Archive for setembro \29\UTC 2010

Me engana que eu gosto
29/09/2010

Se tem uma coisa que me faz ter pena da espécie humana é o efeito placebo.

Para quem não sabe, efeito placebo é quando dão uma substância sem nenhuma propriedade farmacológica a uma pessoa, como se a coisa fosse um remédio. E a pessoa… se cura!

É mais ou menos assim. Um cara está com dor de cabeça. Você pega e diz para ele que comprou na farmácia um remédio muito bom. Só que, em vez de remédio, você dá para ele uma simples bolinha de açúcar. E a dor de cabeça passa assim mesmo.

O efeito placebo é um treco poderoso e incrivelmente real. Pesquisadores do University Medical Centre, em Hamburgo, por exemplo, fizeram uns testes. Eles queriam saber se o efeito placebo influenciava a dor física. Eles usaram calor para causar dor em braços de voluntários. Para alguns deles, os cientistas deram um placebo de açúcar, dizendo que aquilo era um medicamento anti-dor. Para outros, eles não deram nada. Em seguida, utilizaram ressonância magnética para avaliar a espinha dorsal de todas as “cobaias”. O resultado? Os receptores de dor tinham REALMENTE ficado menos ativos naqueles que achavam que tinham tomado um medicamento, provando que não só as pessoas acreditavam como FISICAMENTE estavam MESMO sentindo menos dor.

Segundo o Dr. PhD Ernest Lawrence Rossi, um renomado neurologista norte-americano, ele já viu até casos de tumores “do tamanho de uma laranja” desaparecerem completamente após a aplicação de uma terapia composta unicamente de placebos.

O triste da coisa é ter consciência de que o nosso cérebro tem condições de produzir, sozinho, reações que normalmente só deviam acontecer com o uso de drogas poderosíssimas – mas que, infelizmente, para que isso ocorra, há a necessidade de sermos ENGANADOS. É, porque, se você pensar bem, o placebo é um jeito de enganar a gente mesmo, dizendo para nosso cérebro que tudo vai ficar bem, embora ninguém tenha tomado nenhuma providência de verdade para que isso de fato acontecesse.

É mais ou menos como uma eleição. No fundo, no fundo, todo mundo sabe que nenhum desses candidatos aí está pensando, de verdade, em melhorar a vida de ninguém, além da deles mesmos, e que esse papo de eleições só serve mesmo para amansar a população, dando-lhe a ilusão de estar no comando do seu país e de seu destino.

Mas a gente vai lá e vota assim mesmo. E nos sentimos melhor com isso.

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Eu não tenho tempo
21/09/2010

A verdade é que eu não tenho mais tempo pra nada. E não sou só eu não. A coisa mais comum hoje em dia é o pessoal trabalhar 10, 12 e até 14 horas por dia. O que é, convenhamos, uma espécie de escravidão. E isso não acontece só com gente pobre, se é isso que você está pensando. Hoje em dia, são os mais ricos que trabalham mais. Os mais ricos e os jovens que se formam aí, nas faculdades. São eles que, sabe-se lá por que, ficam fazendo serão até mais tarde.

Pode ver aí, entre os publicitários, por exemplo. Antigamente, pra fazer um cartaz, uma agência demorava aí pelo menos uma semana, porque precisava desenhar tudo, colar letrinha por letrinha, cortar as fotos com tesoura, tudo feito à mão. Agora, hoje em dia, com o lance do computador, uma agência faz um cartaz em meia hora no máximo. E o que aconteceu? Eles começaram a trabalhar menos? Nãnaninanão. Eles começaram a pegar mais trabalho, foi isso que eles fizeram. E, agora, o pessoal sai do emprego às dez da noite esbodegado, e nem tem tempo para ler um pouco, ver um cinema, ficar com a família, e todas essas coisas que ajudam a gente a ir tocando.

E isso não acontece só com nossa vida profissional, não. Com os amigos também. Com esse negócio de twitter, facebook, orkut e o escambau, a gente não consegue mais ficar sozinho nem um minuto de nossas vidas. É o dia inteiro conferindo e-mails, vendo fotos da última festa, o filminho da sobrinha recém nascida tomando o primeiro banho da vida no youtube. Um inferno.

