Os feriados lilases

Quando a gente é moleque, não tem coisa melhor no mundo do que um feriado. Era no feriado, afinal de contas, que a gente ia visitar a avó da gente que morava no interior, e que tinha uma jabuticabeira no quintal, e um quintal cheio de terra que a gente molhava e construía piscinas e pistas de carrinhos de plástico que a gente ganhava das tias, e que no fim sempre acabava com uma guerra de barro e a nossa mãe muito brava dizendo que não tinha trazido roupa para o feriado e que se continuasse assim a gente ia ter de voltar pelado na viagem de volta (mas ela dizia isso rindo muito e cutucando a barriga da gente, chamando a gente de “meu sujismundinho” e tudo o mais).

E depois, na adolescência, os feriados ficavam ainda melhor. Nos feriados era quando a gente ia acampar com a escola, e ficava todo mundo junto no alojamento, fazendo aquelas brincadeiras sem graça com pasta de dente na cueca dos amigos, ou tocando violão até mais tarde, ou tentando alcançar o alojamento das meninas de noite e morrendo de medo daqueles barulhos esquisitos da noite, que pareciam uivos de lobos (mas dizendo para os outros que eles eram uns medrosos, isso sim, onde já se viu, que aquilo era só uma coruja)

E os feriados do tempo da faculdade, então? Quando a gente saía de carona pelo Rio/Santos, parando em Ubatuba, Parati e indo até onde dava, dormindo na praia e tomando aquelas coisas todas que a gente tomava naqueles tempos, e acendendo fogueiras e conversando até de madrugada sobre a vida, e a morte, e as ideologias, falando como se naquele tempo a gente já tivesse vivido tudo o que era para ser vivido e não precisasse aprender mais nada (e, pensando nisso hoje, talvez fosse até mesmo verdade).

Agora, ainda ontem, chegou um cliente aqui no escritório, e ele estava mal humorado. Como eu, já beirando seus cinquenta anos, meio careca e transpirando mais do que o normal. E ele entrou no escritório e falou “-Maldito feriado, eu com tanta coisa para resolver, e agora me aparece esse feriado no meio da semana para atrapalhar tudo”.

Eu cocei a cabeça, me virei e olhei pela janela. O céu estava meio lilás.

Lilás, dá para acreditar?

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