Archive for janeiro \20\UTC 2011

O Homem do Tempo
20/01/2011

E por falar em clima, desde que eu me conheço por gente os jornais, as TV’s e as rádios do mundo todo sempre tiveram seu “homem do tempo”. “Homem do tempo” era o jeito que a gente chamava os atuais meteorologistas. Para falar a verdade, até hoje eu ouço um monte de gente falar “homem do tempo” em vez de meteorologista, muito provavelmente porque falar, e até mesmo escrever, me-te-o-ro-lo-gis-ta assim, tudo certinho, sílaba por sílaba, é altamente complicado, coisa para entendidos do ramo.

Acontece que os “homens do tempo”, pelo menos no Brasil, nunca foram levados muito a sério. Eles eram, e ainda são, mais lembrados pelos erros homéricos que às vezes cometem do que propriamente por seus acertos. Em sua defesa, tenho a dizer que, por já ter trabalhado em rádio, TV e jornais, fui testemunha de que, na maioria das vezes, os “homens do tempo” sempre trabalharam em condições bastante precárias, tentando descobrir, a partir de um monte de informações defasadas, alguma pista sobre o clima de hoje à tarde.

Veja bem. Você tem que entender que, antigamente, não tinha nada desses negócios de imagens de satélite, internet, nem nada disso. E como é que você imagina que um cara perdido numa rádio do sertão de São Paulo iria obter alguma informação sobre o clima? Oras, o coitado do “homem do tempo” fazia exatamente o que a grande maioria de nós faz até hoje: olhava para cima e arriscava um palpite. O problema é que a opinião dele era ouvida por milhares de pessoas, que talvez imaginassem que o “homem do tempo” tinha algum contato com a NASA ou algo assim, e por isso sabia mais coisas sobre o clima do que os outros. O que, na maioria das vezes, era uma mentira deslavada.

Eu mesmo, uma vez, tive o meu dia de “homem do tempo”, e sei bem como é barra. Foi quando eu trabalhava numa rádio, e era responsável por todo o noticiário, que eu costumava tirar da internet. Entre as informações que eu pegava, estava, é claro, a previsão do clima. Pois bem. Um dia, a internet caiu e ficou a tarde inteira sem voltar. Com as notícias consegui me virar, lendo um pouco de jornal e vendo a TV. Mas e o tempo? Bem, eu abri a janela, olhei para cima e o que eu vi foi um resplandecente céu azul. Fechei a janela e tasquei: hoje teremos sol o dia todo e amanhã sol com poucas nuvens. Pois não é que me caiu tamanho temporal que acabou alagando até a casa do dono da rádio?

Pelo menos aprendi a lição, que deveria ser seguida à risca por todos os jornalistas, e até mesmo pelos políticos cariocas: com o clima, não se brinca.

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Que conselho você daria para alguém que mora debaixo de um vulcão ativo?
18/01/2011

Na boa. Todos nós com um mínimo de discernimento sabemos que a tragédia causada por essas enchentes e esses deslizamentos no Rio de Janeiro não são culpa apenas de uma “vingança da natureza”, muito menos de um suposto mau humor de São Pedro. A culpa dos governantes – em todas as escalas: municipal, estadual e federal – é tão óbvia que nem merece ser esmiuçada aqui.

O que me deixa realmente encafifado é a atitude da maioria dos moradores que pretendem, assim que as coisas se acalmarem, voltar a construir e morar nos mesmíssimos lugares. Mas a que diabos de situação chegamos em que um cara que vê seus vizinhos serem enterrados vivos por uma avalanche de lama não tem outra alternativa a não ser voltar a construir e morar com a família na mesma armadilha da qual, com muita sorte, conseguiu escapar ileso?

Ainda se o lugar fosse assim, uma maravilha para se viver, vá lá. Mas não é. Trata-se do Rio de Janeiro que – apesar de toda sua beleza natural, das praias, do carnaval, do Flamengo e esse blábláblá todo – até outro dia desses estava metido numa guerra urbana que deixou todo mundo estarrecido.

Quer dizer, vai embora daí, gente! Tudo bem, eu sei que é difícil. Que tudo que as pessoas tinham na vida provavelmente estava ali. Mas pombas, será que isso é mais importante do que preservar as próprias vidas? Eu falo uma coisa para vocês. Se fosse eu, eu vazava dali e nunca mais voltava. Nem se fosse para morar debaixo de uma ponte que, por vias das dúvidas, dificilmente desabará em cima de minha cabeça.

