Archive for maio \30\UTC 2010

Furamos o planeta
30/05/2010

Finalmente, nós conseguimos. Fizemos um furo na Terra. E não foi um furinho à toa não. Foi um baita de um furo. Um furo que o próprio presidente Obama disse se tratar do “maior desastre ecológico da história dos EUA”.

Dá até para imaginar o nosso planetinha azul ali, flutuando no espaço, murchando e se esvaziando que nem uma bexiga furada, até se transformar num pedaço amarfanhado de plástico preto.

Pelo menos, foi essa a imagem que me veio à cabeça depois de ouvir que nem os Estados Unidos da América do Norte, simplesmente a maior potência tecnológica do mundo, não está conseguindo tapar o buraco que a petroleira britânica British Petroleum fez no Golfo do México, e que vem despejando cerca de 19 mil barris de petróleo por dia no mar desde o último 20 de abril.

E não foi por falta de tentativas. Durante essa semana, a gente viu nos jornais e nas TVs, além das já tradicionais cenas de milhares de gaivotas e peixes mortos nas praias, que os caras são até bastante imaginativos. Desde a quarta-feira, por exemplo, a British Petroleum já vinha lançando uma grande quantidade de um fluido de alta densidade, semelhante à lama, no local do vazamento, mas que acabou não dando em nada. E, agora, eles já começaram a apelar. Jogaram pneus velhos, cordas entrelaçadas e até bolas de golfe no buraco – o que, além de também não taparem o buraco, ainda fizeram o fundo do mar ficar ainda mais sujo. O plano inicial de instalar uma cúpula de 125 toneladas sobre o vazamento também falhou depois que cristais de gelo impediram sua instalação.

A British Petroleum diz que o custo das operações para conter o problema se aproxima rapidamente de 1 bilhão de dólares, mas esse número deve aumentar bastante essa semana, quando será utilizado um robô subaquático para tentar alcançar o vazamento, serrar o duto danificado e colocar uma tampa sobre ele. A companhia, no entanto, diz que também não pode garantir que o novo método, nunca utilizado em profundidades tão grandes, obtenha sucesso.

Quer dizer. Além de ninguém saber direito o que pode acontecer com o planeta se não taparem rapidamente o vazamento, nós ainda temos que ficar assistindo, de braços cruzados, bilhões de dólares escoando, literalmente, pelo ralo. Tudo bem. Pode não ser o fim do mundo.

Mas tem hora que eu até fico torcendo para que seja. Nós merecemos.

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O que eu sei sobre o amor
27/05/2010

É engraçado como as maiores histórias de amor da literatura e das artes em geral acabam muito antes da gente saber como foi a vida dos caras quando chegaram na meia idade.

Pode reparar. A gente nunca vê, por exemplo, uma novela começando com um casamento. Os casamentos, geralmente, acontecem só no fim da novela. Mais que isso. Os casamentos das novelas, na maioria absoluta das vezes, acontecem na última cena, do último capítulo. O casamento nem acabou ainda, e já começam a passar os letreiros e a propaganda da próxima novela. A coisa não chega nem na lua de mel. Nas historinhas infantis também, só que eles arrumaram um jeito legal de resolver o problema. Eles tascam o famoso “e eles foram felizes para sempre” e estamos conversados. Nada de detalhes técnicos.

E isso acontece porque se apaixonar é até que bastante fácil. Dá para se apaixonar, por exemplo, até por uma atriz de Hollywood, sem precisar ficar conversando nem nada disso. Até mesmo se casar é razoavelmente fácil. Afinal, somos todos jovens, saudáveis, e quando nossos pais chegam para a gente propondo uma baita de uma festa de casamento e uma lua-de-mel em Paris com tudo pago, não há a menor razão para não se casar. Muito pelo contrário. Nessa idade, o grande lance é cair na farra.

Só que isso tudo, convenhamos, não é amor de verdade. Isso é outra coisa. Tem até uns sociólogos mais radicais que afirmam que o amor nem existe. Isso que a gente chama hoje em dia de amor foi inventado mais ou menos no século XVIII por uns poetas meio amalucados, e que, antes disso, o amor era mais parecido com uma sociedade do que com qualquer outra coisa, com os pretendentes masculinos oferecendo, de sua parte, suas carreiras, estudos ou posições sociais, e as noivas entrando com seus dotes de família. Por outro lado, Freud disse que o amor não passava de medo de amadurecer. Segundo ele, o amor é uma tentativa de permanecer na infância, conseguindo uma outra mãe ou um outro pai, dos quais ficaremos eternamente dependentes.