E isso sem contar o celular. Porque a gente está lá, almoçando com a mulher e os filhos, e liga o patrão para saber se a gente telefonou para o Almeidinha desmarcando aquela reunião. Entende que, mesmo se a coisa for fácil de resolver, já corta o clima do almoço com a família?

Tudo isso vai deixando a gente estressado, entende? A gente vai deixando nossa vida de verdade de lado. Outro dia desses mesmo, foi tanta correria no escritório que eu não arrumei tempo nem para fazer um xixi no banheiro, veja só a que ponto chegamos…

– Espera aí, você não arrumou tempo para fazer xixi no banheiro?

– Pois é…

– E o que é que você fez? Vai dizer que…

– Não, não… Também não é assim. Mas olha… Foi por pouco.

Tudo a mesma porcaria
21/09/2010

Uma coisa que ninguém está falando muito é que o Brasil está prestes a ter sua primeira presidenta. E é assim mesmo que se escreve, com “a” no final, conforme o Dicionário Aurélio ensina: feminino de presidente é presidentA. Talvez seja um pouco esquisito para o ouvido, mas é mais por falta de costume do que por qualquer outra coisa.

E não é à toa que a palavra “presidenta” nos soe estranha. Nós, por exemplo, nunca tivemos uma e, pelo mundo afora, essa também não é uma coisa muito comum. Teve, é claro, umas exceções mas, no geral, a presidência de um país é um cargo exercido por uma maioria esmagadora de homens.

Quando eu era mais jovem, gostava de imaginar que, no momento em que as mulheres passassem a comandar alguns países, o mundo tenderia a melhorar. Afinal, as mulheres são mais apaixonadas pelo que fazem. São mais delicadas. Mais apaziguadoras. E, talvez pela experiência que elas têm com os filhos, mais acostumadas a mediar conflitos.

No entanto, essa visão um tanto romântica da política foi seriamente abalada quando a Margaret Thatcher se transformou na primeira mulher a assumir o cargo de Primeiro Ministro da Grã-Bretanha. Só para você ver o tamanho da minha decepção, pouco depois de completar seis meses de mandato e o apelido dela já era “A Dama de Ferro”.

E aconteceu mais ou menos a mesma coisa com os negros. Apesar de se dizer não-racista, o brasileiro tem a mania de “esbranquiçar” seus negros importantes. Por exemplo, você sabia que o Machado de Assis era negro? E o Castro Alves? E o Rui Barbosa?  Pois então, quase ninguém sabe. A impressão que dá é que o Brasil se envergonha de sua cor.

Por essas e outras, eu sempre torci para que um negro assumisse um cargo de real importância política no Brasil. Até que, um dia, aconteceu. Celso Pitta, um negro, foi eleito prefeito de São Paulo, a maior cidade do país! Tudo bem, foi com o apoio do Maluf, mas quem se importava? Esse era um feito histórico!

Bem, ao terminar seu mandato, o Pitta era réu em nada menos que treze ações judiciais. O valor das denúncias administrativas alcançou 3,8 bilhões de reais, o equivalente a quase metade do orçamento do município na época. E a dívida paulistana passou na sua gestão de 8,6 bilhões para 18,1 bilhões de reais.

Quer dizer, pode ser homem ou mulher, preto ou branco, jovem ou velho, tanto faz como tanto fez. Na hora que eles chegam lá, acaba tudo na mesma porcaria.

Ninguém está nem aí
16/09/2010

Outro dia, eu passava por um barzinho e a TV estava ligada. Era quase hora do Jornal Nacional. Só para confirmar uma teoria minha, eu entrei, pedi uma água com gás, e fiquei observando o ambiente.

Uns fregueses comiam um churrasquinho que os caras assavam ali mesmo, na calçada. Outros estavam jogando um truco, aos berros de seis ladrão e tudo o que tinham direito. Tinha um senhor jogando dominó sozinho e um rapaz, também solitário, mexendo no seu celular, com um fone de ouvido e tomando uma coca-cola. Tinha mais uns grupos, que iam e vinham, levando suas cervejas vazias ou trazendo mais uma para a mesa. O dono do bar, lavava uns copos, com um guardanapo de pano jogado num dos ombros, enquanto ouvia um cara meio bêbado contar uma piada. Tudo mais ou menos igual a todos os barzinhos do mundo.