Uma das coisas que, desde pequenininhos, mais tentam nos fazer orgulhar de nosso país é sua grandiosidade geográfica. Um dos maiores países do mundo, onde se plantando tudo dá e tudo o mais. Pois criem uma Teresópolis em outro lugar, gente! Num lugar mais plano, pelo menos. Uma Nova Friburgo no Ceará, sei lá. Mas mudem-se daí, pelo amor de deus!

É engraçado como nenhuma autoridade tem coragem de falar isso. Aliás, eles fazem exatamente ao contrário. Eles incentivam os pobres coitados a ficarem. O Banco do Brasil, por exemplo, “para tentar minimizar os prejuízos causados pela catástrofe”, decidiu conceder crédito a juros mais baixos para facilitar a reconstrução dos imóveis atingidos pelas chuvas. E do que é que adianta isso se o ano que vem a montanha vem abaixo de novo?

Afinal, os caras moram na encosta de uma serra, eles querem que aconteça o quê?

A questão do umbigo
16/01/2011

Outro dia desses, na capa aqui, do Diário de Votuporanga, estava estampada uma série de fotos, mostrando um carro e uma motocicleta sendo arrastados pela enxurrada da chuva. Tinha umas pessoas também, aparentemente na dúvida se tentavam fazer alguma coisa pelos veículos ou pela própria vida. Achei as fotos bastante fortes. Não me lembrava de ter visto algo parecido nesse tempo todo que moro aqui, em Votuporanga. Enxurradas, vez por outra, há. Uma ou outra casa inundada. Mas carros e motocicletas sendo arrastadas pela água, acho que foi a primeira vez que vi.

Fiquei tão impressionado que mostrei a capa do jornal para uns amigos. Um deu uma olhadinha assim por cima, quase que como uma obrigação, e resmungou alguma coisa inaudível. O outro, sequer se deu ao trabalho de olhar, e apenas concordou com um “É, a coisa tá feia mesmo”. Ante o, digamos, menosprezo demonstrado por meus colegas, olhei as fotos novamente. Talvez tivesse sido eu que, depois de velho, acabei ficando um pouco mais impressionável do que devia. Mas não. As fotos eram chocantes mesmo. Nada parecido com aquelas cenas do Rio de Janeiro mas, mesmo assim, chocantes.

Mostrei a capa novamente para eles. Só que, dessa vez, enfatizei a abordagem com um “pombas, eu nunca vi nada parecido acontecer aqui em Votuporanga”. Ao ouvirem a palavra “Votuporanga”, não apenas os dois amigos, como mais duas ou três pessoas que estavam em volta, se levantaram e vieram dar uma olhadinha nas fotos. E foi um tal de “Nossa, olha aí, pertinho da minha casa” e “Eu acho que conheço esse carro aí, acho que é do Alencar, coitado” que até me tiraram o jornal da mão, o qual acabei encontrando muito tempo depois, meio amassado e com uma das fotos da capa devidamente recortada.

Por meio dessa historiazinha aparentemente banal, só podemos chegar a uma constatação. Apesar de todos tentarmos demonstrar um certo grau de compaixão e solidariedade, a verdade é que o ser humano não está nem aí para as tragédias que acontecem com seus vizinhos. A gente fica observando na TV aquele monte de gente no Rio de Janeiro que perdeu tudo, suas casas, suas famílias, sua dignidade, e depois de alguns segundos fazendo cara de tristeza, mudamos de canal para assistir a estréia do Corinthians no Campeonato Paulista. Ou ao último capítulo da novela.

Só nos preocupamos mesmo quando a água bate nos nossos devidos umbigos.

Eu estou começando a ficar com medo
15/01/2011

Coisa mais estranha. Não sei se o Lula acostumou a gente mal, ou o que é, mas eu ando achando tudo muito quieto ultimamente, você não acha não? Não tem mais aqueles discursos eufóricos, nem ninguém falando mal da imprensa. Nada.