Já, eu, digo uma coisa para vocês. Do pouco que me foi dado conhecer do amor, e se ele realmente existe, de uma coisa eu tenho certeza. Ele não acontece à primeira vista, nem em paixões súbitas e avassaladoras. Só dá para saber se você ama uma pessoa passando, pelo menos, uns 25 anos com ela. Se, depois desse tempo, você descobrir que não amava a pessoa escolhida, deu azar, fazer o quê.

No meu caso, dei sorte. Mas aí eu já estou ficando meloso demais também, pombas.

Fala sério
25/05/2010

Acabou a festa. Esse papo de que o Brasil é o país do jeitinho, do deixa-disso, da simpatia, do calor humano e do carnaval, em muito pouco tempo vai escoar pelo ralo e ninguém mais vai nem se lembrar de como éramos felizes e não sabíamos.

Os sinais dessa mudança estão aí, na cara de todos, e só não vê quem não quer. Para começar, podemos citar os dois principais candidatos à presidência da república. A Dilma, por exemplo, com seu jeitão de general benevolente, me faz lembrar a Margaret Thatcher, aquela primeira ministra inglesa que ficou conhecida como a Dama-de-Ferro, e a quem o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan chamou de “o homem mais forte do Reino Unido”. Do Serra então, nem se fale. Uma vez eu vi uma foto do José Serra dando uma risada e aquela visão aterradora me causou terríveis pesadelos, dos quais não consegui me livrar até hoje. O José Serra é um dos poucos sujeitos do mundo que pode estrelar qualquer filme de vampiro sem usar nem um grama de blush ou pancake e, assim mesmo, ganhar o prêmio de melhor maquiagem.

Outro sinal de que o Brasil está se tornando sério demais para o meu gosto é esse negócio de se meter na política alheia. Olha, eu até acho que o Lula fez muito bem em tentar fazer alguma coisa lá no Irã e coisa e tal, arriscando-se num momento em que sua popularidade atinge níveis estratosféricos, coisa que provavelmente eu mesmo não faria. Mas isso sempre foi coisa desses países mais, como direi, austeros. A gente sempre via essas convenções de paz com representantes de Israel, Rússia, Paquistão, países sofridos, herdeiros de uma história marcada por muita guerra e muito sangue. Mas o Brasil nunca foi disso. Pelo contrário. O Brasil sempre se orgulhou de suas mulatas, de seu samba, do seu ziriguindum.

E do seu futebol. E é nesse ponto que a coisa fica mais evidente. Vejam vocês aí o Dunga. Vocês, por um acaso, conseguem ver o Dunga contando uma piada? Ou fazendo uma propaganda de picolé abraçado com a Mulher Melancia? Pois é isso que eu estou falando. Seja na política, seja na economia, seja nos esportes, para todo lugar que a gente olha, só vê gente séria, com os pés-no-chão, fazendo planos para um Brasil de primeiro-mundo como a Alemanha ou a Suíça.

Fala sério. Isso aqui vai ficar um tédio.

Eu estou em Veneza, você não está la-la-lalara-ra…
23/05/2010

Roam-se de inveja, pobres mortais. Enquanto vocês estão aí, trabalhando duro numa terça-feira, ainda sem vislumbres do fim de semana, eu e minha mulher estamos curtindo nossa segunda lua-de-mel em Veneza! É, aquela Veneza mesmo, na Itália, considerada por alguns como a cidade mais romântica do mundo, com suas gôndolas, pontes e palácios medievais.

Minha esposa e eu ganhamos essa viagem de presente de Bodas de Prata do meu cunhado, que é piloto da TAM e faz a linha Brasil- Itália uma vez por semana. Quer dizer, além de irmos conhecer Veneza e a Itália, ainda fomos de primeira classe e com direito a visita à cabine do motorista.

