Archive for abril \29\UTC 2010

Você me chamou de quê?
29/04/2010

Nome é uma coisa esquisita. Tem nome que a gente carrega. Tem nome que carrega a gente. E, às vezes, os dois ao mesmo tempo. Só para ilustrar, eu tenho um amigo que se chama Ferrari. Trabalha comigo, na TV. Pois eu sempre achei o nome dele uma coisa assim, difícil de carregar. Porque, com um nome desses, você não pode sair por aí, dirigindo um Corcel II, que vai ser gozação pra todo lado.

E, por outro lado, é um nome danado de bom. Pombas, o cara se chama Ferrari! Nada de “da Silva”, “Carvalho”, ou Simões”. Não. Ele se chama FERRARI. Conforme a ocasião, dá pra botar uma banca danada, é ou não é? Tipos, se ele chega numa dessas casas noturnas metidas à besta em São Paulo ou no Rio de Janeiro, com uns óculos escuros invocados, uma roupa descolada, mostra a carteira de identidade escrito ali, “Ferrari”, e diz que foi convidado mas esqueceu o convite, os Leões de Chácara vão, no mínimo, dar uma tremida. E, depois de uma treinada, se ele começar a gritar em italiano coisas como “l’amministrazione comunale ovviamente resterà vigile” ou “settimana l’impresa, commendatore”, eu aposto que qualquer lugar do mundo vai abrir todas as suas portas para ele.

Só que, há pouco tempo, houve um porém nessas minhas impressões acerca de seu nome. Eu descobri que o Ferrari também se chamava Aparecido Natalino. O Ferrari nasceu, veja você, no dia 25 de dezembro, o que, convenhamos, já é um azar danado, porque a concorrência pelas atenções nesse dia é praticamente imbatível. Mas, não contente com isso, a mãe do Ferrari resolveu eternizar na certidão de nascimento e no futuro RG de seu filho a, perdoem-me a expressão, maldita coincidência.

Não é à toa que muita gente se revolta com o próprio nome. E, embora o processo seja um pouco burocrático, é possível, para qualquer brasileiro, trocar de nome legalmente, desde que haja boas razões para isso. Mas existem outras maneiras também. Maneiras, digamos, mais informais.

Uma conhecida minha de muitos anos, por exemplo, se chama Raquel. Desde que eu a conheço, o nome dela é Raquel e pronto. Aí, um dia, eu precisei anotar o nome inteiro dela num documento. E eu escrevi ali, Raquel… Raquel…

– Ô, Raquel! Você chama Raquel de quê?

– Aparecida da Silva.

– Raquel Aparecida da Silva?

– Não! Só Aparecida da Silva.

– Mas… mas… você não chama Raquel?

– Não.

– E de onde é que apareceu Raquel?

– Eu gosto, ué. Raquel… É um nome bem bonito, não é?

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Como o tempo anda passando rápido
27/04/2010

Veja bem. Outro dia desses recebi um e-mail dizendo o seguinte. Um adulto normal tem algo em torno de 60 mil pensamentos por dia. E, se a gente se lembrasse de tudo isso, para o resto de nossas vidas, ficaríamos completamente malucos.  Por isso, a maior parte destes pensamentos é simplesmente apagada por nosso cérebro. Por exemplo. Tente se lembrar de quantas vezes você trocou a marcha de seu carro para chegar até aqui. Você não se lembra, não é? Pois é isso que eu estou falando. Essas ações que a gente repete muito, para o nosso cérebro, são como se não tivessem existido. Ele apaga. Então, se você passou duas horas do seu dia trocando marchas, para o seu cérebro o dia só teve 22 horas, entende?

Agora, o que é que acontece quando a gente vai ficando velho? As coisas começam a se repetir, oras. A gente já conhece todas as ruas da cidade, praticamente todas as pessoas e já assistimos a quase todos os programas de televisão. É muito difícil acontecer alguma coisa nova na nossa vida depois dos cinqüenta.  As experiências realmente novas vão diminuindo, diminuindo, até quase se acabarem. E o que é que o nosso cérebro faz com as coisas que a gente repete muito, hã? APAGA! Então, de um dia de 24 horas na vida de um cinqüentão, o que o cérebro dele percebe mesmo são só umas duas horas e olhe lá.

