O santo desconfia

Nos últimos dias, recebi umas visitas. Tudo bem receber visitas. Eu adoro receber visitas. Ainda mais de pessoas que a gente gosta, e que não precisa ficar fazendo muita sala.

Porque não tem coisa mais chata que aquelas visitas que a gente precisa ficar fazendo sala. O cara quer beber água e, em vez de ir lá na geladeira pegar a maldita água, ele olha para a gente e pergunta se não dava para arrumar um copo de d’água. Ou quando vai tomar banho. Ele chega e pergunta se “tudo bem tomar um banho”. Oras, é claro que está tudo bem se ele tomar um banho. Ou tomar um copo d’água. Aliás, são hábitos muito saudáveis, que todos devemos não apenas cultivar, mas disseminar entre nossos conhecidos. Especialmente os banhos, no caso das visitas.

Mas divago. O ponto a que quero chegar é que, embora todas essas visitas que tenho recebido sejam de amigos bastante íntimos, daqueles que ficam e nos deixam à vontade, sua frequência está me deixando um bocado encafifado.

Uma dessas visitas, por exemplo, foi de uma prima que eu não via há pelo menos dez anos. Vieram ela, o marido, a filha mais nova e uma netinha, que eu nem conhecia. De repente, assim como quem não quer nada, eles viajam quase mil quilômetros para fazer uma visitinha de dois dias e voltam, tudo isso de carro, porque a minha prima morre de medo de avião. Pombas. São dois mil quilômetros de estrada! Isso não é coisa que se faça assim, sem mais nem menos. Mesmo assim, deixei minhas desconfianças de lado e passei o final de semana rindo das lembranças em comum de nossa infância e adolescência.

Só que, nem bem eu havia me refeito da visita da minha prima, um casal de amigos de São Paulo veio logo em seguida, também para passar uns poucos dias em casa. Foi uma deliciosa surpresa, colocamos o papo em dia e recebemos muitas gozações a respeito de nossos cabelos brancos e nossas recém adquiridas calvícies.

Mas, à noite, já na cama, sem conseguir dormir, não aguentei a pressão:

– Querida? Você está acordada?

– Estou. Que foi?

– Pode falar a verdade. Eu estou nas últimas?

– O QUÊ?

– Por um acaso, eu estou morrendo, e você não me contou? Pode falar, eu aguento.

– Larga de bobagem, amor!

– Sei lá, esse monte de gente visitando, parece até despedida…

– Dorme aí, querido, e vê se para de pensar besteira!

– Tudo bem, tudo bem… Mas que é esquisito, é.

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