E isso sem contar as inúmeras surpresas que o Lula sempre nos reservava em cada uma de suas viagens internacionais. Cada dia era uma notícia nova, com o Lula parecendo mais um pop star do que propriamente um presidente. Lembra quando o Lula visitou a Inglaterra, onde andou de carruagem com a rainha Elizabeth II, hospedou-se no Palácio de Buckingham e foi recepcionado em um banquete real? Ou então aquela vez, que se encontrou e bateu o maior papo com o então presidente George W. Bush, dos Estados Unidos, mesmo sem saber falar uma palavra em inglês e o Bush não entender patavina de português? E das duas ou três vezes que ele foi até Cuba, para se encontrar com o lendário Fidel Castro? E como esquecer de quando o atual presidente norte-americano, Barack Obama, afirmou categoricamente que o Lula era “o cara” e, muito provavelmente, “o político mais popular da Terra”?

Quer dizer. Era uma atrás da outra. Não havia dia que a gente não abria o jornal e não aparecia lá, a cara do Lula, falando alguma coisa sobre as novas conquistas brasileiras na área petrolífera, e mostrando as mãos sujas de petróleo, ou então resolvendo comprar uma frota de caças franceses para o exército proteger nosso território sabe-se lá de quem. Enfim, a “Era Lula” foi uma espécie de avalanche emocional, que nos deixava ao mesmo tempo otimistas e à beira de um ataque dos nervos.

Para falar a verdade, eu tenho sentido falta até de um bom e velho escândalo, daqueles de abalar as bases da república. Tipos aquele do Mensalão, ou o da Quebra do Sigilo Bancário do Caseiro Francenildo, ou mesmo uns escândalozinhos menores, como aquele da Operação “tapa-buracos” ou mesmo esse mais recente, da Erenice Guerra, na Casa Civil, que quase melou a candidatura da Dilma. Pelo menos, durante esses casos, a gente sabia muito bem quem eram os envolvidos, toda a imprensa ficava de orelhas em pé e a população tinha de quem falar mal durante algum tempo.

Agora, de uns tempos para cá, a coisa toda se aquietou de tal maneira que a gente fica até desconfiado. O que será que esse povo anda tramando lá em Brasília, hem?

Dá até medo, viu…

Há alguma coisa no ar e não são os aviões de carreira
15/01/2011

“Há alguma coisa no ar e não são os aviões de carreira”. Diante da crise que ameaçava derrubar Getúlio Vargas, em 1954, o célebre jornalista e humorista Barão de Itararé lançou essa frase, que faz sucesso até hoje entre os comentaristas políticos.

Hoje em dia, além dos aviões de carreira e das eternas crises políticas, sabe-se que nosso carrega ar muito mais porcarias como, por exemplo, óxidos de enxofre, óxidos de azoto, monóxido de carbono, compostos orgânicos voláteis, partículas tóxicas inaláveis, e isso sem contar os altos níveis de radiação causados pelo enorme buraco em nossa camada de ozônio.

No entanto, agora parece que a coisa está pegando para valer. Nos Estados Unidos, começaram a cair pássaros mortos do céu! É a mais pura verdade. Agentes estaduais norte-americanos passaram de casa em casa na pequena cidade de Beebe, no Arkansas, para coletar os corpos de pássaros negros, após milhares dessas aves terem misteriosamente despencado lá de cima sem nenhuma razão aparente. Segundo a “Folha de S.Paulo”, foram coletados cerca de cinco mil cadáveres de passarinhos, nenhum deles com sinais claros da razão de sua morte.

Do mesmo modo, do outro lado do mundo, mais especificamente na Austrália, dezenas de papagaios aparentemente bêbados começaram a cair das árvores durante dias seguidos, enquanto veterinários investigavam sem sucesso a causa do fenômeno. A imprensa local informou que os animais perdem a coordenação e adormecem, como se estivessem “completamente alcoolizados”.

E, voltando aos Estados Unidos, a enfermeira Julie Knight, de 53 anos, moradora da pacata vila de Coxley, presenciou uma cena macabra que está intrigando os especialistas. De repente, dezenas de estorninhos começaram a cair do céu, mortos, no jardim em frente de sua casa, cada um com pequenas gotas de sangue escorrendo pelo bico, segundo notícia do “Daily Mail”. Julie disse que “’Começou a chover estorninhos. Um de meus vizinhos também viu. Dezenas de pássaros caindo mortos do céu. Acredito que algo aterrorizante os assustou e os matou e então caíram petrificados”.