Bem, aí começou o Jornal Nacional. E a principal manchete, dita num tom de voz grave e sensacionalista, era a demissão da Erenice Guerra do comando da Casa Civil, após uma nova denúncia de lobby no governo, envolvendo o nome de seu filho. Mas, já que estava por ali mesmo, a apresentadora já emendou, comentando também daquele escândalo da quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao Serra e ao PSDB. Nada contra o Jornal Nacional. Fatos assim merecem mesmo ter destaque em qualquer noticiário, em qualquer lugar do mundo. Além de serem notícias extremamente importantes, dessas que qualquer jornalista adora dar, são também uma ótima maneira de aumentar um pouco a média de audiência e, porque não, angariar mais anunciantes.

Quer dizer. Isso em qualquer lugar do mundo. Menos no Brasil. Ou, pelo menos, não ali naquele barzinho. Eu simplesmente não vi ninguém sequer levantar a cabeça para dar uma espiadinha na televisão. Apesar da gente estar aí, na boca de uma eleição presidencial, e as denúncias se referirem justamente à candidata que lidera a disputa com folga em todas as pesquisas, absolutamente nenhuma pessoa se deu ao trabalho de prestar um mínimo de atenção no que os jornalistas estavam falando. Continuaram ali, jogando  seu truco, seu dominó, comendo seu churrasquinho e tomando sua cerveja como se aquilo tudo não tivesse nada a ver com eles.

Paguei minha água, saí e voltei para casa. Minha teoria estava mesmo comprovada. Ninguém está nem aí para o que está acontecendo lá em cima. E, para falar a verdade, nem eu.

A infância é contagiosa
16/09/2010

Ser criança é extremamente contagioso. Explicando-me melhor, ficar com uma criança durante um certo tempo faz com que nós, adultos, nos transformemos, momentaneamente, em crianças também. Esse é um fato indiscutível e que pode ser comprovado facilmente. Basta você ficar observando como é que as pessoas começam a falar assim que vêem uma criança.

É um tal de bububu pra cá, glugluglu pra lá que eu vou te falar uma coisa. Dá até nos nervos. Quer dizer, dá nos nervos de quem NÃO está perto da criança porque, quando é a nossa vez, a gente faz exatamente a mesma coisa e começa a fazer caretas e barulhos com a língua tipos bzu bzu bzu e ploc poloc ploc e a falar com voz de Pato Donald maish qui buxexinha lindinha qui o nenezinho tem, ou di quem é esse umbiguinho mais bunitinho do titiu?

É claro que isso não é coisa da qual você precise se envergonhar. Todo mundo faz esse tipo de coisa. Quem não faz é que deve ser olhado com uma certa desconfiança porque, com toda certeza do mundo, ele deve ter algum problema com a infância, com crianças, sei lá. Em todo caso, é sempre bom tomar cuidado. Sabe como é, hoje em dia tá assim de maluco por aí.

Acontece que o meu caso é muito mais grave. Não que eu não adore brincar com crianças. Muito pelo contrário. Quando estou com uma criança, além de todos aqueles barulhos e caretas esquisitas que todo mundo faz, eu começo a agir exatamente como as crianças agem, com todas as suas birras, teimosias e tudo o mais. E, agora, com a presença diária do meu neto, a coisa desandou de vez. Antigamente, após ficar um certo tempo com uma criança, eu rapidamente me recompunha e voltava a ser adulto num piscar de olhos. Mas, agora, não estou mais conseguindo. Mesmo horas depois de deixar meu neto lá em casa, eu continuo a agir como uma criança de três anos de idade.

Para você ver só o tamanho da encrenca, outro dia desses, quando eu dirigia para o trabalho, um motoqueiro entrou numa preferencial bem na minha frente. Após uma brecada daquelas de deixar marca no asfalto, ficamos parados no meio da rua, a moto dele a poucos centímetros da minha porta. Aquilo me subiu à cabeça. Quando dei por mim, estava abrindo a janela e, já com a cabeça do lado de fora, gritei, enfurecido:

– Eu, eu… estou de mal, viu! – e desandei a chorar.

Será que Alzheimer começa assim, hem?

