que qualquer Big Brother, não é não?

 

Cérebro de Pipoca
07/07/2011

Os psicólogos americanos acharam um nome bastante original para essa nova geração de adolescentes que vem por aí. São os “cérebro de pipoca”.

Na verdade, “cérebro de pipoca” não é um termo usado para TODA a nova geração, mas para designar um distúrbio surgido com a internet. É tanto estímulo ao mesmo tempo que se torna difícil para algumas pessoas lidar com tarefas simples como ler um livro ou conversar cara a cara com alguém. É como se a cabeça das pessoas quisesse sempre estar fazendo outra coisa e, nem bem uma pipoca ficou pronta, ela já quer outra, e, no final, acabam não comendo pipoca alguma. Inclusive, pesquisas realizadas na Universidade de Stanford com jovens que usam muito a internet confirmaram que a maioria deles não conseguia mais entender expressões faciais humanas, revelando uma espécie de analfabetismo emocional, que lhes causava  graves dificuldades de relacionamento.

Veja bem. Não tenho nada contra a tecnologia. Muito pelo contrário. Eu adoro todos esses trequinhos eletrônicos, e até costumo falar que, para mim, presente de aniversário tem que ter pelo menos uma luzinha piscando, senão não é presente.

Mas é engraçado pensar que uma das primeiras coisas que os animais aprendem e usam em seus relacionamentos, que é a compreensão do que o outro está querendo por suas expressões faciais, seja pelo ranger de dentes demonstrando enfrentamento, ou por um leve abaixar de olhos para mostrar submissão, está sendo esquecida por nossa espécie.

Eu fico imaginando como vão ficar as conversas daqui uns anos. Se os outros não entendem nossas expressões, vamos ter de arrumar um jeito do outro saber o que é que estamos sentindo no decorrer do bate papo. Tipos assim.

– Eu estou com cara de bravo. Você ainda não terminou esse relatório.

– Eu estou com cara de coitadinho. Ainda não deu tempo, chefe.

– Eu estou ficando com cara de transtornado. Como ainda não deu tempo? Você ficou a tarde inteira aí, na internet!

– Eu estou com cara de indignado. Eu estava fazendo uma pesquisa, chefe!

– Eu estou com cara de desconfiado. Tudo bem dessa vez. Mas vamos com isso, que esse relatório é pra ontem!

– Eu estou com cara de agradecido. Obrigado, chefe, pode deixar que eu acabo rapidinho. Mas chefe…

– Eu estou fazendo cara de surpresa. O que foi?

– Na próxima vez, dá pra ter essa conversa pelo MSN? Eu estou fazendo cara de súplica.

Por onde será que anda a Dona Assunção de Lima?
04/07/2011

Sabe quando a gente vê aquelas reportagens de gente sendo atendida, internada e medicada nos corredores dos hospitais brasileiros, porque os quartos já estão lotados? Pois então. A gente sempre acha que esse tipo de coisa só acontece em fotografias nos jornais, ou em reportagens na TV sobre a decadência do sistema de saúde, e coisas do tipo. E que a gente nunca vai passar por uma situação parecida, que isso só acontece com morador de rua, mendigo e gente de favela.

Bem. Sinto muito informar que essas coisas não acontecem só nas páginas dos jornais, não. Essas coisas acontecem mesmo, de verdade, e quase todo dia. E pior: por incrível que pareça, essas coisas podem acontecer com a gente também, da digníssima classe média ascendente brasileira, que sonha com um ipad e uma TV 42 polegadas.

Semana passada, eu precisei passar uns dias no HB em Rio Preto para cuidar de umas dores e fazer uns exames. E a coisa estava pegando fogo por lá. Não sei se era por causa do feriadão da semana passada, ou o quê, mas em determinada hora, já tinha paciente saindo pelo ladrão. Foram me chamar só lá pelas dez horas da noite, quando a maioria de nós se amontoava na Sala de Espera, em frente a uma televisão sintonizada eternamente na Globo.

De vez em quando, aparecia alguém de branco com um papel na mão e gritando:

– ASSUNÇÃO DE LIMA! DONA ASSUNÇÃO DE LIMA ESTÁ AQUI?

Às vezes estava, à vezes não. Se não, o cara de branco continuava gritando pelos corredores, até achar.

– ASSUNÇÃO! DONA ASSUNÇÃO DE LIMA?

Os melhorzinhos tinham alta, mas acabavam ficando por ali mesmo, já que não tinham como voltar para suas cidades àquela hora da noite. As macas com os pacientes foram sendo colocadas na Sala de Espera, esperando por vagas nos quartos. Depois, as macas passaram a se multiplicar pelos corredores. As enfermeiras faziam o que podiam, dando um remédio aqui, aplicando um soro ali. Para matar a fome, os pacientes trocavam entre si bolachinhas, maçãs e outras coisinhas que trouxeram de casa.

Nessa altura, eu já estava bem alojado, numa maca do corredor central do hospital. O senhor, na maca ao meu lado, se sentou um pouco, tirou um pente do bolso, e arrumou o cabelo. Olhou para mim e disse, sorrindo: – A gente tem que manter a dignidade, né? – e deitou de novo, virando para o lado da parede e puxando sua coberta de lã xadrez.

Vinda lá de longe, ainda dava para ouvir:

– DONA ASSUNÇÃO DE LIMA? ALGUÉM VIU A DONA ASSUNÇÃO DE LIMA?