Veneza, para quem nunca foi, não é nada daquilo que você esperava de uma moderna cidade européia. Se você pretende sair andando por lá, por exemplo, o melhor é levar uma bússola. Porque a cidade não é dividida em quadras normais, como as outras cidades do mundo. Não. As ruas seguem o rumo dos canais e mesmo caminhando com um mapa você se perde. Segundo o guia turístico, isso acontece porque Veneza é composta de 117 ilhas e mais de 100 pontes, o que fez com que a prefeitura instalasse milhares de placas de orientação para os turistas, mas que não adiantam nada porque todas elas estão em italiano.

Mas o que mais me chamou atenção na cidade nem foram exatamente os canais ou as construções antigas, coisas que eu já esperava porque já tinha visto na internet. O impressionante de Veneza é o número de japoneses que você encontra por aqui. É um monte de japonês tirando fotografia de tudo o que encontra pela frente, desde a indescritível Basílica de San Marco até uma simples pombinha, dessas iguais às daí, que a gente encontra na praça central de qualquer cidade. Se você fosse um extraterrestre e caísse em Veneza, sem nenhuma informação a respeito da história, estaria certo de que tinha descido em Tókio.

E tem outras coisas também. Nada me tira da cabeça que esse papo de canais é papo furado. O que Veneza tem de verdade é um baita de um sistema de esgoto a céu aberto, só que deram uma incrementada no tróço com aquele papo de gôndolas e tudo o mais, e o pessoal caiu feito patinho. E isso sem contar que tudo na cidade está invariavelmente lotado, e em qualquer lugar que você vá eles sempre perguntam se a gente tem reserva. Oras, mas será que ninguém pode mais dar uma improvisada numa viagem, deus do céu?

Mas, enfim, de cavalo dado não se olha os dentes. Minha mulher está adorando.

A débilmentalzisse humana
20/05/2010

O grau de débilmeltalzisse do ser humano parece não ter limites. Como se não bastassem os rodeios e o Big Brother Brasil, agora deu de surgir uns caras que se penduram por ganchos enfiados na própria pele. Eles ficam lá, pendurados, sangrando, e o povo aqui embaixo, assistindo. E alguns deles, como aconteceu essa semana numa das esquinas mais movimentadas de São Paulo, não se contentam em apenas se pendurar por ganchos dentro de ambientes fechados, sejam hospícios ou teatros. Não. Eles enfiam os ganchos de ferro, depois amarram o gancho num cabo de aço, e um guindaste levanta os caras mais ou menos até 50 metros de altura.

Tudo bem. Débil mental a humanidade já tem faz tempo e não é coisa dos nossos tempos modernos. Veja você aí esses faquires que se deitam em camas de prego a milhares de anos na Índia, para alcançar, segundo eles,  um estado de espírito superior e totalmente integrado aos deuses. Ou aqueles outros, acho que são índios brasileiros mesmo, que, descalços, atravessam enormes braseiros, caminhando calmamente como se estivessem numa praia. Ou aqueles outros ainda, das tribos da ilha Vanuatu, no Oceano Pacífico, que pulam de enormes troncos de 30 metros de altura amarrados só nos calcanhares por uns cipós meio podres que volta e meia se rompem fazendo o coitado do índio se esborrachar no chão. Só que, como se pode ver, geralmente essas coisas aconteciam só em sociedades mais primitivas, por questões religiosas, em rituais de passagem, por pura valentia ou sabe-se lá para quê.

Agora, esses caras que se penduram em ganchos de aço e que tem a carne rasgada por seu próprio peso registram suas performances em filmezinhos para o youtube, postando links no twitter e abrindo perfis no facebook. Quer dizer, são pessoas razoavelmente esclarecidas, com acesso a tudo o que há de mais moderno na civilização ocidental, e mesmo assim fazem a coisa mais idiota que um ser vivo pode fazer, se mutilando e sangrando até não se aguentar mais de dor. E depois ainda chamam aquilo de “arte performática pelo reencontro com o próprio corpo”.

A verdade é que essa nova mania só vem provar uma antiga tese minha. A de que não importa onde tenha nascido, de quem tenha nascido ou em que época tenha nascido. O ser humano sempre consegue se superar no quesito imbecilidade.