A música atrapalha o silêncio da alma
12/09/2010

Meio que em tom de brincadeira, meio que falando sério, a Rita Lee e o filho dela, João Lee, confessaram no twitter que… odeiam música. Qualquer música. Depois de uns caras perguntarem como isso era possível, se os dois (ou, pelo menos, a Rita) já fizeram algumas das melhores coisas que o Brasil já ouviu, a Rita Lee respondeu, num tom meio noir:

“A música atrapalha o silêncio da alma, affff…”

Tudo bem. A gente nunca sabe quando uma figura como a Rita Lee está sendo filósofa ou tirando uma com a nossa cara. Mas tanto faz. Afinal, de um jeito ou de outro, a gente acaba recebendo o recado, não acaba? E o recado é a falta que o silêncio faz para o ser humano, especialmente nesses tempos de iPods, iPhones e carros que mais parecem trios elétricos.

Mas será que ninguém mais fica em silêncio, não? Quem é que disse que, numa festa ou num bar, é obrigatório colocar uma música para que possamos nos divertir? Lá no rancho do meu sogro, por exemplo, incrustado à beira de um rio, ao lado de uma pequena mata, o silêncio é tanto que dá para ouvir o vento. As folhas. Uns passarinhos. Se você quer saber, às vezes dá até para ouvir o coração da gente, batendo.

Mas sempre aparece um desmancha prazeres que estaciona o carro mais perto, abre as portas e o porta-malas, e liga o som do carro, quase sempre com a droga de uma música sertaneja, um funk ou um rock pesado. Mas vem cá, para que diabos então ele foi para um rancho, se era para ouvir as mesmas porcarias que ele ouve na cidade o dia inteiro?

Sei que essa música toda, além de atrapalhar “o silêncio da alma”, como disse a Rita Lee, atrapalha também o silêncio da mente. Porque não dá nem para pensar com essa barulheira toda. A gente está ali, imaginando as possibilidades de existir ou não vida após a morte, ou então em quem iremos votar nas próximas eleições e, de repente, estoura em nossos tímpanos a voz esganiçada de um sertanejo gritando desesperadamente que “em festa de rodeio, não dá pra ficar parado, tem cowboy e boiadeiro e mulher pra todo lado”. Oras, quem é que consegue manter um mínimo de raciocínio lógico depois de ouvir uma letra com tamanha complexidade e surpreendente elação poética? Pois eu te digo. Ninguém. Ouvindo uma coisa dessas, a gente simplesmente pára de pensar.

Deve ser por isso que está tão cheio de débeis mentais por aí.

Por que vou votar em branco
09/09/2010

As pessoas sempre vêm com essa conversa de que eu, uma pessoa inteligente, não pode votar em branco. Que isso não é coisa que se faça, que isso é uma atitude covarde, e mais um monte dessas coisas. Tudo bem. Tirando a parte do “inteligente”, eu concordo com tudo. É covarde mesmo, e daí?

O problema é que eu não me enxergo em nenhum desses caras. Essa é que é a verdade. Não dá para acreditar em absolutamente ninguém. Virou tudo uma questão de propaganda. É como se estivessem vendendo para a gente um carro novo. Eles são sempre os mais econômicos. Os que nos darão mais qualidade de vida. O Lula mesmo confirmou isso, ao dizer que o Serra, em vez de apelar para a baixaria, deveria era melhorar a sua propaganda. Pombas, Lula. Será que o Serra não deveria, assim como a Dilma e todos os outros, é melhorar as suas propostas, e não a sua propaganda? Mas não, tudo se resumiu a isso: à propaganda. Quem tem uma propaganda melhor, se elege. E estamos conversados. Não adianta descobrirem quebra de sigilo, compra de voto, nem outra coisa qualquer. Porque isso pode ser propaganda também. Ou não ser, quem se importa?

Será que esse pessoal não percebe que está todo mundo rindo deles, como se estivessem assistindo a um humorístico? Alguém aí poderia me dizer exatamente em que momento o horário político se transformou num programa de entretenimento? Porque a gente volta e meia escuta nas conversas entre amigos coisas como “-Você viu o Tiririca ontem?” ou “-E o Maguila que está dando socos no Tirica?”. Quer dizer, um palhaço que já não estava no auge de sua carreira, de um momento para o outro se transformou num dos artistas mais comentados do país, com direito a editorial na “Folha de S.Paulo” e manchete nas principais revistas brasileiras. Tem até um outro cara dizendo que vai aumentar o salário mínimo para R$2.500,00. É, dois mil e quinhentos reais! Mas será que não existe uma lei, uma norma, qualquer coisa que proíba um idiota de prometer uma bobagem dessas para a população?