Agora, pense um pouco sobre esse nosso emprego aqui. É sempre a mesma coisa. A gente passa o dia inteiro batendo os mesmos carimbos, digitando os mesmo documentos, atendendo os mesmos clientes. Não acontece nada novo! O que esse emprego está fazendo é matar a gente, essa é que é a verdade. Porque a gente passa o dia inteiro fazendo coisas iguais e, no fim do dia, nosso cérebro pega e ZÁZ, apaga tudo. É como se o dia não tivesse existido. O que a gente precisava era de coisas novas para fazer. Coisas que fizessem a gente pensar. Porque, desse jeito que está, a vida vai passar muito rápido. E só com coisas novas nosso cérebro ia perceber de verdade as 24 horas do dia…

– Em compensação, as seis da tarde iam demorar muito mais pra chegar.

– O quê?

– Olha. Segundo essa sua teoria, se a gente começar a fazer coisas novas, nosso cérebro vai perceber o tempo passando mais devagar, não é isso?

– É, é isso.

– Pois então. Aí, com o tempo passando mais devagar, não ia demorar mais para chegar as seis da tarde e a gente ir embora pra casa?

– É, pensando sobre esse prisma…

– Pois então me deixa sossegado aqui, batendo meus carimbos, que pra mim tá bom do jeito que está, tá bom?

Entrevista da Semana (por e-mail)
25/04/2010

Nosso entrevistado de hoje é o Dr. Carlos Rechembeirg, Secretário Estadual das Doenças Contagiosas. Na semana passada, o secretário deu uma polêmica entrevista à revista “Veja”, na qual declarou-se frustrado pela falta de recursos destinados à sua secretaria.

Dr. Carlos. Eu, como tantos leitores, sequer conheciam a sua secretaria. Será que, além de verbas, não falta um pouco de divulgação?

– Em toda minha vida pública preferi investir em obras em vez de investir em propaganda.

Mas essa não seria a causa de sua secretaria não estar recebendo a devida atenção por parte do Estado, conforme o senhor revelou à revista “Veja”, na semana passada?

– Ah, você leu a entrevista? Pois bem. Sim, é verdade. Minha secretaria tem encontrado muitos problemas. Nesses anos todos, não me lembro de nenhum desses manda-chuvas ter feito uma visita. Nem o pessoal da limpeza passa muito por aqui. Está tudo sempre vazio, empoeirado, lâmpadas faltando.  Mas esse é um problema crônico da democracia. Os políticos injetam milhões na gripe suína, que tem mais visibilidade, e quando se trata das doenças contagiosas, a gente tem que agradecer qualquer centavinho que cai.

Mas e a AIDS? A AIDS tem bastante cobertura da mídia, não tem?

– Veja bem. A AIDS é um caso à parte. Além do fato de ter causado a morte de alguns artistas de renome, como o Henfil, o Cazuza, Renato Russo, e tantos outros, ela assumiu uma importância internacional. Tanto é que o combate à AIDS não é mais de nossa alçada, mas um trabalho entre os municípios, o estado e a União. A minha secretaria trata de doenças menos conhecidas.

Quais, por exemplo?

– A mais conhecida é a hanseníase. É uma doença antiga, a ciência médica tem relatos dela há milhares de anos. Antigamente era conhecida como Lepra. Eu trato todos os dias dezenas de pacientes aqui mesmo na secretaria. Mas o que me espanta é que a maioria deles não sabe que a doença tem cura.

Lepra? O senhor leva leprosos aí para a secretaria?

– É claro. Existe maneira melhor para ajudá-los? Você, ou alguém do seu jornal, poderia vir aqui, um dia, conhecer nosso trabalho.

Nós. Bem. A política de nosso jornal é só fazer entrevista por e-mail.

– Mas vocês não mandaram toda uma equipe para cobrir o café da manhã realizado pela Secretaria de Nutricionismo?

Ah, sim, é verdade. Mas foi uma exceção. Bem, muito obrigado Dr. Carlos, pela entrevista. E boa sorte.

– Sou em quem agradece a oportunidade. E se quiser aparecer por aqui, vai ser um prazer recebê-lo.

Certo. Tudo bem. A gente combina outra hora, tá?

Deixados para trás
22/04/2010

Vou ser sincero. Essa história de só vacinar criancinha, velhinho e gente jovem contra a gripe suína, pode ter lá suas razões econômicas, ou médicas, ou estratégicas, ou sei lá. Mas que deixou muita gente brava por aí, deixou. Ou, pelo menos, numa profunda depressão, como é o meu caso.

