Escolhe você

Todo mundo sonhava em ser alguma coisa que não foi. Sei lá. Ser um cientista, descobrir a cura do câncer e ganhar um prêmio Nobel. Ser um cantor de rock ou, no nosso caso, talvez um cantor sertanejo famoso. Um ator de novela da Globo ou, pelo menos, um dos Big Brothers. Talvez, até ser um astronauta, embora isso, convenhamos, é mais sonho de americano do que de brasileiro. Sei que, e a gente nem sabe direito quando ou porque, em determinado momento de nossas vidas acabamos desistindo dessas coisas todas e vamos fazer uma faculdade de engenharia, ou abrimos uma padaria, ou uma oficina mecânica. E passamos o resto da vida com o cotovelo no balcão, arrependidos das escolhas que fizemos.

Acho que é por causa disso que, até hoje, eu odeio fazer escolhas. Qualquer escolha. Parece que qualquer coisa que eu faça ou compre, acabo sempre arrependido. E isso colocando aí, no mesmo balde, desde qual sabor de pizza escolher no restaurante até a compra de uma nova geladeira. Eu passo tanto tempo pensando nas vantagens e desvantagens de comprar um celular, por exemplo, que acabo não comprando porcaria nenhuma, e até hoje não tenho um.

– Quanto é que está aquele ali, ó?

– Esse?

– É.

– Um mil e novecentos.

– Puts. E o que ele faz?

– Bem. Esse aqui é um superlançamento. Ele entra na internet, pode ser usado para ler e-books, tem uma câmera fotográfica de 8 megas e filma em HD.

– Nossa. E aquele outro ali?

– Qual?

– Aquele ali, vermelhinho.

– Bem, esse é muito bom também. Ela se conecta no Facebook de graça, pela rede Wi-Fi. Manda twitter. Faz chamadas com vídeo. Tem até TV.

– E quanto é?

– No nosso plano Pré, sai por cento e vinte reais por mês, no cartão, sem taxa de adesão.

– Humm…

– E nós temos essa nova linha de Tablets também.

– Tablet?

– É, eles são maiores, facilitam a leitura, entram na internet de qualquer lugar via 3G. Tem câmera também, mas são um pouco mais fracas, de 3 mega, e ainda tem teclado virtual. É a nova mania mundial, o senhor nunca ouviu falar?

– É, acho que já.

– E então, vai levar algum deles?

– Humm… Deixa eu dar uma pensada. Nessas compras assim, melhor conversar com a mulher antes, né?

E aí, eu volto para casa, e telefono para a minha mulher do meu velho telefone. Puxa vida. Tem hora que eu acho que eu sou o único cara do mundo que ainda tem uma linha fixa, viu…

Uma resposta

  1. Eu queria ser escritor… Um dia eu chego lá. Só que, quando eu chegar, talvez queira ser outra coisa. O barato do ser humano talvez seja de fato o desafio, e não a realização.

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