Archive for maio \29\UTC 2011

On the rocks
29/05/2011

Na TV a cabo, tarde da noite, estava passando um daqueles episódios antigos do “Perdidos no Espaço”, com o Dr. Smith, o garoto Will Robinson, o robô e tudo o mais. E, quando eles subiram na espaçonave, entraram numas cabines criogênicas. Criogenia, para quem não sabe, é aquele negócio de que o corpo da gente pode ficar preservado se for devidamente congelado. E desde aquele dia ele ficou pensando que já havia visto um monte de filme assim.

Teve aquele com o Stallone, que ele fica congelado um tempão por um crime que não cometeu. Teve aquele outro, do Austin Powers, quando o atrapalhado agente secreto britânico foi congelado, depois que seu maior inimigo escapa em uma nave espacial. A criogenia também aparece em filmes mais sérios, como “2001: uma odisséia no espaço”, e até em desenhos animados, como num episódio dos Simpsons.

O problema é que não teria tanta gente por aí falando desse negócio de criogenia se não tivesse um fundo de verdade nisso tudo. Vai ver os caras milionários já tinham descoberto que, se a gente congelasse, poderia viver eternamente, mas não queriam que nós, o povão, soubesse disso. Então eles se congelariam e continuariam mandando no mundo para sempre, enquanto nós continuamos aí, morrendo à míngua, sem saber desse grande segredo guardado a sete chaves dentro dos maiores e mais escondidos laboratórios do planeta.

Quem sabe, por exemplo, se o Bush não era o Napoleão que, descongelado depois de um tempão, resolveu invadir uns paisinhos por aí, só para matar a saudade? E se o Michael Jackson fosse o Elvis Presley ressuscitado? E o Bin Laden? Talvez o Bin Laden fosse algum manda-chuva do antigo império romano que, de volta à vida, passou um pouco dos limites e teve que ser “criogenizado” de novo.

E ele passou a noite toda pensando nessas coisas, que esse negócio de criogenia ainda não estava bem explicada, e que ele havia lido uma vez que, no ritmo atual de descobertas na área da medicina, não ia demorar muito para o homem descobrir a cura para todas as doenças conhecidas e talvez até alcançar a oh imortalidade. Quer dizer, se ele morresse hoje, ia perder a imortalidade de raspão. Coisa de vinte anos.

A mulher dele encontrou seu corpo dentro do freezer três ou quatro dias depois. Com um estranho sorriso estampado no rosto.

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De onde viemos, onde estamos, para onde vamos
24/05/2011

Esses dias, como você deve ter ficado sabendo, fiquei doente. Mas bem doente mesmo. Fiquei internado e tudo o mais. Fizeram dez mil exames, me furaram de alto a baixo. Chegaram à conclusão de que preciso de um transplante de fígado. Aliás, se você souber de alguém que esteja com um fígado sobrando por aí, pode me avisar.

Pois bem. Com essas notícias, é claro que eu dei uma desesperada. Eu e a família e os amigos. Como assim, transplante? Mas é sério assim? Eu cheguei mesmo a perguntar para o médico quanto tempo eu tinha de vida, o que me soou meio cinematográfico, sei lá. Mas, em todo caso, ele também não respondeu. O médico, como todo médico que se preza, deu uma certa enrolada, disse que dependia de um monte de coisa. Me deu uns remédios, me deu um regime alimentar, e me mandou de volta para casa.

Acontece que eu não conseguia tirar essa maldita pergunta da minha cabeça. Quanto tempo de vida eu ainda tenho? Vasculhei a internet, os livros. Conversei até com alguns transplantados. E, todos eles, sejam os sites, os artigos nos livros, ou os meus (oh) colegas de infortúnio, tal como o meu médico, sempre começavam as respostas com um “depende”.

Depende disso, depende daquilo. Que eles conheciam desde pacientes que morreram meses depois da operação, até outros que já duraram mais de vinte anos de fígado novo, e que contiuam aí, na ativa, alguns até se arriscando a uma ou outra cervejinha nos finais de semana.

Quer dizer, ninguém sabia de nada. Ou, se sabiam, não tinha coragem de me contar e se limitavam a dizer que eu tinha que ser forte nessa hora, que a esperança é a última que morre,  que eu tinha muita gente que gostava de mim e que podia até acontecer um milagre, quem sabe?

Até que meu irmão chegou para mim, num dia que eu estava meio caidaço, e me chamou para um canto. Olhou bem para mim e perguntou o que é que eu tinha. E eu disse que a única coisa que eu queria saber era quanto tempo eu ainda tinha de vida, puxa vida, e que ninguém conseguia me dar uma resposta. E ele falou, meio brincando, meio falando sério:

– Ah, você SÓ quer saber quanto tempo tem de vida? Oras, mas quem é que não quer?