Veja bem. Primeiro, eles vacinaram gestantes, crianças de até 2 anos e doentes crônicos. Numa outra etapa, a população saudável de 20 a 29 anos. E, para terminar, vacinaram os idosos de mais de 60 anos com doenças crônicas e a população saudável restante, ou seja, quem está entre os 30 e os 39 anos. E agora eu te pergunto. E eu?

Quem está aí, beirando os 50, não vai ser vacinado contra a gripe?

Olha, não é que eu esteja assim, louco para tomar uma injeção ou coisa que o valha. Longe disso. Embora jamais tenha saído correndo de dentro de uma farmácia ou de um consultório médico, gritando desesperadamente pelas ruas, eu, como a maioria dos mortais, não me encho de amores frente à visão de uma agulha prestes a ser introduzida em minha epiderme.

O problema é que eu acho que estou sendo excluído, muito precipitadamente, do rol das pessoas interessantes para a sociedade. Está difícil, inclusive, de encontrar roupas para pessoas da minha idade. Ou a gente acha coisas que nem meu avô usava mais, ou encontra bermudões enormes para usar com cuecas aparecendo e uns sapatos esquisitos que a gente não sabe direito se são tênis ou botinas.

E o cinema? E os livros? Estamos sendo invadidos por um monte de filmes e romances de vampiros feitos para crianças e adolescentes débeis mentais. Até mesmo esse Avatar. Se você tirar os efeitos especiais, vai perceber que, o que sobra, é um lenga-lenga meloso sobre a ganância do capitalismo e a preservação ecológica, salpicado por um romancezinho água com açúcar. Quer dizer. Nossa sociedade está, a cada dia que passa, sendo construída para os adolescentes, e que se danem os adultos.

Mas tudo bem. Com isso eu já estava até conformado. Só que, agora, me parece que estão exagerando. Quando vacinaram primeiro as crianças, os jovens e as mulheres grávidas, eu fiquei quieto. Nada mais natural do que salvar primeiro as mulheres e as crianças. Até mesmo nos naufrágios é assim.

Mas,  agora, eles estão salvando até os velhinhos com doença crônica primeiro que eu, deus do céu! Aí, para mim, já é perseguição, viu…

Photoshopadas
18/04/2010

No seu livro “1984”, o escritor George Orwell criou um personagem que trabalhava no Ministério da Verdade. Seria um ótimo Ministério, é claro, se no caso ele não fizesse justamente o contrário do que seu nome propagandeava. No Ministério da Verdade, os caras pegavam entrevistas, reportagens e fotos antigas e arrumavam conforme o governo precisasse. Tipos, se no ano passado o Lula aparecesse nos jornais abraçado com o, digamos, Ciro Gomes, dizendo que ele daria um ótimo sucessor, quando a gente fosse procurar os jornais hoje em dia encontraria em vez do Ciro, a Dilma, e um texto dizendo dos ótimos trabalhos realizados por ela nos anos anteriores, todos facilmente verificáveis nos arquivos do Ministério da Verdade. Se você for pensar bem, e for um seguidor de Maquiavel, vai perceber que a idéia, em si, é muito boa. Pode não ser lá muito ética, mas que é boa, é boa.

Tão boa que os publicitários a aplicam há muitos anos, sem ninguém fazer nada a respeito. Quem é que nunca viu, num cartaz do McDonald’s , a foto de um McLanche Feliz, com dois hambúrgueres recheados de queijo, alface, tomate, picles, molho especial e pão com gergelim e, na hora que foi comer,  verificou que o tal lanche era, na realidade, menor que uma rodela de laranja, e que o tal molho especial não passava de cebola melecada num mingau gelado?

Pois agora, tem uma proposta na Câmara que prevê tornar obrigatório um aviso de manipulação de imagem, de pessoas ou coisas, em propaganda e publicações. O autor da lei, que já vem sendo chamada de “Lei do Photoshop”, o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA), atribui, inclusive, a anorexia e a bulimia de muitas adolescentes à manipulação de imagens de mulheres. Segundo ele, quando nossas crianças vêem aquela mulheres maravilhosas, magérrimas e sem sinais de celulite ou estrias nas páginas da Playboy, querem ficar iguais a elas. O que, obviamente, é impossível. Ou, pelo menos, tão impossível quanto existir um lanche igual àqueles dos cartazes do McDonald’s.

