Já pensou?

Em toda a minha vida na faculdade, a única matéria que me causou sérios transtornos foi a Estatística. A Estatística, para mim, era uma coisa indecifrável. Cheguei mesmo a tirar um zero numa prova, coisa que nunca havia acontecido comigo, e jamais veio a acontecer de novo. Zero, veja você. Para um sujeito tirar um zero numa prova, isso quer dizer que ele não acertou nem seu nome. Não acertou nem uma vírgula. Nada.

E foi aí que entrou a minha esposa, que na época ainda não o era, mas viria a ser dentro em breve, alguns meses depois de um final de semana um pouco mais animado. Bem, ela chegou para mim, me puxou para um canto e decretou:

– Você é um cara muito inteligente para tirar zero. Em qualquer coisa. Ainda mais em Estatística, que é a coisa mais boba do mundo.

E ela começou a me explicar tudo aquilo que o professor já tinha explicado. Que estatística era só aplicar uma fórmula aqui, outra ali. E pronto. Que não existia coisa mais fácil. E que ela não entendia qual era, afinal, o meu problema com a Estatística. E ficou ali, de braços cruzados. Me olhando, aparentemente esperando uma resposta razoavelmente convincente.

E eu pensei, pensei, e comecei a falar.

– O meu problema com a Estatística é o seguinte. Vamos dar como exemplo um probleminha, desses que caiu na prova. Eu não lembro direito, mas era mais ou menos assim: na Etiópia, existe um número X de crianças. Dessas, um número Y recebeu uma alimentação equilibrada e saudável, e um número Z de crianças recebeu a alimentação com a qual estavam acostumadas. Se considerarmos que X corresponde a quatro milhões e Z a dois milhões de crianças, qual seria o número Y em porcentagem?

Minha mulher olhou para mim de novo e começou a falar que aquilo era fácil. Era só pegar quatro milhões, transformar em porcentagem, somar com o Z, tirar o número Y e…

– E as criancinhas? – eu cortei seu raciocínio – Quem é que consegue ficar pensando nesses Y, X e Z quando mais de dois milhões de criancinhas estão passando fome na Etiópia? Não dá para pensar em fórmulas, não dá para pensar em porcentagem, e muito menos pensar em X, Y ou Z, oras!

E foi aí que minha mulher, como num passe de mágico, descobriu o maior dos meus defeitos que, aliás, viria a me perseguir durante o resto da vida:

– Está aí o seu problema, amor. Você pensa DEMAIS!

Uma resposta

  1. Meu diagnóstico é que vc é da área de humanas e não da de exatas. rs Beijo

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