É claro que eu poderia dar as costas para tudo isso, e continuar levando a minha vidinha, sem me importar muito. Mas o problema é que nós ainda somos OBRIGADOS a votar. Se democracia é isso, sinto muito, mas então eu desisto também da democracia. No dia da eleição, o máximo que vou fazer é ir até minha seção eleitoral e apertar o mínimo de teclas necessárias para me livrar daquilo o mais rapidamente possível.

Eles lá que se explodam. Não quero mais ter nada com isso.

Você não é um gênio
07/09/2010

Assisti a um filme japonês nesse último final de semana. Eu adoro filmes japoneses. Filmes japoneses e asiáticos, de um modo geral. Eles têm outro ritmo, um jeito diferente de ver as coisas. Dão um tempo para você pensar. São exatamente o oposto dos filmes americanos atuais que, nem bem começam, já encadeiam uma série de intrigas, correrias e fugas desenfreadas, que não nos dão um momento de trégua até chegarem os créditos finais. Não dá tempo nem de desviar os olhos para o saquinho de pipoca, o qual ficamos procurando às apalpadelas enquanto nossos olhos não conseguem se desviar daquela espetacular explosão na cobertura do Empire State Building.

Mas, voltando para o filme japonês, em determinado momento o personagem principal, um músico de uma pequena orquestra sinfônica prestes a ser fechada, descobre, estupefato, que não era considerado talentoso o suficiente para tocar em uma orquestra maior. E, desempregado, acaba conseguindo uma vaga como… maquiador de cadáveres. É, isso mesmo. Maquiador de cadáveres. Sabe aqueles caras que preparam o defunto, antes dos funerais? Pois então. Ele arrumou um emprego naquilo. Só que, apesar de sofrer inúmeros preconceitos, inclusive da parte de sua própria esposa, e de ter vomitado até as tripas ao mexer em seu primeiro “cliente”, foi ali, entre os mortos, que o ex-músico acabou encontrando algum sentido para sua vida.

Mal comparando, uma vez eu também tive que me defrontar com essa estranha sensação: a de que eu não era um gênio e que minhas idéias não iriam modificar em nada a história da humanidade. Porque, quando a gente é jovem, sempre acha que vai ganhar um prêmio Nobel, embora ainda sem muita certeza em que área do conhecimento humano. Ou, pelo menos, um óscar ou coisa que o valha. Só que, infelizmente, nem todo mundo é um gênio. Aliás, a maioria absoluta das pessoas não o é. A espécie humana é composta, basicamente, de pessoas medianas, como eu e você, que jamais vão lotar um show no Madison Square Garden, nem vender dez milhões de livros, e que, no máximo, no máximo, veremos nosso nome estampado numa placa de bronze quando fomos convidados para exercer a função de secretário municipal numa cidade do interior.

É a vida, fazer o quê? Resta-nos apenas ir vivendo da melhor maneira possível, tentando ser feliz com os pequenos milagres que, mesmo essa vidinha simples e comum, muitas vezes nos oferece.

Como um neto, por exemplo.

O povo unido
07/09/2010

Eu já fui quase de tudo. Já fui comunista. Já fui anarquista. Já fui até petista, veja você. Mas, ultimamente, resolvi que não queria mais ser nada disso. Parece que enjoei desse negócio de pertencer a grupos, partidos, sindicatos e coisas assim. A única coisa parecida a que ainda pertenço é o Facebook, e assim mesmo, ando pensando em deletar minha conta. Porque, a cada dia que passa, vou percebendo que, quando a gente passa fazer parte de um grupo específico de pessoas, pára repentinamente de pensar como um ser racional. É só dar uma olhada na história da humanidade para perceber que as grandes multidões, geralmente, fazem enormes bobagens. E o nazismo é um dos maiores exemplos.