Tudo bem. A gente pode até não acreditar em um desses relatos, apesar de todos terem sido confirmados por centenas de testemunhas e até mesmo por cientistas. Pode também achar que o fato de acontecer duas vezes não passe de uma mera coincidência. Mas quando acontecem três ocorrências semelhantes, em ambos os lados do planeta, está na hora de começarmos a nos preocupar.

Bons tempos aqueles, nos quais a qualidade do ar podia ser usada apenas como metáfora política.

Por que a gente tem que saber tanta coisa?
15/01/2011

Tudo bem. Não teve colunista no mundo que já não escreveu sobre a fase do “por que?” dos seus rebentos. Eu mesmo devo ter escrito alguma coisa parecida sobre a minha filha, há uns vinte anos atrás. Mas não dá para deixar de falar disso toda vez que uma criança muito próxima a nós entra nessa fase. Isso porque a fase do “por que?” numa criança é uma coisa muito marcante. Na vida dela e na vida de todos os que a rodeiam.

Para a criança, a importância desse momento é óbvia. Quando ela começa a perguntar “por que?”, é por estar começando a interagir e interpretar o mundo à sua volta. Até aquele momento, o mundo girava em torno do umbigo da criança, e ela ainda não tinha percebido direito que o mundo continuaria existindo mesmo sem a presença dela. Agora, quando a criança começa a se interessar pelo porquê das coisas, quer dizer que ela começou a prestar mais atenção nos acontecimentos ao seu redor, chegando à conclusão, por exemplo, que infelizmente o sol não gira em torno dela, e nem o leite foi inventado exclusivamente para sua própria alimentação.

Ela só não entendeu ainda… por que? Então, os acontecimento mais banais acabam desencadeando uma série de porquês intermináveis, que geralmente acabam desembocando num beco sem saída para os adultos que tentam responder.

Veja um exemplo recente que aconteceu entre meu neto de três anos e eu, quando vimos um mosquito preso numa teia de aranha. Por que a aranha solta teia? Para prender o bicho. Por que o bicho fica preso? Para a aranha comer o bicho. Por que a aranha come o bicho? Para encher a barriga. Por que encher a barriga? Para crescer e ficar forte. Por que o bicho não come a aranha? Porque a aranha é mais forte que o bicho. Por que a aranha é mais forte? Porque ela come o bicho, já falei. Por que o bicho não come a aranha ANTES, pra ficar mais forte? Porque o bicho está preso na teia, oras. Por que o bicho fica preso? Para a aranha comer o bicho…

Assim, nosso pequeno diálogo sobre biologia poderia muito bem durar para sempre se o vovô aqui, mais experiente, não se levantasse, cutucasse a barriga do nenê e gritasse:

– Nenê não me pega!

E saísse correndo espavorido. E olha que ele ainda nem começou a pensar de onde veio, hem?

Alalaô-ôôô-ôôô
15/01/2011

Eu sou um jornalista que ganha a vida com publicidade. Ou um publicitário que encasquetou que também era jornalista. Tanto faz. O negócio é que eu trabalho em duas profissões que são afetadas diretamente pelas datas comemorativas. E isso, à vezes, pode se tornar um inferno.

Na agência em que trabalho, por exemplo, chega perto de dezembro e começam as encomendas de campanhas e cartões com mensagens natalinas. Tudo bem se fossem uns dois ou três trabalhos. Dá para ser criativo em duas ou três idéias versando sobre o mesmo tema. Dá para falar da emoção do reencontro com familiares distantes, ou então da solidariedade que invade nossos corações, ou até mesmo dos embalos gastronômicos das ceias. Mas, vamos ser sinceros: não dá para ser criativo com dezenas de clientes.

E é do mesmo jeito com o jornalismo. Quem é que não está cansado de ver aquela velha reportagem que se repete todos os anos em todos os canais de TV, com o repórter em primeiro plano e um corredor de shopping ao fundo (ou a principal rua do centro comercial), lotado de clientes e sacolas? Ou então aquelas entrevistas com as criancinhas, com uma repórter perguntando o que elas pediram para o Papai-Noel? Ou até mesmo sobre aquelas liquidações que acontecem em janeiro? É tudo sempre tão igual que dá tranquilamente para passar uma dessas reportagens de quatro anos atrás em pleno Fantástico desse ano que ninguém vai nem perceber.

