Agora eu que bato cara!

Simplesmente não dá para cair em depressão com uma criança dentro de casa. Não dá. Esse papo de mãe que cai em depressão, é papo furado. Só pode ser. Porque a gente está lá, sentado na varanda de casa, fumando um cigarro e pensando na falta de sentido disso tudo, e nas coisas que deixou de fazer nessa vida. E de repente.

– Vô.

– Hum?

– Eu tive uma idéia.

– Hum, hum.

– A gente podia brincar de… de…

– Olha, nenê, o vovô não está com vontade, eu…

– … de dado!

– Brincar de quê?

– Dado, vô, vem cá.

– Que dado o quê? Você nem sabe o que é um dado e…

E sabe-se lá como, do meio do nada, surge um dado. Na mão dele.

– É assim, ó, a gente joga o dado e…

– Cuidado com o dado, ele vai cair debaixo do sofá e…

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei!

– Mas você mexeu no dado, agora a gente não sabe mais quanto é que…

– Agora o vô que joga, joga vô.

E a gente joga o dado e, deus sabe que é verdade, tenta tirar um número menor do que aquele que ele mostrou. Mas o maldito dado roda, roda, roda e dá seis.

– Ih, nenê, o vô tirou seis e…

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei!

– Como assim, você ganhou nenê? Seis é o maior número que tem e…

E ele joga de novo. E tira um.

– Êêêêêêêêêêêêêêêê, eu ganhei de novo, eu sou bom em dado, né vô?

– É, você é bom, agora vai lá com sua mãe que o vovô queria ficar um pouco sozinho e…

– Já sei! E se a gente brincasse de… de…

– Olha nenê, o vovô não tá muito bom, eu estou meio triste e…

– Esconde-esconde! Você bate cara, tá vô?

– Nenê, o vô não queria fazer nada que…

Mas ele não está mais ouvindo. Ele está lá dentro de casa, atrás da cortina, que é onde ele sempre se esconde quando a gente brinca de esconde-esconde.

– Nenê, esconde noutro lugar, você só esconde aí, o vô já sabe…

Mas ele não se mexe. No máximo dá uma risadinha de vez em quando, as perninhas e os pézinhos à mostra, para quem quiser ver. Esperando eu levantar a cortina e gritar “achei!”. Eu me levanto. Arrasto meus chinelos pela casa. Levanto a cortina e…

– ACHEI!

E ele ri, e sai correndo até o muro lá fora, onde dobra os braços, encosta os olhos e grita:

– Agora eu bato cara e o vô esconde!

E vou eu para atrás da cortina. Minha depressão, minhas canelas e meus chinelos à mostra, para quem quiser ver. E o máximo que ouvem de mim são uns risinhos abafados.

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