Até hoje antropólogos estudam aquela época tentando entender como é que um baixinho maluco, com um bigodinho esquisito e um jeitão meio andrógino, conseguiu fazer com que uma das sociedades mais evoluídas de sua época, pátria de grandes homens como Bach, Beethoven e Albert Einstein, resolvesse matar todos seu homossexuais, judeus e deficientes físicos e partir para uma guerra alucinada contra o mundo. Quando entrevistados um a um, nem os próprios alemães conseguiam explicar. Eles simplesmente foram junto com todo mundo.

E a gente ainda está cheio de exemplos por aí. Para não ir muito longe, vamos falar do meu pai. O meu pai sempre foi um exemplo de tolerância e bondade. Amoroso com seus filhos, carinhoso com sua esposa e muito bem quisto pelo patrão e pelos colegas de trabalho. Mas aí, aos domingos, ele ia para o estádio, assistir um jogo da Ponte Preta. E o meu pai se transformava num… torcedor de futebol! E, como todos os outros torcedores, xingava o juiz de nomes que eu nem sabia o significado. Gritava que ia pegar o torcedor adversário lá fora. Uma vez, ele chegou até mesmo a atirar seu radinho de pilha num coitado de um ponta-esquerda que, felizmente, conseguiu se desviar, ainda a tempo de observar os pedaços do aparelho se espalhando pelo gramado.

É por isso que eu passei a ter um certo receio com aquele papo de que “o povo unido jamais será vencido”, um dos nossos gritos de guerra, no tempo da ditadura. Porque acabei aprendendo que o povo unido faz é um monte de bobagem, essa é que é a verdade. E daí para, numas eleições democráticas, acabar elegendo um bando de idiotas para governar o país, é um pulinho só.

Em tempos de eleições, é sempre bom lembrar que o Hitler não tomou o poder à força, nem num golpe militar, nem nada dessas coisas. O Hitler foi eleito. Numa eleição democrática. Exatamente como essa, que teremos agora.

A primeira vítima
07/09/2010

A primeira vítima, quando começa uma guerra, é a verdade. A frase, dita pelo senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, cai como uma luva para o atual momento da nossa campanha para a presidência. Porque, não sei se você percebeu, a coisa está virando mesmo uma guerra. Enquanto os candidatos estavam ali, meio empatados, até que estavam se comportando razoavelmente bem, como duas pessoas civilizadas e tudo o mais. Mas, agora, parece que partiram definitivamente para a guerra, e ninguém mais sabe quem é que está dizendo a verdade sobre o outro. E, de uma maneira ou outra, até chegarem as eleições, ninguém vai conseguir saber também o que está por trás desse negócio todo de quebra do sigilo fiscal.

Para quem não sabe do que eu estou falando, o José Serra responsabilizou a campanha petista pela quebra do sigilo fiscal na Receita Federal de pessoas próximas a ele. Entre outros, tiveram seu sigilo violado o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge, e sua filha, Veronica Serra.

A Dilma Rousseff, no entanto, afirmou que a acusação do candidato tucano contra ela é um ato “de desespero” e anunciou ações judiciais do PT no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e na Procuradoria-Geral da União contra Serra e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Dilma disse ainda que as acusações são “levianas e não têm sustentação jurídica”, e levantou a hipótese de que as quebras do sigilo tenham ocorrido por gente do próprio PSDB, numa disputa interna pela indicação para disputar a Presidência.

A única certeza que fica nessa história é que, com toda a certeza, um deles está mentindo. E que, na hora de votar – apesar de todos aqueles sorrisos, de todas aquelas musiquinhas bonitinhas do horário eleitoral, de todas aquelas promessas por uma educação melhor para as criancinhas brasileiras – você pode estar ajudando a eleger alguém que, para ser presidente, não dá a mínima para a verdade, e quer que se dane o que acha ou o que não acha o restante da população.

Nada de muito novo, aliás. Acho que todos nós já estamos até bastante acostumados com essa história, e não ia ser dessa vez que tudo ia ser muito diferente.Talvez seja por causa dessas coisas que o voto ainda seja obrigatório no Brasil. Se não o fosse, nosso Presidente, provavelmente, seria eleito por não mais que meia dúzia de gatos pingados.

Provavelmente, seus próximos ministros e secretários.