E agora (aliás como em todos os anos anteriores) chegou a vez do Carnaval. Nem bem acabaram as festas de fim de ano, podendo-se encontrar ainda várias vitrines e ruas enfeitadas com bolas, laços vermelhos e papais-nóeis, e todo mundo já começa a se coçar por causa do Carnaval.

Gente, espera aí. O meu fígado ainda está todo enrolado com a ceia do reveillon, e esse povo já está pensando no Carnaval? O Carnaval desse ano é só em março, pessoal. Vamos com calma. Ainda temos um longo janeiro pós-férias e um baita de um fevereiro quente aí pela frente. Com tanta data comemorativa assim, uma atrás da outra, já já esse povo vai começar a se atrapalhar e dar ovos de Páscoa no Natal e a comer leitoa assada no Dia da Independência.

Mas o pior vai ser quando soltarem um trio elétrico em pleno dia de Finados, com um bando de mulatas de topless gritando atrás:

– ALALAÔ-ÔÔÔ-ÔÔÔ… MAS QUE CALÔ-ÔÔÔ-ÔÔÔR…

O que dá para comprar com US$50 Bilhões?
15/01/2011

Tem coisas que não entram na minha cabeça de jeito nenhum. Por exemplo, o preço do Facebook. No começo deste ano o Goldman Sachs, uma espécie de superbanco de Wall Street, avaliou o Facebook em cerca de 50 bilhões de dólares. É, isso mesmo. 50 BILHÕES de dólares. E, para provar que não estava brincando, injetou 450 milhões em capital de risco no negócio. Agora. O que é que pode ter num negócio que faça ele valer tanto assim?

Para quem ainda não sabe o que é Facebook, vou tentar explicar. O Facebook é um lugar que… Não, não é isso. O Facebook não é bem um lugar. O Facebook é uma espécie de rede social. É isso. Uma rede social. Ou seja, o Facebook é um lugar em que você encontra seus amigos e…

– Espera aí. Você não acabou de dizer que o Facebook NÃO é um LUGAR?

É verdade. O Facebook não é um lugar. O Facebook é um site da internet. Um site onde você pode colocar informações a seu respeito, e ler informações dos seus amigos.

– E o que é que tem isso?

– Como assim, “o que é que tem isso”?

– O que é que tem, oras. Eu coloco minhas informações, meus amigos colocam as informações deles. Isso para mim está parecendo mais uma lista telefônica.

É verdade também. Mas o Facebook tem umas vantagens sobre as listas telefônicas. Você pode, por exemplo, colocar umas fotos. Colocar uns textos seus. Essas coisas.

– Mas isso eu já fazia com e-mails. Para falar a verdade, eu já fazia até com cartas. Dessas, de enviar pelo correio mesmo.

– É, pode até ser, mas no Facebook é diferente. Ele é mais… mais…

– Mais o quê?

– Mais… mais… mais rápido! É isso, no Facebook tudo é mais rápido!

– Mais rápido do que o quê?

– Do que mandar cartas pelo correio, por exemplo!

– E é mais rápido que um e-mail também?

– Do que um e-mail? Bem, mais ou menos…

Pois é isso que eu estou falando. Como é que pode um sitezinho da internet que parece uma lista telefônica ilustrada valer mais de 100 BILHÕES DE REAIS? Você faz idéia do que seja 100 BILHÕES? E um bilhão? Diz aí assim, sem pensar muito, quantos carros dá para comprar com um bilhão? E quantas casas? E com 50 bilhões? Dá para comprar o quê? Uma cidade?

E com 100 bilhões? Será que dá para comprar… um país?

O primeiro dia
15/01/2011

Eu não sei se já contei aqui para vocês, mas eu dei muito trabalho nos meus primeiros tempos de escola. Não, não é que eu fosse um moleque muito arteiro, nem nada disso. É que, nem bem meu pai me deixava no colégio, e eu tinha que correr para o banheiro para vomitar. Tudo bem se o negócio tivesse acontecido só nos primeiros dias do pré-primário. Mas não. Minhas ânsias aconteciam todo começo de ano, até eu quase chegar na universidade. Não sei o que era. Imagino que fosse o cheiro. Todo aquele plástico de encadernar cadernos, massinhas de modelar, as crianças suadas, o pó de giz tomando as salas e os corredores. Para ser sincero com vocês, até hoje eu não me sinto muito bem quando abro uma mochila de escola das crianças. É só subir aquele cheiro de apostila misturado com restos de elma chips que meus olhos começam a lacrimejar e alguma coisa azeda borbulha no fundo do meu estômago.

