Archive for novembro \29\UTC 2010

Conversa entre Otorrinolaringologistas
29/11/2010

No início, ele disse que parecia uma gripezinha à toa. Uma dorzinha nas juntas. O nariz escorrendo. Mas, uma manhã, quase nem conseguiu levantar. Levantou na marra. Tomou um café e foi trabalhar. Na parte da tarde, não deu conta. Voltou para casa, nem almoçou. A sogra apareceu com uns chazinhos não sei do quê. A mulher deu um Resprim. Mas não teve jeito. Caiu de cama.

Mas isso não foi nada comparado com o ouvido esquerdo. Umas fisgadas. Depois, uma dor de dar cabeçada na parede. Tomou mais uns remédios por conta mesmo. Uns analgésicos. Tentou umas toalhas quentes. Pensou em pingar alguma coisa lá dentro, ou enfiar um cotonete, mas a mulher não deixou. “Melhor procurar um otorrino”, ela disse.

– Pelo menos, a mulher era esclarecida.

Pois é. E foi assim que ele apareceu lá no consultório. Eu olhei lá dentro. O ouvido esquerdo estava bem inflamado. Dei uma receita de mais uns analgésicos e um antibiótico. Depois de uns dias, ele disse que a dor até passou. Mas aí começaram os zumbidos. E ele voltou para o consultório.

– Tá ouvindo esse zumbido, doutor?

– Que zumbido?

– ESSE zumbido, oras. Será que é o ar-condicionado?

– O ar está desligado.

Ele disse que era alguma coisa entre um enxame de abelha e um carrinho de Fórmula Um. Bzzzzzzzzzzzzzzzzz. Passaram-se mais uns dias, parece que se acostumou. Era só deixar alguma coisa barulhenta ligada por perto, a televisão ou até mesmo um ventilador, que o zumbido e os barulhos se misturavam. Já dava até para dormir. E foi aí que os zumbidos também sumiram.

– Ah, que bom…

– Só que sumiram os barulhos todos junto.

– Como assim, “os barulhos todos”?

– Os barulhos, oras. Ele não ouvia mais nada do ouvido esquerdo. Ficou completamente surdo.

– Nossa!

– Pois é. E hoje ele apareceu lá no consultório de novo.

– Isso cheira problema. Ele está pensando em te processar?

– Que nada. Ele veio é com uma conversa esquisita pra cima de mim.

– Conversa esquisita?

– É. Ele veio me falar que nunca na vida teve tanta paz. Que já não ouve mais ninguém xingando no trânsito. Que não se incomoda com o som de alarmes de carro disparando pela madrugada. E que não consegue mais ouvir a voz do Roberto Carlos. Para falar a verdade, ele veio me pedir se dava para deixar ele surdo do outro ouvido também.

– E o que foi que você disse?

– Eu disse que ia pensar. Tem o problema da ética médica, não tem?

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Game Over
26/11/2010

Como dizia um sobrinho meu, campeão absoluto entre seus colegas no game “Call of Duty: World at War”, a realidade é muito esquisita. Segundo esse meu sobrinho, na vida real, as pessoas são presas, se machucam, ficam tetraplégicas. Algumas, veja você, chegam até a… morrer!

Não sei se você já percebeu, mas essa criançada de hoje em dia perdeu um pouco a noção do caráter irrevogável (e inevitável) da morte. Muito provavelmente por causa dos videogames. Você já deve ter visto por aí um sobrinho, um neto, ou até mesmo um amigo seu, metido a adolescente, com os olhos pregados na tela de um vídeo, soltando a expressão “Puts, morri!” ou “espera um pouco que eu só tenho mais duas vidas”. A morte, hoje em dia, se tornou uma coisa meio distante. Desprezível, até. Dá sempre pra ganhar umas vidas a mais, e continuar no jogo.

É por isso que não é de se espantar que, quando a gente fica olhando na TV as imagens do Rio de Janeiro sendo invadido por bandidos armados de metralhadoras e lançadores de mísseis, tudo aquilo nos pareça coisa de ficção. Afinal, bandidos de armas em punho, atirando pelas ruas, a maioria de nós nunca viu, a não ser em filmes de Hollywood. Ou em videogames.

