Onde será que anda aquele Papai Noel de porcelana que minha mãe colocava todos os anos embaixo da Árvore de Natal?

Entrei na sala de espera de um escritório e lá estava ela. Era moderna, quase irreconhecível em suas linhas retas recortadas em plástico transparente. Só as bolas coloridas e a estrela prateada ainda a caracterizavam como uma autêntica e genuína Árvore de Natal.

Houve um tempo em que a primeira Árvore de Natal do ano sempre me causava um certo espanto. Eu não conseguia conter um comentário “— Nossa, mas já é Natal de novo?” ou “— Parece que ainda ontem eu estava comendo o último pedaço do tender do reveillon!”. Acontece que até esses comentários se tornaram meio repetitivos. Todos os anos o Natal chega mais rápido do que a gente imaginava que ia chegar. Todos os anos o ano acaba mais depressa. Todos os anos o comércio prepara uma Promoção de Natal onde são sorteados carros e motos entre os consumidores. Todos os anos os jornais na TV começam a tecer comentários comparando o péssimo Natal deste ano com o maravilhoso Natal do ano passado e mostram os comerciantes preocupados e as vitrines enfeitadas com placas de liquidação.

No Fantástico, vai ter aquela reportagem mostrando aquele mundaréu de gente andando pelos corredores refrigerados de um Shopping, e outra cena mostrando as lojas vazias, e aí um balconista comentando que o movimento deste ano caiu bastante em comparação com os outros anos, e depois uma entrevista com um consumidor dizendo que só vai comprar umas lembrancinhas e olhe lá.

E depois vai ter aquelas entrevistas na rua, perguntando o que é que o pessoal vai fazer com o décimo terceiro, e a maioria vai fazer piadinha, que vai pegar o décimo terceiro e pagar as contas e assim mesmo não vai dar, e outros dizendo que vai ter ovo frito e carne moída na ceia desse ano ah ah ah, e depois a reportagem fecha com uma velhinha dizendo que vai comprar sim uns presentinhos e que Natal é só uma vez por ano, que vale a pena e tudo o mais, e ela vai olhar para a tela e sorrir e o pessoal da produção do jornal vai colocar uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa noite sorrindo.

E o Papai-Noel vai chegar de helicóptero numas cidades, e vai descer de pára-quedas em outras, e vai dar a volta num carro de bombeiros em outras, e em outras ainda o prefeito vai dar a chave da cidade para o Papai Noel e vai sair uma foto do evento na manchete do jornal do dia seguinte e depois as lojas vão ser invadidas por velhinhos aposentados com fantasias calorentas e distribuindo balas e tocando sininhos e o repórter da TV vai entrevistar um deles e ele vai fazer um rô rô rô e o pessoal da produção vai colocar uma musiquinha de Natal no fundo, e corta para os apresentadores e eles dizem boa noite sorrindo.

É meio melancólico ficar velho. Não triste. Melancólico.

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