É isso aí, bicho
18/05/2010

O ser humano é meio idiota com esse negócio de animais de estimação. Talvez até exista uma palavra um termo mais leve para designar essa relação, mas “idiota” foi a primeira palavra que me veio à cabeça quando me vi quase chorando por causa de um peixinho de aquário.

Não era um peixe em nada diferente desses outros peixinhos que a gente vê por aí, só que ele ainda era bem pequenininho. A gente ganhou três de uma amiga que disse que o peixinho dela botou. Ou deu à luz, ou seja lá como diabos aquele peixe se reproduz. Mais para não fazer desfeita com a amiga, colocamos os três lá num canto, dentro de um vaso, e fomos dando comida.

E os bichinhos começaram a crescer. Cresceram, cresceram e aí… um deles morreu faz uns dois dias. Foi uma choradeira em casa. Todo mundo chorando, minha mulher, minha filha, meu neto, a empregada, os cachorrinhos. E até mesmo eu, que vivo dizendo que não ligo para esse tipo de coisa, fiquei com os olhos meio marejados com o troço. Agora, como é que pode, uma coisinha que não dava meio centímetro de comprimento causar tamanha comoção? Porque, se você pensar bem, aquele peixinho é exatamente a mesma coisa que todos aqueles 156 piaus e lambaris que o meu sogro pesca toda vez que sai de barco lá no rancho, e dos quais a gente não pensa duas vezes em arrancar a barrigada e cortar as barbatanas, muitas vezes com eles ainda vivinhos da silva e se batendo todos.

Me fez lembrar um pintinho que eu ganhei uma vez, quando era criança, numa daquelas feiras agropecuárias. Hoje em dia, a prática deve ser proibida por alguma lei de proteção aos animais mas, antigamente, era bastante comum. O problema é que os pintinhos, geralmente, morriam um ou dois dias depois, debaixo de algum triciclo ou de doença. Só que o meu não morreu. O pintinho durou até que bastante tempo, tanto que até arrumamos um nome para ele, o Cocó.

Sei que, como não podia deixar de ser, com o tempo o Cocó virou um baita dum galo e começou a cantar – o que, convenhamos, não pegava bem num prédio de apartamentos em pleno centro de Campinas, ainda mais se levarmos em conta que o meu pai era o síndico. Um dia, misteriosamente, o Cocó sumiu sem deixar vestígios.  Minha mãe jura até hoje que não, mas eu aposto que nós comemos o Cocó no final de semana seguinte. Que eu me lembre, ao molho pardo. Nunca mais comi frango. Bem, vá lá, de vez em quando um filezinho bem passado cai até redondo.

Mas ao molho pardo, jamais.

Ninguém é perfeito
16/05/2010

Eu acho engraçado quando alguém diz que a prova mais evidente para a existência de Deus é a perfeição do mundo. Que basta olhar em volta que a gente percebe como não seria possível que tudo isso existisse sem uma intervenção divina. As florestas, os rios, as crianças, o arco-íris. A própria vida. Exemplos do equilíbrio e da perfeição. Bem, é claro que eu também acho tudo isso muito bonito e tudo o mais. Mas querer provar a existência de Deus se apoiando na perfeição do mundo é, no mínimo, perigoso. Porque imediatamente a gente começa a pensar justamente no contrário. Ou seja, nas coisas imperfeitas que têm nesse mundo.

Um exemplo que eu sempre dou é o peru. O que é um peru? Um peru não voa, é gordo, é feio. Um peru não serve para nada. E, mesmo se você pensar em termos gastronômicos, tudo o que dá para fazer com um peru dá para fazer também com frango, só que com o frango fica muito melhor, já que a carne do peru é uma coisa seca e sem graça, que só faz sucesso mesmo nas nossas mesas porque os norte-americanos resolveram que era legal comer um deles nas festas de final de ano ou no Dia de Ação de Graças e mostraram isso em Hollywood.

Mas o peru não é nada comparado a um terremoto. Um terremoto é um erro inaceitável, que joga por terra todos os argumentos de quem ainda tenha coragem de pregar a perfeição da Criação. Você está ali, passeando tranquilamente com a família num domingo de manhã, e de repente CRASH o chão se abre e engole todo mundo para as entranhas da Terra, fazendo você perder a lasanha da hora do almoço e o futebolzinho da tarde.