E a presença dos militares no encalço dos bandidos também não melhora em nada essa impressão de irrealidade. Muito pelo contrário. Aqueles policiais vestidos de preto, acho que do Bope, fazem a gente misturar na nossa cabeça cenas do filme “Tropa de Elite” com paisagens cariocas do tempo da Bossa Nova. Tipos, a Garota de Ipanema num daqueles uniformes de camuflagem do exército, encostada numa esquina e gritando desesperada para a tropa “go go go”, enquanto tiros e granadas explodem à sua volta. Parece coisa impossível?  Pois não é. O Jornal Nacional, outro dia desses, mostrou uma cena muito parecida com essa. Uma morena bonita, armada até os dentes, disparando contra um morro qualquer. E naquele último filme do Sylvester Stallone também. A brasileira Giselle Itiê aparecia, junto com o Jet Li, o Bruce Willis, o Arnold Schwarzenegger e o Mickey Rourke lutando contra uns bandidos que haviam tomado o poder do local. Tudo filmado no mesmo Rio de Janeiro. Talvez até na mesma esquina que, agora, acontecem os tiroteios transmitidos pela Globo.

Acho que já está mais do que na hora da gente puxar o fio da tomada e começar a se preocupar com a vida real. Essa vida chata, em que gente morre de verdade.

 

Cadê meu Mini-Chiclete que tava aqui?
24/11/2010

Com essa mania que esse povo tem agora, de estar sempre correndo atrás de novidades, de lançamentos e coisa e tal, o ser humano não se conforma mais nem com a própria perfeição.

Não adianta a gente descobrir ou evoluir até uma coisa absolutamente perfeita, que não precisa mais de reajustes: alguém sempre dá um jeito de tentar dar uma ajeitadinha nela, para que ela possa estar conectada com os novos tempos, com a nova geração que vem aí, ou coisa que o valha. E acaba estragando tudo.

Para não ficar falando de tecnologia, que é onde esse negócio todo mais ocorre, vou me manter num patamar bem abaixo: no patamar dos doces. Bem, outro dia desses, me deu vontade de mascar uns Mini-Chicletes. Lembra dos Mini-Chicletes? Eram uns chicletezinhos bem pequenininhos, que vinham dentro de um saquinho com o desenho de um menino, cuja boca era transparente e, através dela, a gente via lá, os Mini-Chicletes coloridos. Acho que era a Adams que fabricava. Eu adorava os Mini-Chicletes. Todos eles, independente da cor, eram sabor tutti-frutti e, quando o gosto dele estava passando, a gente colocava mais um ou dois na boca e o gosto voltava. Era uma espécie de chiclete com gosto eterno. Pois bem, eu rodei a cidade, de ponta a ponta, atrás de um saquinho de Mini-Chiclete e ninguém tinha. Um ou outro comerciante sequer tinha ouvido falar em tal coisa.

Encafifado, quando eu cheguei em casa, fui procurar na internet, e descobri que o Mini-Chiclete tinha saído de linha. Que a fábrica achava que aquilo era uma coisa muito antiga, e que a molecada de hoje preferia sabores mais modernos, e que o tutti-frutti é um sabor ultrapassado, que ninguém mais gosta. Eu li aquilo e fiquei pensando de onde diabos esse cara tirou uma idéia tão idiota.

Tutti-frutti é um… um clássico! Todo mundo gosta de tutti-frutti! É uma espécie de sabor universal. Os espertalhões do marketing das empresas, no entanto, acham que não. Que o pessoal tem que gostar de outras coisas, e acabam lançando esquisitices como um chiclete de melancia. Agora, me responda, com toda a franqueza: que tipo de criança, afinal, prefere mascar um chiclete de melancia no lugar de um de tutti-frutti? Será que esses caras não conhecem uma criança, meu deus do céu?

Só me faltava essa, mesmo. Outro dia desses, já pararam de fabricar o Ovomaltine Clássico e passaram a vender só o Ovomaltine de Chocolate, porque eles acham que vende mais. Agora, tem uns idiotas querendo acabar com o chiclete sabor tutti-frutti.

Mas será que esse povo não tem mais o que fazer, não, ô?

