Por onde será que anda a Dona Assunção de Lima?

Sabe quando a gente vê aquelas reportagens de gente sendo atendida, internada e medicada nos corredores dos hospitais brasileiros, porque os quartos já estão lotados? Pois então. A gente sempre acha que esse tipo de coisa só acontece em fotografias nos jornais, ou em reportagens na TV sobre a decadência do sistema de saúde, e coisas do tipo. E que a gente nunca vai passar por uma situação parecida, que isso só acontece com morador de rua, mendigo e gente de favela.

Bem. Sinto muito informar que essas coisas não acontecem só nas páginas dos jornais, não. Essas coisas acontecem mesmo, de verdade, e quase todo dia. E pior: por incrível que pareça, essas coisas podem acontecer com a gente também, da digníssima classe média ascendente brasileira, que sonha com um ipad e uma TV 42 polegadas.

Semana passada, eu precisei passar uns dias no HB em Rio Preto para cuidar de umas dores e fazer uns exames. E a coisa estava pegando fogo por lá. Não sei se era por causa do feriadão da semana passada, ou o quê, mas em determinada hora, já tinha paciente saindo pelo ladrão. Foram me chamar só lá pelas dez horas da noite, quando a maioria de nós se amontoava na Sala de Espera, em frente a uma televisão sintonizada eternamente na Globo.

De vez em quando, aparecia alguém de branco com um papel na mão e gritando:

– ASSUNÇÃO DE LIMA! DONA ASSUNÇÃO DE LIMA ESTÁ AQUI?

Às vezes estava, à vezes não. Se não, o cara de branco continuava gritando pelos corredores, até achar.

– ASSUNÇÃO! DONA ASSUNÇÃO DE LIMA?

Os melhorzinhos tinham alta, mas acabavam ficando por ali mesmo, já que não tinham como voltar para suas cidades àquela hora da noite. As macas com os pacientes foram sendo colocadas na Sala de Espera, esperando por vagas nos quartos. Depois, as macas passaram a se multiplicar pelos corredores. As enfermeiras faziam o que podiam, dando um remédio aqui, aplicando um soro ali. Para matar a fome, os pacientes trocavam entre si bolachinhas, maçãs e outras coisinhas que trouxeram de casa.

Nessa altura, eu já estava bem alojado, numa maca do corredor central do hospital. O senhor, na maca ao meu lado, se sentou um pouco, tirou um pente do bolso, e arrumou o cabelo. Olhou para mim e disse, sorrindo: – A gente tem que manter a dignidade, né? – e deitou de novo, virando para o lado da parede e puxando sua coberta de lã xadrez.

Vinda lá de longe, ainda dava para ouvir:

– DONA ASSUNÇÃO DE LIMA? ALGUÉM VIU A DONA ASSUNÇÃO DE LIMA?

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