Os publicitários já estão reagindo. Marco Versolato, vice-presidente de criação da agência Young & Rubicam, uma das mais respeitadas do país, disse que a lei “é mais uma restrição exagerada que a publicidade vem sofrendo. Qualquer obra é feita em cima de fantasias e da dramatização do momento real”. Eu, da minha parte, deixava as coisas do jeito que estão. Para ser sincero, eu acho a vida real de uma chatice sem tamanho. Afinal, quem é que quer topar aí, na capa da Playboy, com as celulites da Gisele Bündchen?

Ou, que deus nos ajude, as rugas da Ana Paula Arósio?

Calemo-nos
15/04/2010

Como eu já disse aqui uma vez, desde que resolvi não ter um ataque dos nervos todas as vezes que encaro, ouço ou leio alguma coisa de ou sobre um político, minha qualidade de vida melhorou consideravelmente. E – quem diria? – venho até aprendendo algumas coisas com eles.

A última coisa que aprendi com os políticos é que, sempre que possível, devemos nos manter calados. Já há muito tempo percebo que, quanto mais falamos, mais propensos a nos meter em encrencas ficamos. Tente se lembrar do número de vezes que você se enrolou todo por falar alguma bobagem. Agora, tente se lembrar do número de vezes que você se deu mal por ter ficado calado. Pois é isso que eu estou falando. Quanto menos você fala, menos confusão arruma para sua cabeça.

O exemplo da vez é a Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência. Saiu, outro dia, na “Folha de S.Paulo”, um artigo com a Dilma dizendo que, na época da ditadura, não tinha fugido da luta e que não deixou o Brasil. Daí, para o Serra dizer que, na época, ele era um exilado político e que não tinha fugido de nada foi um pulo. E aí aparece a Dilma de novo dizendo, inclusive no seu twitter, que havia mandado “uma carta para a Folha de S.Paulo porque na matéria o jornal atribuiu a mim (Dilma) um trecho de frase que eu não disse”. Quer dizer, já virou um disse que disse que ninguém entende mais nada.

Por outro lado, teve aquela vez, também, que o Fernando Henrique Cardoso, o pajé do PSDB, disse para esquecerem o que ele havia escrito porque, quando na presidência, um homem precisava se distanciar de suas bases sociológicas e pensamentos de esquerda para poder exercer efetivamente seu mandato. Foi um alvoroço. Todo mundo dizendo que um intelectual como o FHC não podia dizer uma coisa daquelas e tudo o mais. O FHC até tentou se explicar, mas ninguém se lembra mais da explicação. Só da bobagem que ele disse.

Quer dizer. Nos dois casos, se ambos tivessem se calado, teriam menos dores de cabeça com a imprensa e com seus eleitores. No entanto, ficar calado é uma qualidade que poucos políticos possuem. De uma maneira geral, são todos muito falantes e adoram fazer longos discursos, geralmente sobre si mesmos. Os políticos deviam dar mais atenção aos ensinamentos populares e se lembrarem, de vez em quando, daquele antigo mas não ultrapassado ditado:

“Se nascemos com dois ouvidos e apenas uma boca, deve ter sido por uma boa razão.”

O cara que não era nada*
13/04/2010

Ele não era nada. Foi ele mesmo quem disse, não foi nenhum de nós.

Quando ele chegou ali, no escritório, carregando aquele pacote, e perguntou se aqui era aqui mesmo e a gente respondeu que sim, era, ele pegou o pacote, entregou e pediu para a gente assinar a nota. Foi quando abrimos o pacote e percebemos que aquilo que ele havia trazido não era exatamente o que havíamos pedido. E foi aí que aconteceu. A gente chegou para ele e conversou sobre o problema. Que ele precisava fazer alguma coisa. E ele disse que não tinha nada com isso.

– Mas como é que não tem nada com isso? É claro que tem!

– Não tenho não.

– Escuta aqui, quem é você?

– Eu não sou ninguém.

Ante nosso olhar de espanto, ele não baixou os olhos. Ao contrário. Olhou bem nos olhos da gente e sorriu. Aparentemente, não ser alguém não o incomodava em nada. Parecia até mesmo orgulhoso de sua posição.

– Espera aí. Ninguém pode ser ninguém.

– É claro que pode. Eu, por exemplo.

– Mas, mas… o que você é lá na empresa?

– Eu não sou nada.

– Mas, qual é o seu cargo?

– Nenhum, oras.

E lá vinha ele de novo com aquele papo. Primeiro, ele era ninguém. Agora, ele era nada e não exercia cargo nenhum. E o pior. Ele não estava nem aí para isso. De cara assim, eu achei meio engraçado. Mas depois comecei a pensar um pouco. E, para falar a verdade, fiquei até com uma certa inveja do rapaz.