6 coisas que me decepcionaram e que eu não achei nada para colocar no lugar
22/11/2010

1- A Esquerda

A Esquerda, como todos sabemos, era uma delícia. Era moderna, era ousada, era honesta e era, acima de tudo, justa. A gente lia sobre os grandes heróis, da história ou da ficção, e todos eles pareciam ser de esquerda também. O Robin Hood tirava dos ricos para dar para os pobres. O Super-Homem lutava pelos fracos e oprimidos. Até Jesus Cristo, oras, se você pensar bem, era meio comunista. Bem, aí a Esquerda assumiu o poder, e a gente viu que eles não eram tão diferentes assim dos outros. E, além do mais, ser de Esquerda hoje não é mais ser da oposição. Minha vida toda eu fui oposição. E para ser de oposição, hoje, eu preciso ser… de Direita?

2- A Direita

Bem, com a Direita eu já havia me decepcionado aos 16 anos de idade, durante o regime militar e tudo o mais, e não vai ser agora, com 49, que eu vou voltar atrás.

3- A Religião

Não dá para acreditar numa religião que acha que só ela está certa. E todas as religiões acham isso. Mas nem é por isso a minha decepção. A minha decepção é ver os caras indo lá, na missa aos domingos, e saindo de lá não dando a mínima para o que ouviram. Pombas, se eles acreditam naquilo que ouviram, deviam sair de lá pregando também. E, se não acreditam, deviam se tornar ateus, como eu me tornei.

4- O Ateísmo

Minha decepção com o ateísmo está acontecendo agora, depois de velho. Eu até que me sustentei bem sendo ateu durante a juventude, mas quando a gente vai ficando velho, vendo a morte cada dia mais de perto, não tem jeito. A gente sempre começa a ter esperança numa vida eterna, ou coisa parecida. Chega até a arriscar uns Pai-Nosso antes de dormir. A gente se sente muito sozinho sendo ateu.

5- A Imprensa

Eu sempre achei muito importante ver jornais, revistas, TV, blogs, ou seja lá de que forma se transmita notícias. Um cidadão tem que estar consciente das coisas que acontecem ao seu redor. Com o passar dos anos, no entanto, a imprensa já não é mais aquela. A imprensa, hoje, luta pela sobrevivência. E, você sabe: um cara faz qualquer coisa para sobreviver.

6- A Ignorância

Deixar de ler, no entanto, também é decepcionante. É só você ficar ouvindo a conversa de dois garotos normais, de 14 anos, para você ver. Eles conseguem conversar durante uma hora e meia no celular, mandar 20 torpedos, entrar no Messenger e, quando você pergunta sobre o que eles estavam falando, eles olham para cima, coçam o queixo, e respondem, meio abobalhados: “Nada”.

Quem organiza os organizadores?
09/11/2010

Imagino que, por aqui, quase todo mundo já passou por um vestibular ou coisa que o valha. Uma prova de Física ou Química no colegial serve. Pois bem. Vocês, como eu, devem se lembrar de que, naquela idade, a gente achava que o mundo podia acabar se a gente fosse mal na tal prova. Tínhamos a impressão de que todo o nosso futuro dependia única e exclusivamente daquele momento e que, se a coisa não corresse a contento, não haveria mais alternativas para a nossa atormentada vida além de pedir esmolas nas praças, implorar por um prato de comida na porta dos fundos dos restaurantes ou, talvez, em casos mais extremos, até mesmo o suicídio.

Pois são essas crianças que fazem o ENEN. Pela primeira vez em suas (curtas) existências, elas estão se defrontando com uma possibilidade real de modificar totalmente suas vidas dali para a frente. Várias coisas que antes não passavam de um sonho distante, de uma hora para outra podem se tornar reais: morar fora de casa, estudar numa grande universidade, transformarem-se em cientistas famosos. E tudo isso está ali, à mão. É só se sair bem naquele diabo de prova. O tal do ENEN.

Agora tente se colocar no lugar desse aluno. Você começa a fazer o exame. Por mais bem preparado que você esteja, os seus hormônios, que já não andam lá muito estáveis, entram em colapso. Você começa a suar. Vontade de ir no banheiro. E aí, entra o Fiscal da Prova e diz para parar tudo. Que o cabeçalho das provas está errado. Que quando você for passar as suas respostas para o cartão oficial, deve marcar a resposta 1 no lugar da 46, a 2 na 47 e assim por diante. Uns alunos começam a reclamar que já tinham marcado, e agora, o que eles faziam? Passam-se alguns momentos e entra um outro fiscal, com um monte de caixinhas de… um corretor líquido!