E um vulcão? Algum dos fundamentalistas aí poderia me explicar para que diabos Deus, em toda sua perfeição, criaria um vulcão? Você há de convir comigo que um vulcão não serve para nada. Só serve para tostar alguns moradores mais desavisados que insistem em viver nas suas redondezas e, mais atualmente, para atrapalhar o tráfego aéreo europeu. Um vulcão é uma coisa sem pé nem cabeça. Uma espécie de furúnculo do planeta.

E por falar em furúnculo, me diga aí então uma coisa. Para que serve uma verruga? É, uma verruga! Uma verruga é a imperfeição em pessoa. O clímax epidérmico do grande erro geral. A verruga é a prova mais evidente já produzida pela natureza de que Deus não existe.

Ou de que, se Ele existe, não está nem aí para a perfeição.

Michel o quê?
13/05/2010

Doni, Michel Bastos, Thiago Silva, Felipe Melo e Ramires. Tudo bem, você pode até já ter ouvido falar nesses caras. Mas eu nunca vi mais gordo. Para mim, se você dissesse que eles fazem parte de uma gang de adolescentes recentemente presa em flagrante ao tentar assaltar um vendedor de algodão-doce, eu acreditaria sem pestanejar. Doni? O que será um Doni? Uma nova marca de chocolate recheado de leite condensado caramelizado? E Michel Bastos? É alguma estrela de telenovela mexicana? Thiago Silva seria, por um acaso, algum primo do Lula? E esse Felipe Melo, é o quê? Ministro da Economia da Espanha? E Ramires, meu deus do céu, o que diabos pode ser um Ramires? O nome de algum faraó egípcio? Um personagem do Chávez?

Olha, não é que eu tenha alguma coisa contra o Dunga. Inclusive, eu também não sei se levaria aqueles garotos do Santos, especialmente o Ganso. Eu simplesmente não ia aguentar o tanto de piadinha com o tema “afogar o ganso” que iam aparecer. Mas, pombas, parece que, nas últimas copas, eu, pelo menos, conhecia os caras que eram convocados. Agora, mesmo os que eu já ouvi falar, eu não sei mais se é atacante, se é goleiro, reserva ou titular. Para falar a verdade, a verdade mesmo, desse pessoal aí eu só lembro, com toda a segurança, do Kaká e do Robinho. E, vá lá, do Júlio Baptista e do Lúcio eu tenho uma vaga lembrança. Mas os outros são tão desconhecidos para mim quanto a seleção da Etiópia. Se é que a Etiópia tem uma seleção de futebol.

E se é que o Brasil tem uma, também. É, porque, você há de convir comigo. A gente não conhece esses caras da seleção do Brasil porque eles não são “do Brasil”, propriamente dito. São uns caras aí que deram uma sorte danada na vida e arrumaram um jeito de sumir daqui o mais rápido que puderam, alguns deles com apenas 18, 19 anos. Então, esses caras já passaram a maior parte de suas vidas adultas vivendo na Europa, seus filhos estão sendo educados decentemente, e nenhum deles fica todo pimpão só de ver o presidente do país onde vivem ser citado numa revista como um dos cem líderes mais influentes do mundo.

E tem outra. Para mim, uma seleção que tem um jogador com um nome esquisito como Kleberson, está fadada a um retumbante fracasso.  Kleberson, ouça bem, Kle-ber-son!

Trabalhar demais faz mal para o coração
11/05/2010

Outro dia desses, uns cientistas descobriram que trabalhar demais é ruim para o coração. Segundo um estudo publicado pelo European Heart Journal, um cara que trabalha três horas a mais do que o normal corre um risco 60% maior de desenvolver problemas cardíacos. Até aí, tudo bem. Acho até que, mesmo sem a ajuda de cientistas, a maioria das pessoas já sabia disso.

O problema é que o diabo do estudo só mostra o problema, mas não dá nenhuma pista de como é que a gente faz para trabalhar menos. Afinal, só trabalha muito quem precisa. Só um tonto trabalha porque gosta de trabalhar.