Na realidade, a gente passa uma grande parte de nossa vida tentando ser alguém. Criando um estilo, entende? Depois, passamos outro tanto da vida tentando provar para nós mesmos que fizemos a escolha correta em ser aquilo que escolhemos ser, que nós descobrimos a verdade sobre nós mesmos e tudo o mais. Isso para chegar no fim da vida e descobrir, tal como aquele filósofo, que só sabemos que não sabemos de nada. Ou como aquele famoso dramaturgo inglês que eternizou sua dúvida entre o ser e o não ser.

Já, o nosso amigo, descobriu, aparentemente sem muito esforço e sem muitos estudos, que não era nada, não pretendia ser alguém e estava em paz com sua situação de nulidade total, estado de alma que, excetuando-se alguns poucos privilegiados como os santos e os lobotomizados, bem poucos conseguiram atingir ainda em vida. Sorte para ele.

* eu sei, eu sei, isso é a negativa de uma negativa, mas você entendeu o que eu estou querendo dizer.

Será que a pilha desse moleque não acaba nunca?
11/04/2010

Foi a descoberta do século. Jornalistas se acotovelavam na porta da casa do cientista responsável, ainda desconhecido da maioria deles. Quando ele surgiu, no entanto, causou uma certa decepção. Sua figura em nada se parecia com aquele “Professor Pardal” que todos esperavam. Ele não era um velhinho de olhos fundos e cabelos desajeitados, nem usava avental branco por cima de um terno surrado. O homem que mudou a face do mundo usava um jeans, nem muito caro, nem muito barato, nem muito velho, nem muito novo. Uma camiseta pólo. Um par de tênis desses bem normais. E sua aparência mesmo, com um corte de cabelo tradicional, mas nem por isso antigo, corpo bem cuidado, mas com uma barriguinha já meio saliente, em nada lembrava aquela fotografia famosa do Einstein, que é mais ou menos o que a gente acha que vai encontrar pela frente quando se trata de um gênio revolucionário.

A casa do cientista, que desde aquele momento entrava para história da humanidade, também era bem diferente daqueles laboratórios malucos que a gente tem na imaginação. Pense bem. Como é que você acha que é a casa de um cientista? Cheia daqueles vidrinhos com líquidos verdes borbulhantes. Aparelhos soltando pequenas faíscas. Mostradores de relógios ligados a computadores um pouco antiquados. Lousas com fórmulas matemáticas absolutamente incompreensíveis.  Pois a casa do nosso cientista não tinha nada disso. Era uma casa bastante normal, uma sala com TV, dois quartos, um quintal com uma churrasqueira enferrujada num canto. Se havia alguma coisa diferente, se é que se pode dizer assim, eram os brinquedos espalhados, algumas paredes rabiscadas com lápis colorido e um triciclo estacionado ao lado da porta da frente, com as rodas viradas para cima.

O jovem cientista postou-se na varanda de sua casa, para seu primeiro pronunciamento após a fantástica descoberta.  Limpou a garganta e começou.

– A partir de agora, não serão mais necessários o petróleo, o carvão, hidrelétricas ou qualquer outra fonte de energia. Utilizando um elemento bastante comum, qualquer um poderá criar quanta energia precisar, sem problemas com poluição ou coisa parecida.

Nesse momento, para surpresa de todos, chamou seu filho. O cientista, sem dizer nada, fez um cafuné na cabeça da criança de apenas três anos e pediu-lhe que tirasse sua camiseta do Ben 10, o que o pequeno fez com certa relutância. Com um dos dedos, apertou levemente uma das costelas do menino. Assombrados, todos puderam ver um pequeno compartimento se abrindo e, de dentro dele, o jovem cientista puxou o que parecia ser uma… pilha!

– Eis aqui a grande descoberta. Uma pilha que não acaba nunca!

Quem é que precisa de tudo isso?
08/04/2010

Eu estava olhando aqui e descobri que, provavelmente, eu conseguiria viver perfeitamente bem sem a grande maioria das coisas que eu tenho e com as quais gastei, muitas vezes, verdadeiras fortunas para adquirir. Por exemplo. Todo mundo está cansado de saber que dá para tocar a vida numa boa sem comprar um forno de microondas. E, se não está cansado de saber, é só pensar em sua avó. É, rapaz, no tempo de sua avó, nem existia microondas. Eu me lembro, inclusive, que uma vez minha avó falou que no tempo em que ela era criança não tinha nem liquidificador, nem batedeira. Que ela se lembrasse não tinha nem eletricidade. E que a mãe dela, minha digníssima bisavó, fazia manteiga, chantili, bolos, panquecas e maionese batendo as coisas tudo ali, na mão. E todos eles viviam muito bem, obrigado.