– Isso é para quem já tinha preenchido alguma coisa. É só passar essa tinta branca em cima da sua resposta, e começar a marcar de novo.

– Como é o lance mesmo? A resposta 1 a gente marca na 46?

– É, mas só nas provas amarelas.

– Ei, e o que eu faço com a minha? Aqui tem duas perguntas iguais!

Há um começo de tumulto. Todo mundo começa a folhear as suas provas.

– Olha, a minha também!

Mais tumulto. Uma menina no fundo da classe diz que não está passando bem e desmaia. O fiscal grita por socorro.

Você vomita em cima da prova.

Isso faz mal
09/11/2010

Não sei se você sabe, mas esse negócio de que o cigarro faz mal para a saúde é coisa recentíssima. Hoje em dia, parece óbvio que o hábito de inalar fumaça não faça parte das práticas mais saudáveis para o organismo, mas, até a década de 1950, praticamente ninguém sabia disso. Foi só mais ou menos nessa época que surgiram as primeiras pesquisas associando o tabaco ao câncer de pulmão.

Só que ninguém deu muita bola para os pesquisadores. Afinal, todos os grandes atores e atrizes de Hollywood fumavam e ninguém estava morrendo disso. Muito pelo contrário. Eles eram bonitos, charmosos, heróicos e inteligentes o bastante para não fazerem uma coisa que poderia matá-los.

Mas, em 1962, o governo inglês decidiu anunciar para o mundo que, depois de anos de pesquisas, seus maiores cientistas haviam chegado à conclusão de que o cigarro realmente fazia mal, o que causou uma série de ações na justiça do mundo todo, de pessoas querendo receber indenizações.

No entanto, as evidências ligando o fumo a doenças eram apenas estatísticas e, para vencer uma ação, era preciso provar que uma coisa causava a outra, e isso era difícil. Para você ver só uma coisa, nos Estados Unidos, as empresas tabagistas só foram perder ações na Justiça na década de 1990.

Então, o que aparentemente era um delírio antitabagista de cientistas ingleses, tornou-se uma verdade indiscutível. Hoje em dia, você pode perguntar para qualquer criancinha de três anos de idade o que o cigarro faz pra gente que ela vai te responder na lata “- Cigarro faz dodói!” ou coisa que o valha.

Agora, tem esse negócio da radiação emitida pelos celulares. Segundo a “Folha de S.Paulo”, a epidemiologista Devra Davis, doutora em estudos científicos pela Universidade de Chicago, está liderando uma verdadeira uma cruzada para fazer as pessoas deixarem o celular longe de suas cabeças. Convencida de que a radiação emitida pelo aparelho lesa a saúde e pode ocasionar câncer nos seus usuários mais constantes, ela publicou uma série de pesquisas que mostram os efeitos dessa radiação no organismo. Uma de suas frases favoritas é “Vamos esperar as mortes começarem antes de mudar a relação com o celular?”.

Mas o pior, é que ela também descobriu que homens que usam celulares por quatro horas ao dia têm a metade da contagem de esperma em relação aos demais e, se ninguém fizer nada a respeito, a taxa de nascimentos no mundo pode ficar seriamente comprometida em menos de dez anos. Quer dizer, daqui uns anos, nós teremos os aparelhos mais modernos já inventados para comunicação.

Só não vamos mais ter para quem ligar.

O dia seguinte
09/11/2010

Tem coisas que a gente descobre que teria tornado nossas vidas muito mais tranquilas se a gente tivesse ouvido os mais velhos. Pena que ninguém ouve os mais velhos. Ninguém ouvia. Ninguém ouve. Ninguém ouvirá. Então, eu só vou comentar aqui assim, por desencargo de consciência, uma coisa que eu descobri sozinho já faz alguns anos, mas que o meu pai já havia me dito uma vez, quando eu tinha acabado de sair da adolescência. E que o meu próprio pai já tinha descoberto com o pai dele, quando tinha mais ou menos a mesma idade.