E se você vier com aquele papinho de que desde que nasceu sonhava em trabalhar no que você trabalha, tudo bem, eu até acredito. Mas você tem que ter consciência de que é um cara de sorte. Saiba que você faz parte de uma porcentagem irrisória da população mundial. Os outros, a grande maioria, trabalha porque precisa mesmo, oras, até mesmo porque dificilmente alguém sonhava “desde que nasceu” em lavar roupas, esfregar o chão ou recolher o lixo dos fundos do restaurante, funções essenciais da vida moderna mas que, infelizmente, não fazem parte dos sonhos de realização profissional de absolutamente ninguém.

E tem mais um problema. Tem profissão que a gente não consegue parar de trabalhar nunca, nem nos finais de semana ou feriados. Veja você, por exemplo, a vida de um cronista de jornal, como é o meu caso. Para qualquer lugar que eu vou, estou sempre pensando na próxima crônica e procurando desesperadamente um assunto. Isso, inclusive, me traz sérios problemas de relacionamento porque, acontece a toda hora, as pessoas mal me vêem e param de conversar, com medo de virarem tema da crônica do dia seguinte. E elas têm razão. Eu fico o tempo todo de ouvido em pé, na esperança de ouvir uma história diferente, uma opinião engraçada, uma idéia um pouco mais original. Até mesmo quando durmo eu costumo ficar esperto porque, sabe-se lá se o meu próximo sonho pode dar aí uma boa crônica.

Quer dizer, trabalhando desse jeito, de dia e de noite, a minha probabilidade de morrer de um infarto já deve ter deixado aqueles meros 60% do tal estudo para trás faz tempo. Para falar a verdade, já faz uns dias que eu ando sentindo umas fisgadinhas aqui, do lado esquerdo.

Mas não deve ser nada. Vai ver, dormi de mau jeito

Antigamente era pior
09/05/2010

Realmente não dá para entender esses velhinhos  reclamando de como a vida anda difícil. Vamos ser sinceros. A vida hoje é muito melhor do que era antigamente. E até muito mais – por que não? – gostosa, é ou não é? Veja bem. Você deve saber, ou se lembrar, que há sessenta anos, a maioria das casas brasileiras não tinha banheiro. É, ba-nhei-ro. No Brasil inteiro, apenas 150 cidades eram atendidas com serviços de esgoto. Isso quer dizer que, se você acordasse de madrugada querendo fazer um xixi, ia ter de ou ir numa casinha de madeira que ficava geralmente num quintal escuro nos fundos da sua casa, ou então se submeter a fazer xixi ali mesmo, na varanda. E, se o caso fosse cocô, um cocôzinho, desses à toa, que hoje em dia não dão trabalho nenhum, você ia mesmo precisar caminhar até aquela casinha, porque cocô na varanda aí também já é demais, né?

E olha que, por enquanto, a gente está falando de coisas bem básicas.

Agora, você já parou para pensar como é que eles faziam para tomar uma cerveja gelada há sessenta anos? É, porque, se as casas não tinham nem banheiro, como é que iam ter geladeira ou freezer? Pois se o peão quisesse tomar uma cerveja gelada em 1930, das duas uma: ou ele tomava a cerveja no inverno, o que não tem graça nenhuma, ou então ele ia precisar ser um milionário. Isso porque o primeiro refrigerador por absorção do mundo só foi lançado em 1925, pela Electrolux, e aqui no Brasil ele deve ter chegado uns bons anos depois, como, aliás, acontece até hoje com os últimos lançamentos da informática.

E já que estamos falando de informática, vamos falar de uma coisa que eu mesmo passei. Uma vez, quando eu tinha uns quinze anos, lá por 1975, 76, uma amiga minha foi fazer uma viagem para os Estados Unidos. A gente trocou umas cartas e tudo o mais, mas o que eu queria mesmo era falar com ela, ouvir sua voz, essas coisas de adolescente, sabe? Pois então. Só que telefonar para os Estados Unidos naquela época custava mais ou menos o salário do meu pai. Então, o que a gente fazia, era trocar fitas cassete pelo correio, o que também não ficava muito barato, mas pelo menos não falia o meu pai. E, hoje, a gente conversa ao vivo pelo computador, vendo a imagem ali mesmo, e tudo praticamente de graça.

Agora, esses vovôs vêm aí vêm reclamar que a vida de antigamente é que era boa. Pois era o escambau! E o Viagra, hem? Antigamente tinha Viagra?

Pois é sobre esse tipo de coisa que eu estou falando.