Foi a melhor resposta que eu tive até agora. Eu só não entendo como é que a gente consegue viver com essa dúvida desde que nasce, viu.

Que tal montar uma fábrica de fraldas geriátricas?
22/05/2011

O Brasil está se tornando um enorme asilo de velhinhos. Eu me lembro de quando nos orgulhávamos de ser um país jovem. Não faz muito tempo, o Brasil era um país cuja população concentrava-se na faixa etária entre zero e 14 anos, uma das menores do mundo.

Hoje, não é mais nada disso. Para você ver uma coisa, no ano de 2050 a gente vai ter nada mais, nada menos, que 58 milhões de cidadãos acima dos 60 anos. Desses, pelo menos 10 milhões terão 80 anos ou mais, e cerca de 55 mil serão CENTENÁRIOS.

Hoje em dia, pode se notar muito desse negócio de envelhecimento da população com os jogadores de futebol. Os nossos craques estão todos voltando. Voltaram os dois Ronaldos, o Roberto Carlos, o Adriano, o Luis Fabiano, o Rivaldo. Acontece que eles voltaram mais em busca de geriatras do que qualquer outra coisa. Voltaram todos eles apresentando torções, deslocamentos, músculos cansados, aventuras sexuais com adolescentes. Tudo problema da meia-idade. O Ronaldão, então, até arrumou um jeito de se aposentar, veja você.

Ou então com os shows do Paul McCartney que, quando era jovem, nunca pôs o pé por aqui e agora, que já passou dos 70 anos, virou carne de vaca e, todo ano, dá um show atrás do outro para um bando de velhinhos, todos fazendo pose de roqueiro e gritando “Help!” com os olhos marejados de saudade. E de catarata.

Do jeito que vão indo as coisas, não vai demorar muito para as crianças pararem de nascer de vez. É, porque, se você pensar bem, esse problema é uma espécie de bola de neve. A população envelhece e passa a ter menos filhos porque faz menos sexo. As poucas crianças que nascerem vão demorar mais para casar, porque vai ser mais difícil achar alguém da sua idade para procriar. Demorando mais, vão ficar mais velhos. Ficando mais velhos, terão menos filhos ainda. E assim vai até chegar uma hora que não vai mais nascer ninguém.

O que, se você pensar bem, não é nem tão mal assim.

Pelo menos, para o restante do planeta.

Big Bang
17/05/2011

doutorA canela dele começou a inchar. No começo, não tinha nada de mais. Era um inchadinho à toa, desses que acontecem com qualquer par de canelas que se aventuram por um shopping na companhia da esposa e das crianças. Chegou mesmo a fazer umas brincadeiras, que estava ficando com pernas de jogador de futebol.

– Olha só aqui, ó, que coxonas.

É, porque a coisa já não estava presa só às canelas. Primeiro, subiu para o calcanhar. Depois, se desenvolveu pelas panturrilhas. E, finalmente, chegou às coxas. De vez em quando, ele parava na frente do espelho do armário do quarto, o maior da casa. E ficava observando. A verdade é que não estava nada mal. Nunca gostou de esportes, então as pernas sempre foram mirradas. Uns “cambitinhos”, como gozavam os amigos. E agora estava ele lá. Parecendo um atleta olímpico.

– Não sei não, deixa eu dar uma apertadinha nessa canela… hummm, sei lá…esse negócio está mais pra inchado do que para músculo de verdade, viu…

Sempre aparece um estraga prazeres mas, por via das dúvidas, começou a prestar mais atenção. De vez em quando, dava uma apertadinha na perna, e percebia que ficava um buraco no lugar. Já tinha ouvido falar que isso era… era… era não sei o quê. Uma doença, sinal de velhice, sei lá.

– E essa barriguinha, hem?

A barriga. Quando percebeu, a barriga também estava inchando. Não demorou muito para os braços começarem a assar se andasse muito sem camisa. Ficavam roçando no corpo. As mãos começaram a perder as formas. A aliança de 25 anos de casado não entrava mais. Aliás, para sair já deu um trabalhão. Precisou passar sabonete para ela escorregar. E, no outro dia, quase não conseguiu abrir os olhos ao acordar.

– Estou parecendo um sapo!

O inchaço generalizou-se. Foi estufando, estufando. Uns diziam que era o fígado, tinha que parar de comer essas coisas gordurosas. Outro, que devia ser uma espécie de alergia, você não comeu nada diferente nesses dias, nem foi picado por algum bicho? Outros, ainda, tinham certeza que era problema de rim, e que o melhor era tomar uns diuréticos.

Certa manhã, explodiu.

Foi rápido e sem sofrimento. A morte que pediu a Deus.

