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Competição
27/11/2011

Agora deu de todo mundo reclamar que o mundo está cada vez mais competitivo. Que nossas crianças não arrumam mais nem tempo para brincar, porque os pais colocam as coitadinhas em aulas de inglês, aulas de natação, aulas de computação, aulas de balé, tudo para que elas se tornem adultos mais competitivos. E que isso é que está causando todos esses males desse nosso novo século como ansiedades, frustrações, depressão e tudo o mais.

Oras. Que eu saiba, o mundo sempre foi um lugar competitivo. E não é só com os seres humanos não. Para todo lado que você olha, tem competição. Veja aí o mundo dos animais. Tem até aquele ditado, talvez você conheça. Ele fala mais ou menos assim:

“Toda manhã, na África, uma gazela acorda. Ela sabe que deverá correr mais rápido do que o leão, ou morrerá.Toda manhã, na África, um leão acorda. Ele sabe que deverá correr mais rápido do que a gazela, ou morrerá de fome. Na África, quando o sol surgir no horizonte, não importa se você é leão ou gazela: o melhor que você tem a fazer é começar a correr…”

E que eu saiba, nem leão, nem gazela, sofrem de males como transtorno bipolar, enxaqueca ou insônia. Eles apenas vão tocando a vida, correndo quando precisa e descansando quando dá. E no planeta todo, isso acontece há milhares de anos. Talvez milhões.

Tudo bem que o ser humano tem a incrível capacidade de elevar uma coisa natural a um grau de saturação que acaba mesmo causando algum problema. Hoje em dia, já existe escola de inglês para crianças de 2 anos. Dois anos, puxa vida! Com dois anos, uma criança não sabe nem fazer xixi no banheiro direito, caramba, vai querer enfiar mais uma língua na cabeça dela?

Mas o caso mais doentio de competitividade exacerbada que eu vi nos últimos tempos foi quando eu passei internado uns dias no HB, em Rio Preto. No quarto em que fiquei, só tinha paciente com a mesma doença, e todos passavam pelo mesmo tratamento. A gente tinha que tomar muito diurético, porque nosso corpo não estava conseguindo eliminar os líquidos necessários. Então, de quinze em quinze minutos, a gente fazia xixi numa espécie de urinol, e logo depois a enfermeira vinha medir para ver se estávamos melhorando. O engraçado é que tinha lá um senhor meio calvo que, logo depois que a enfermeira saía, sempre perguntava quanto é que a gente tinha feito de xixi. Ante a nossa resposta, ele sempre fechava a mão, num gesto de vitória, e falava:

– Ganhei de novo! Por 50 ml!

Aí ele se virava para a parede, puxava a coberta. E dormia feliz.

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SOS SOS SOS SOS SOS SOS
22/11/2011

Quando uma comissão de países europeus definiu o chamado Código Morse Internacional, incluiu-se um sinal de pedido de socorro, fácil de ser lembrado em situações de emergência mesmo por pessoas com pouco ou nenhum conhecimento de telegrafia. Era uma simples combinação de duas letras, cada uma codificada por três sinais idênticos: três toques curtos para S, três toques longos para O e, novamente, três toques curtos para S, sem pontuação.

Tudo bem. Com esse monte de iPad, iPod, smartphones, computadores e o escambal, hoje em dia, ninguém mais usa telégrafo. Ou quase ninguém. Mas o sinal de SOS pegou, e se tornou uma espécie de ícone, reconhecido por qualquer moleque de dez anos. Bem, outro dia,  folheando uma revista em quadrinhos antiga, fiquei olhando o tal sinal de SOS, desenhado pairando sobre o mar. Uma onomatopéia saindo de um navio prestes a afundar.

E reparei numa coisa que nunca tinha reparado antes. SOS, o sinal de socorro, se escreve exatamente com as mesmas letras que se usa para escrever “sós”.  SÓS de sozinhos, sabe? De solidão. Que vem do Latim “solus” e não tem nada a ver com telégrafo, código Morse ou qualquer coisa assim. Não é extremamente irônico que as mesmas letras, atravessando caminhos tão diferentes, acabem desembocando em significados tão próximos como “solidão”  e “socorro”? Pois não é essa a história de nossa vida? Uma busca incessante por alguém ou alguma coisa que nos ajude a sair desse isolamento ao qual todos fomos condenados?