Aí, eu paro e começo a reparar em volta de mim, aqui mesmo, na sala em que estou, e começo a ver quanta tranqueira que tem. É um amontoado de computador, antena de wifi, celulares esparramados pela mesa, impressora, tablet, pendrive, televisão, DVD, videogame, uma cristaleira, abajures dos mais diversos tipos e tamanhos. Abajur… Quem é que precisa de um abajur, deus do céu? Aliás, para que serve, exatamente, um abajur? Ele fica ali, na frente da luz, mais escurecendo do que iluminando.

Vamos ser sinceros. A gente não precisa de nada disso para viver. A gente foi inventando coisas que mais atrapalham do que ajudam. Essa cristaleira mesmo, que eu acabei de citar. Ela é um móvel enorme, que serve para a gente guardar cristais. No caso, pela falta de cristais, eu guardo aquelas coisas mais frágeis, tipos taças de champagne, uns pratos de porcelana que eu ganhei de casamento e um ou outro vasilhame que ninguém sabe direito para quê serve. Agora, essa cristaleira fica ali, no meio do caminho, e toda a vez que o meu neto abre uma de suas portas a gente fica bravo com ele, que ele não pode mexer ali e tudo o mais. A verdade é que essa cristaleira não serve para nada, só para irritar o meu neto. E, se for pra pensar bem, a gente também não precisa das mesas, dos armários (quem é que precisa de tanta roupa?), dos racks e dos tapetes.

Eu, por mim, fazia um limpa geral. Dispensava, inclusive, todas as cadeiras, poltronas, sofás e mesas que só servem mesmo para atravancar a casa.

Aliás, quem é que precisa de uma casa?

Mas que vai acabar, vai
06/04/2010

– Bem, eu ainda acho que vai acabar por causa do AQUECIMENTO.

– Como em aquecimento? E eu não acabei de falar que já foi provado que esse negócio de Aquecimento Global é papo furado?

– Falar você falou, mas…

– Mas nada, ô! Eu não acabei de te mostrar aqui, no jornal? Então vou repetir. “Marcel Leroux,  Professor de Climatologia da Universidade Jean Moulin e diretor do Laboratório de Climatologia do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, diz que aquecimento global é uma farsa”. E você tem dúvida no quê?

– Sei lá, tanta gente fala disso, será que todo mundo pode estar errado?

– É claro que pode! Você não sabia que Hitler, por exemplo, foi ELEITO? É, eleito, em votação democrática e tudo o mais. Volta e meia, a maioria erra. Aliás, volta e meia não: quase sempre a maioria erra.

– Tudo bem, tudo bem. Então não vai acabar em calor, tá bem? Vai acabar é em GELO!

– Gelo? Mas de onde é que você tirou uma idéia tonta dessas?

– Você nunca ouviu falar na teoria do Esfriamento Global? Pois a teoria do Esfriamento Global diz o seguinte. Antes das chamadas Eras Glaciais, sempre ocorrem períodos de aquecimento. É por causa disso que apareceu esse papo de aquecimento global. E isso não tem nada a ver com atividade industrial, poluição, nem nada dessas coisas. É totalmente natural. Então, haja o que houver, façamos o que fizermos, uma nova Era Glacial vem por aí.

– Isso… isso… isso só pode ser outro papo furado seu.

– Não é não. Já que é para citar nomes, o famoso cientista Mojib Latif, da Universidade de Kiel da Alemanha, disse num congresso da ONU que “o mundo está no limiar de um período de uma ou duas décadas de resfriamento global”. Saiu até na revista “Veja”.

– Hum… Não sei não.

– Bem, se você desconfia de tudo, você acha que vai acabar como, então?

– Em CHUVA, oras. Não tá vendo esse negócio todo no Rio de Janeiro? Pois então.

– Pois eu acho que já acabou em chuva uma vez, não vai acontecer de novo. Deus deve ser um cara criativo, sei lá. Outro Dilúvio ia ser meio bobo, não ia?

– É, ia ser um tal de neguinho construindo Arca que não ia adiantar nada…

– Mas então, vai ser como?

– ZUMBIS! Que tal uma epidemia de Zumbis?