Risco de vida

Quando eu fico pensando nas coisas que eu já fiz, é meio inacreditável que eu ainda esteja vivo. Não que eu tenha feito muito mais coisas que a maioria das pessoas. Não. É que todo mundo, de uma maneira ou outra, passou por umas situações que, se não correu risco de vida, pelo menos esteve ali, prestes a correr. Como daquela vez que, não sei por que cargas d´água, eu voei num ultraleve.

– Vem cá, mas isso é seguro mesmo?

– É claro que é.

– Mas então porque é que você está de pára-quedas e eu não?

– É porque só tinha um, oras.

– Então porque é que não é VOCÊ que está sem pára-quedas?

– Porque sou eu que estou pilotando, ué, já pensou, se me acontece alguma coisa?

Geralmente, a gente faz esse tipo de bobagem quando ainda é jovem, cheio de vida para gastar. Por exemplo. Aqueles pileques que a gente tomava na faculdade. Sinceramente, você acha que aguentava um fogo daqueles hoje em dia? Não aguentava. Ainda mais pensando nas coisas que a gente ingeria. Eu me lembro de uma vez que a gente deu uma festa na qual a única bebida servida era pinga com groselha.

– Me dá uma cerveja?

– Não tem. Só tem pinga com groselha.

– Mas nem um whiskinho?

– Não, só pinga com groselha.

– Tudo bem. Me vê uma então.

– Tó, mas vai com calma.

– PFFFF! cof cof… argh!

– O que foi?

– Mas isso… isso… isso está quente!

– É, claro que está, passou a tarde inteira aí, no sol.

– Mas não dá pra beber um treco desses, puxa vida!

– E o que você quer que eu faça?

– Hum. Tudo bem. Me vê mais duas aí.

Mas, conforme o tempo passa, e vamos ficando velhotes de meia idade, começamos a nos preservar mais. E, ironicamente, é exatamente nessa idade que as doenças começam a aparecer. Nossa caixinha de remédio – que antes se resumia a uma caixa de sapatos perdida em algum canto obscuro da casa, cheia de aspirinas vencidas – agora pega metade do armário do banheiro. E um bom tanto do nosso salário.

– Vai um whiskynho 12 anos aí?

– Não, obrigado.

– E uma vodka? Que tal uma vodka?

– Sabe o que é? Meu fígado não anda lá essas coisas, sabe?

– Bem, toma essa cervejinha aqui, que não faz mal pra ninguém…

– Hum, suco de laranja você não tem, tem?

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