Outro dia, me peguei rezando. É, RE-ZAN-DO. E rezando um Pai Nosso, daqueles bem clássicos. Seguido de uma Ave Maria. No embalo, acho que rezei quase um terço. Não sei o que é. Talvez seja a idade. Ou esse monte de doença que deu para aparecer em mim, vindas sabe-se lá de onde. A verdade é que, chega uma hora, a gente se cansa e se assusta com essa solidão a que estamos confinados, e Deus é uma idéia excepcionalmente boa para ser menosprezada.

E, apesar da esposa fazer de tudo pela gente, desde cafuné até curativos. Apesar da filha me levar e buscar no emprego, como eu fazia com ela no tempo da escola. E apesar do meu neto aparecer com sorrisos nas horas mais inesperadas, fazendo o restante do mundo simplesmente derreter ao redor dele. Apesar de tudo isso ainda me sinto extrema e extenuantemente só aqui por dentro e, na dúvida, rezar nunca fez mal para ninguém.

Aviso prévio
14/11/2011

Imagine só a seguinte cena. Dois lutadores de boxe, ou desse tal de UFC, que está mais na moda, entram no ringue. E fazem todas aquelas bobageiras que eles fazem antes de começar a luta. Param no meio do ringue. Fazem uma careta bem feia um para o outro. E depois, olhando bem nos olhos do adversário, começam a… falar para o outro o que é que eles pretendem fazer durante a luta! Tipos.

– Olha. Eu vou começar dando soquinhos de esquerda para te distrair. Quando você achar que eu só sei dar esses soquinhos, eu pego e te dou um murro de direita, que é o meu forte. E depois, quando você cair, eu tento o nocaute com um chute no seu fígado. Entendeu?

– Certo, entendi.  Bem, eu vou fazer diferente. Como eu gosto mais de lutar no chão, primeiro eu vou tentar passar uma rasteira em você. Se você cair, imediatamente eu pulo sobre você e começo a dar murros atrás da sua orelha, que é onde fica aquele líquido que dá equilíbrio para a gente, sabe?

– Sei. Mas e se eu não cair?

– Uma hora ou outra você cai. Eu estudei luta greco-romana a fundo, sou faixa preta de judô, fiz estágio na própria China com grandes mestres do Kung-Fu. Passei mais de dez anos desenvolvendo essa técnica de derrubar o outro. Não tem erro. Uma hora você cai.

– Hum, então não tem jeito, mesmo. Ô seu juiz! Pode vir aqui um instante?

– Pois não. Chegaram a alguma conclusão?

– Chegamos. O cara aí vai ganhar.

– Tem certeza?

– Tenho. Ele fez aí um monte de estudos na China e tudo o mais. Eu só sei dar uns soquinhos. Ele ganha. Sem sombra de dúvidas.

– Ambos concordam com isso?

– Hum, sim, concordo.

– Eu também.

Aí o juiz vai para o centro do ringue segurando as mãos de ambos os lutadores. Se aproxima do microfone. Levanta a mão do cara do Kung-Fu. E DECLARA:

– E O GRANDE VENCEDOR DESSA NOITE ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ… JOHN “THE DRAGON” BLACK!!!

Tudo bem, caríssimo leitor. Eu também sei que nunca na vida ia acontecer uma coisa dessas. Afinal, o grande lance da UFC são as porradas, o olho roxo, o sangue e tudo o mais. Mas foi mais ou menos isso que aconteceu lá no Rio de Janeiro, nessa tal de “ocupação” da Rocinha.

Avisaram há pelo menos uns quinze dias que nesse final de semana a Marinha, o BOPE, a polícia e mais um monte de gente ia entrar lá e retomar o território ocupado pelos traficantes. Com cobertura da Globo e tudo o mais. E entraram mesmo, sem disparar um tiro sequer. Uma grande vitória sobre a bandidagem, sem sombra de dúvida.

Mas que foi meio frustrante, isso foi.

