Como é que meu avô conseguia e eu não?

Quando meu avô entrava na sala da casa dele, todo mundo ficava em silêncio. Não se ouvia um pio. Ele entrava, passava a mão na cabeça de um dos netos, sem olhar muito para ele, se sentava em sua poltrona. E mudava o canal na televisão.

Veja bem. A gente podia estar assistindo qualquer coisa. Desenho animado. Uma daquelas séries que passava na época, “Perdidos no Espaço” ou “Terra de Gigantes”. Podia até mesmo estar assistindo o Jornal Nacional, ou o programa favorito do meu avô, que era o “Flávio Cavalcanti”. Você lembra do “Programa Flávio Cavalcanti”? Um maluco com óculos de aro de tartaruga, que quebrava discos no palco dizendo que aquilo era um lixo, geralmente um disco do Caetano Veloso, dos Novos Baianos ou qualquer coisa que tivesse uma guitarra tocando? Pois então, era esse o programa favorito do meu avô. Mas, mesmo se a gente estivesse assistindo o “Flávio Cavalcanti”, meu avô trocava de canal assim que se sentava. Aliás, pensando bem, ele trocava de canal até mesmo ANTES de se sentar, já que naquele tempo não existiam controles remotos e se a gente quisesse mudar de canal, aumentar o som ou arrumar o vertical da televisão, tinha mesmo é que ir até o aparelho e girar uns botões.

Bem. Outro dia desses, eu fiquei pensando nesse negócio todo. Por que diabos o meu avô tinha essa mania de trocar de canal assim que chegava em casa? E eu cheguei à conclusão de que aquela atitude tinha a ver com o Poder. De uma maneira ou outra, meu avô já intuía a importância que a TV tinha e teria nas próximas décadas e, talvez até mesmo sem saber, estava mostrando para todo mundo que quem mandava ali era ele, e não havia nada que pudéssemos fazer a respeito.

Hoje em dia, trocar de canal quando outros estão assistindo a TV é uma atitude, no mínimo, perigosa. Se você não acredita, experimente fazê-lo no meio de uma novela, à qual sua mulher e sua sogra estão assistindo. Ou, ali no barzinho, tirar do jogo do Corinthians para assistir um programa da TV Cultura. Para mim, fazer uma coisa dessas é quase uma tentativa de suicídio. E isso sem contar a falta de respeito com os outros e…

– Querido, o nenê só quer assistir um desenhinho do Pokemon…

– Mas… mas… eu estava assistindo o jogo!

– É só quinze minutos, amor…

– DAQUI A QUINZE MINUTOS O JOGO ACABOU!

– Também não precisa fazer um escândalo desses, né? Olha lá o Pokemon, até que ele é bonitinho…

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3 Respostas

  1. fantástico!!!! E meu avó dormia de frente para TV e mesmo assim a gente tinha que assistir o canal que ele escolhia.

  2. Pior que tudo isso é vc estar na casa de alguem assistindo o ultimo capitulo da novela e o cabra dono do pedaço chegar e troca de canal, vc não pode reclamar, não pode xingar que de repente vc está morto e tem que engo
    lir sem um golinho de agua, affff, duro aguentar o poder dos poderosos, kkkkkk

  3. LILO.!!!! RI MTOOOOOOOO…então…isso que vcs só passaram qdo iam pras ferias…que alias eram mais longas. E nós? Mas acho que sua ira era descontada em nós…vc por acaso se lembra de umas sessões de cinema que tinhamos que assistir no seu quarto? Pagando entrada, e tendo que assistir 2, 3 vezes o mesmo desenho???????? E quem desobedecia seu pai? E usa mãe pedindo que tivessemos paciencia..que vc estava dodoi…FAMILIA DE GENTE DOIDA…hahahahahahahaha.

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