E agora, o que é que a gente faz com essa democracia?

Todo tipo de liberdade tem um preço. E, se tem um preço, não é tão livre assim, afinal de contas. Vamos pegar como exemplo a chamada “Democracia Corinthiana”. Para quem não conheceu, ou não se lembra, a Democracia Corinthiana foi um movimento iniciado em 1982, época em que o Brasil ainda vivia em plena Ditadura Militar.

Com o sociólogo Adilson Monteiro como Diretor Técnico, o técnico Mário Travaglini, e jogadores que marcaram época como Sócrates, Casagrande, Biro-Biro e Wladimir, a Democracia foi uma experiência inédita e única no futebol mundial. Antes de qualquer decisão, seja a contratação de um novo jogador ou a troca de um chuveiro do vestiário, um diálogo aberto era iniciado entre jogadores e comissão técnica. Todos participavam das decisões: jogadores, roupeiro, técnico, presidente, e o voto de cada um possuía o mesmo valor. Foi abolida a concentração, e os jogadores casados podiam passar as horas anteriores ao jogo juntos de suas famílias, e até mesmo tomar uma cervejinha para dar uma relaxada.

A princípio, ninguém deu muita bola para aquilo. Até que a coisa começou a dar certo. O Corinthians conquista dois campeonatos paulistas e chega às fases finais da Taça de Ouro, como era chamado o Campeonato Brasileiro naqueles tempos. Inúmeras pessoas públicas acabam aderindo à causa do time, que extrapola o campo de futebol e começa a fazer campanhas pelas Diretas Já. Osmar Santos, Juca Kfouri e Rita Lee acabam vestindo a camisa da Democracia Corinthiana. Sócrates, Casagrande e Wladimir sobem em palanques e discursam ao lado de políticos e figuras públicas.

Os militares ficam de mãos atadas. Afinal, o que podiam fazer quando o time com a maior torcida do país começa a discutir política e pôr em debate o porquê de uma ditadura?

Bem, passados trinta anos, a liberdade daquele grupo de jogadores visionários já começa a cobrar seu preço. Veja aí o Casagrande. Seus problemas com as drogas não são de hoje. Desde aqueles tempos, ele já experimentava umas e outras. Até que, agora, a coisa piorou, andou se envolvendo em acidentes de carro, quase morreu e passou a ser um frequentador assíduo de clínicas de recuperação.

E agora, o Sócrates. Mesmo sendo médico, nunca negou que gostava de uma cachacinha, de uma cerveja e de fumar os seus cigarros. Depois de ser internado duas vezes por cirrose alcoólica e só conseguir respirar com a ajuda aparelhos, a vida de Sócrates, hoje em dia, está dependendo de uma restauração milagrosa de seu fígado ou até mesmo de um transplante.

A liberdade é mais ou menos assim, igual um cachorro correndo atrás das rodas de um carro. Quando alcançamos, não sabemos o que fazer com elas.

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