Praia pra quê?
08/11/2011

Votuporanga está entre as 30 melhores cidades brasileiras para se viver. Saiu aí, nos jornais, na TV. Eu vi até um site sobre isso na internet. Você deve ter ouvido falar, todo mundo ouviu. Saiu até no Jornal Nacional, puxa vida. E, para quem acha que nisso tem alguma maracutaia política, saiba que quem colocou Votuporanga nessa posição sequer é do Estado de São Paulo. A responsável por esses dados foi a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro, veja você. Essa Federação aí tem um tal de  Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal que mede esses negócios, para saber o que é que a indústria brasileira deve fabricar e onde é que deve vender. Esse índice acompanha a evolução dos 5.564 municípios brasileiros em áreas como Educação, Saúde, Emprego e Renda, mas, especialmente, ele fala mesmo sobre a qualidade de vida da população. E, no Brasil, os índices de Votuporanga foram superiores até aos das grandes capitais, superando Curitiba, que ficou em 36°, Florianópolis, no 42°, o Rio de Janeiro, no 77°, Goiânia, num distante 78° lugar, e mais um monte de outras cidades que nem entraram no ranking publicado. Quer dizer, você pode reclamar, e tudo o mais. Aliás, não tenho nada contra o ato de reclamar. Reclamar faz bem, especialmente se você não tem muito a perder. Reclame mesmo. Reclame da falta de lixeiras nas ruas. Reclame do trânsito e do radar eletrônico. Reclame dos coqueiros da rua Amazonas. Se a gente não reclamar, o fígado da gente explode, ou a gente explode com qualquer outra coisa que não tem nada a ver e …

– Tudo bem, querido, ninguém está falando que Votuporanga é ruim…

– Não é ruim… Morar aqui é a maravilha das maravilhas!

– Também não é assim, né?

– É claro que é! São cinco mil quinhentos e sessenta e quatro cidades, querida! E Votuporanga está entre as trinta melhores! Entre as trinta melhores!

– Tudo bem, mas o que isso tem a ver com a gente não ir mais para a praia nas férias?

– Bem, se você achar uma cidade aí, no litoral, que ficou na frente de Votuporanga, aí eu vou pra lá, oras…

– Mas… Mas… Votuporanga não tem praia, querido…

– Ê povo que não se contenta, hem? Além de ser uma das trinta melhores cidades para se viver, ainda tem que ter praia?

– A gente não vai MUDAR para praia! A gente só vai passar as nossas FÉRIAS!

– Tá bom, tá bom… Mas você dirige na descida da serra, tá?

Notícias pequenas
06/11/2011

Desde que eu me conheço por gente, eu sou uma espécie de caçador de notícias que ninguém lê. Sabe, né? Na maioria das vezes, a gente até bate o olho em um ou dois jornais do dia, mas passa no máximo uns vinte segundos pelas manchetes políticas de primeira página, já que tudo isso já foi falado na televisão no dia anterior, ou a gente viu na internet. Depois, dá uma espiada na seção de cinema para ver que filme está passando. Lê um ou outro quadrinho. E fim. Para a grande maioria dos leitores, ler um jornal é isso, e se alguém perguntar se ele leu o jornal hoje, ele vai responder, sinceramente, com um “claro que li, hoje em dia a gente precisa estar bem informado, rapaz!”.

Pois eu sempre fiz justamente o contrário. E gosto mesmo dessas notícias que ficam lá, escondidas no meio do caderno “Cidades”, numa notinha no pé da página. Ou na seção policial, com aqueles assaltos esquisitos e tudo o mais. E gosto também de ler um pouco sobre ciência, embora, na maioria das vezes, eu não entenda patavina do que é que os caras estão falando.  Para mim, é nessas notícias que a verdadeira humanidade se esconde.

Por exemplo. Você sabia que existe, hoje em dia, um batom que faz o lábio das mulheres… incharem? É, isso mesmo, as mulheres vão lá no seu supermercado ou farmácia predileta, e escolhe um batom que faz sua boca inchar. Os batons causadores do chamado efeito “plumping” são componentes químicos que aumentam a circulação sanguínea no local ou promovem uma hiper-hidratação. A vasodilatação provoca uma sensação de formigamento e deixa os lábios mais rosados, tudo, provavelmente, para tentar ficar parecida com a Angelina Jolie. Quer dizer. Até bem pouco atrás, quando um homem ou uma mulher apareciam de lábio inchado, geralmente a gente nem perguntava o que é que tinha acontecido, para não causar constrangimento a ninguém. E, agora, as mulheres pagam para ter seus próprios lábios inchados. É ou não é uma coisa maluca?

Ou então, trazendo aqui para mais perto da gente, daquele cara que entrou num estabelecimento de Votuporanga, roubou uns celulares e fugiu, mas que esqueceu uma pasta com todos os seus documentos no balcão da loja. Se você lê o jornal assim, por cima, ia perder essa história, que mais parece piada do que qualquer outra coisa, mas que mostra, de uma maneira quase poética, a essência de uma espécie confusa, violenta e meio mal-acabada.