-E aí, tudo bem?
15/05/2011

Sempre gostei de um tipo especial de humor. Não aquele humor, que a gente se escancara de tanto rir. Não. Sou muito mais por um tipo de humor mais comedido. Desses que, no máximo, no máximo, fazem o nosso rosto dar uma pequena contorcida, numa expressão que fica mais ou menos entre a aflição e a dor de dente.

Entre tantos tipos de “humores”, o humor negro, especialmente, sempre me atraiu. Tanto em minha vida pessoal quanto aqui mesmo, nessas crônicas, volta e meia eu me arrisco a enveredar por caminhos meio sombrios o que, na maioria das vezes, é bastante incompreendido pela maioria.

Por exemplo. Sabe quando as pessoas chegam para você e perguntam “- E aí, tudo bem?”, de maneira meio retórica, não querendo MESMO saber como é que você vai e esperando como resposta um simples “-Tudo bem, e você?”. Pois então. Eu respondo mesmo, de verdade. E, se possível, enumerando um a um os problemas pelos quais venho passando, inventados ou não.

Então, o cara me encontra na rua e diz:

– E aí, Artur, tudo bem?

E eu digo:

– Não. Não estou. Para falar a verdade, acabei de sair da Santa Casa, onde fui fazer uma série de exames nos quais ficou contatada uma doença gravíssima que, pelo visto, só tem tratamento na Europa. E isso sem contar a minha vida financeira, que realmente vai de mal a pior, tô devendo em tudo quanto agiota da cidade. E você? Como é que está?

O cara, na maioria das vezes, não sabe direito como se comportar perante uma resposta dessas. Isso porque ele REALMENTE não queria saber como eu estava. Ele só perguntou “E aí, tudo bem?” para dizer alguma coisa. Logo depois de constatar seu constrangimento, eu caio na gargalhada. Mas o sujeito geralmente não ri nem assim.

– Com essas coisas não se brinca, Artur.

Bem, ultimamente eu venho achando que, no fim, parece mesmo que os outros é que estavam com a razão. Agora, quando as pessoas chegam para mim e perguntam “-E aí, Artur, tudo bem?” eu fico olhando para a cara deles, pensando nos meus últimos dias, e nas coisas que me aconteceram. E aí eu olho bem para eles e respondo:

– Tudo bem. E você?

E continuo meu caminho, apressando um pouco o passo.

O mundo não está nem aí
11/05/2011

Uma coisa que a gente vai aprendendo com o tempo é que o mundo não pára se você parar. Nem vai acabar quando você morrer. A menos que seja o Apocalipse, é claro.

Para uma criança, por exemplo, as coisas só existem se ela estiver presente. Se a criança não está lá, é porque não teve. Isso já foi até provado por alguns cientistas. É por isso que toda criança tem tanto medo de escuro. Porque, se ela não está vendo nada, é porque não existe nada. E, se está escuro, quer dizer que o mundo acabou. Ou, pelo menos, que a mãe e o pai dela não estão onde deveriam estar, ou seja, por perto e bem visíveis.

É claro que, com o passar dos anos, a gente vai aprendendo que não é bem assim. Mas é uma lição difícil de assimilar. Imaginar, por exemplo, que depois que você morrer, o mundo vai continuar existindo como se não tivesse acontecido nada de mais. Quer dizer, EU morri, puxa vida! Bem que o mundo podia demonstrar um pouco mais de respeito, de luto, sei lá. Porque é simplesmente inadmissível que, com o passar dos anos, eu me transformarei apenas num monte de fotografia no computador, ou numa imagem amarelada em algum porta-retratos empoeirado, esquecido na gaveta da vovó. No meu caso, ainda vá lá, deixo umas coisas escritas, que podem pelo menos dar uma idéia geral a respeito do que eu pensava sobre as coisas do mundo e tudo o mais. E é aí que eu chego onde estava querendo chegar.

Desde minha última crônica inédita publicada aqui nesse espaço, aconteceram tantas coisas que é até difícil acreditar. Enquanto eu me via às voltas com médicos, psicólogos, injeções e imensas filas em hospitais, um maluco entrou numa escola no Rio de Janeiro e matou um monte de criancinhas. O Osama Bin Laden foi sumariamente executado pela CIA. O príncipe William da Inglaterra e a plebéia Kate Middleton se casaram e agora já estão em plena lua de mel. O Lacraia da “Eguinha Pocotó” morreu aos 33 anos. A Microsoft comprou o Skype por US$ 8,5 bilhões. O Palmeiras perdeu de seis. Enfim, um monte de coisa aconteceu, sem darem a mínima para o meu estado de saúde ou minha (in)capacidade de escrever sobre elas.

Sinceramente? Quando fiquei doente, eu esperava que mundo, em solidariedade, parasse junto comigo. Mas, pelo visto, não é bem assim que a coisa rola, né?

A verdade é que o mundo não está nem aí para você.