Mas o pior é que a coisa não ficou só por aí. Seja lá de que maneira eu tenha adquirido esse trauma, acabei transferindo-o também para o meu emprego. Pois veja você que, depois de passar uns dias descansando, voltei à ativa ainda ontem. No entanto, nem bem adentrei o escritório, e todo aquele pesadelo infantil subiu novamente pela minha glote, obrigando-me a correr para o banheiro antes mesmo de cumprimentar os patrões e os companheiros de trabalho. Quando voltei, ainda tive de aguentar piadinhas sem graça sobre o estado do meu fígado (que realmente está em frangalhos) e um certo receio dos colegas apertarem a minha mão mesmo depois de quinze dias sem notícias.

Tenho certeza que, do mesmo modo que acontecia na escola, daqui alguns dias meu estômago irá se estabilizar e só voltarei a sentir alguma coisa parecida quando voltar das próximas férias que, infelizmente, ainda estão bem longe de acontecer. Só que isso é um negócio que incomoda. Nossos primeiros dias deveriam ser marcados por reencontros agradáveis, por abraços entusiasmados, por um excitante ouvir e contar histórias de festas e viagens. Mas, para mim, os primeiros dias, desde os tempos de escola, são sempre esse pesadelo de um eterno ir e vir ao banheiro, remédios efervescentes para o estômago e olhares zombeteiros dos colegas.

Eu só fico torcendo para que os primeiros dias da Dilma sejam um pouco menos aborrecidos que os meus. Afinal, ela já vai ter quatro anos bem azedos pela frente

Vagabundo, não!
15/01/2011

Eu já disse aqui uma vez, mas não custa repetir. Esse papo de que o trabalho enobrece o homem é conversa de patrão. O ser humano é, antes de tudo, um vagabundo. Você aí, que vive se torturando, achando que o seu avô, ele sim, era um homem de verdade, que se entregava de corpo e alma para o trabalho, e que você não passa de um desocupado sem vergonha, que só pensa em 13º, férias e fim de semana, pode parar de pensar essas bobagens.

A verdade é que o seu avô era igualzinho a você, só que disfarçava melhor. Afinal, naquele tempo, nossos avós usavam gravata, terno e chapéu, e um cara que sai assim de casa só pode ser um sujeito que leva a vida muito a sério, puxa vida. Ninguém poderia supor que, o que nossos avós queriam mesmo, era ir para a praia e tomar uma cerveja. Para você ver só uma coisa, até mesmo os médicos recomendam cerca de oito horas de sono por dia. Quer dizer, como é que pode falar que trabalhar faz bem, se a própria medicina diz que a gente tem que passar pelo menos um terço de nossa vida na cama?

E se você ainda não está convencido, observe melhor os animais. A gente olha assim e pode achar que muitos animais são perigosos o tempo todo, mas não são. Eles só são perigosos quando estão com fome. Eu já vi várias vezes na National Geographic um leão deitado, de barriga para cima, ao lado de uma zebra, ambos na maior boa. E isso acontece porque o leão só se levanta quando está com fome. O resto do tempo ele passa ali, no maior bodão. E as cobras, então? A piton, por exemplo – considerada uma das mais perigosas do mundo – depois que come, passa dias e dias dormindo, só acordando na hora de forrar novamente o estômago.

A conclusão a que se chega com essa história toda é muito simples: ninguém gosta de trabalhar. O trabalho é uma obrigação, à qual todos nós nos submetemos por uma questão de sobrevivência. As férias, por outro lado, são nosso ambiente natural. É durante as férias que nos sentimos mais vivos. Mas, para curti-las, é preciso estar bem alimentado, no caso dos animais, ou ter bastante dinheiro no bolso, no caso do ser humano.

Não é à toa que, em menos de cinco minutos, o Senado Federal aprovou o projeto que aumenta o salário dos deputados, senadores, presidente, vice-presidente da República e dos ministros de Estado para R$ 26,7 mil. Afinal, está todo mundo para entrar de férias, gente… E não dá para entrar de férias de estômago vazio, não é mesmo?