Toda vez que acontece uma eleição, os mais jovens acham que, no dia seguinte, as coisas vão mudar de uma maneira nunca vista antes. Não é necessário nem que o eleito assuma, nem nada disso. Assim como que por milagre, de uma hora para outra, tudo vai mudar irreversivelmente. Pode ser para o bem ou para o mal, mas vai ser de uma maneira rápida, dramática e avassaladora. A gente chega mesmo a ter a impressão de que até as cores dos dias mudarão. Quando o Lula foi eleito pela primeira vez, por exemplo, eu mesmo achei que o dia amanheceria, no mínimo, muito mais claro e brilhante. E com um arco-íris no horizonte. Aliás, um apenas não. Para falar a verdade para vocês, eu achava que, depois do Partido dos Trabalhadores finalmente eleger um presidente no Brasil, ao abrir a janela eu me depararia com dúzias de arco-íris coloridos, pincelando algumas nuvens com luzes cor-de-rosa, outras em tons de verde e lilás, encimadas por um estonteante sol tropical de verão.

Bem, é claro que nada disso aconteceu. Que eu me lembre, a manhã depois da eleição do Lula amanheceu até meio nublada, com chuviscos esporádicos durante o dia que, aliás, se estenderam durante todos os oito anos de mandato, com direito a ocasionais chuvas, raios, trovões e uma ou outra tempestade de granizo.

Então, durante essas últimas eleições, volta e meia eu cheguei a aconselhar alguns jovens para que não expusessem tanto suas opiniões a respeito de um ou outro candidato, e que evitassem entrar em atritos mais sérios com seus amigos, patrões ou colegas de trabalho. Afinal, as eleições passam e, daqui a poucos dias, ninguém nem se lembrará como ou quando elas ocorreram.

Os seus amigos, patrões e colegas, no entanto, continuarão a fazer parte de todos os dias de sua vida. Assim como os vencedores das eleições. E esses caras, meu chapa, são vingativos.

O que elas querem, afinal?
09/11/2010

O negócio é o seguinte. Primeiro, elas, veladamente, começaram a mandar em nossas casas. Você pode muito bem achar que quem manda é você, mas no fundo, no fundo, sabe muito bem que está errado. Quem manda em sua casa é ela. Com aquele jeitinho de ir falando as coisas aos poucos, de fazer uma comidinha que a gente tem certa preferência, com aquele jeito de se enrolar na gente na cama à noite, essas coisas todas que todo mundo sabe que elas fazem quando estão querendo alguma coisa da gente.

Depois, elas começaram a mandar em nossas contas bancárias. A gente começou a deixar os cartões de crédito com elas, os cheques assinados. Isso, é claro, ainda no tempo dos meus pais. Porque, a partir de uma certa época, é evidente que elas passaram a ter seus próprios cheques e cartões de crédito. Isso porque elas arrumaram seus próprios empregos. E começaram por baixo, como todo mundo. Mas numa posição estratégica. Em quase todas as empresas, as secretárias eram do sexo feminino.

Ali, como secretárias, elas acabaram sabendo tudo da vida de seus patrões. E de quase todo mundo na firma. Dos encontros secretos. Dos negócios obscuros. Enquanto nós achávamos que elas estavam num posto subalterno, elas estavam aprendendo tudo sobre o mundo dos negócios e sobre nossas vidas particulares. E foram subindo na vida. Não demorou muito para que os primeiros colocados dos vestibulares em quase todas grandes universidades fossem mulheres. Ao mesmo tempo, elas contrataram funcionárias para cuidarem de nossas casas, continuando, assim, a manter seu já conquistado poder doméstico, mas ampliando esse poder para outras esferas.

E foi assim que, sem que tivéssemos nos dado conta, elas passaram de esposas para donas de casa, de donas de casa para secretárias, de secretárias para gerentes e, enfim, de gerentes para diretoras da maioria das grandes empresas, negócios e indústrias. Depois disso, o que restava a elas a não ser a política? Começaram a despontar por aí uma ou outra vereadora. Algumas cidades elegeram suas primeiras prefeitas. Deputadas estaduais e federais tornaram-se bastante comuns, assim como senadoras e governadoras.

E agora, como vocês já devem estar cansados de saber, elas tomaram o poder de vez. Atingiram o ápice. O domínio total e irrestrito. Bateram no teto. E eu fico imaginando para onde é que elas vão querer ir depois disso. Ou, como já dizia o velho ditado, “o que querem, afinal, as mulheres?”