De onde viemos, onde estamos, para onde vamos

Esses dias, como você deve ter ficado sabendo, fiquei doente. Mas bem doente mesmo. Fiquei internado e tudo o mais. Fizeram dez mil exames, me furaram de alto a baixo. Chegaram à conclusão de que preciso de um transplante de fígado. Aliás, se você souber de alguém que esteja com um fígado sobrando por aí, pode me avisar.

Pois bem. Com essas notícias, é claro que eu dei uma desesperada. Eu e a família e os amigos. Como assim, transplante? Mas é sério assim? Eu cheguei mesmo a perguntar para o médico quanto tempo eu tinha de vida, o que me soou meio cinematográfico, sei lá. Mas, em todo caso, ele também não respondeu. O médico, como todo médico que se preza, deu uma certa enrolada, disse que dependia de um monte de coisa. Me deu uns remédios, me deu um regime alimentar, e me mandou de volta para casa.

Acontece que eu não conseguia tirar essa maldita pergunta da minha cabeça. Quanto tempo de vida eu ainda tenho? Vasculhei a internet, os livros. Conversei até com alguns transplantados. E, todos eles, sejam os sites, os artigos nos livros, ou os meus (oh) colegas de infortúnio, tal como o meu médico, sempre começavam as respostas com um “depende”.

Depende disso, depende daquilo. Que eles conheciam desde pacientes que morreram meses depois da operação, até outros que já duraram mais de vinte anos de fígado novo, e que contiuam aí, na ativa, alguns até se arriscando a uma ou outra cervejinha nos finais de semana.

Quer dizer, ninguém sabia de nada. Ou, se sabiam, não tinha coragem de me contar e se limitavam a dizer que eu tinha que ser forte nessa hora, que a esperança é a última que morre,  que eu tinha muita gente que gostava de mim e que podia até acontecer um milagre, quem sabe?

Até que meu irmão chegou para mim, num dia que eu estava meio caidaço, e me chamou para um canto. Olhou bem para mim e perguntou o que é que eu tinha. E eu disse que a única coisa que eu queria saber era quanto tempo eu ainda tinha de vida, puxa vida, e que ninguém conseguia me dar uma resposta. E ele falou, meio brincando, meio falando sério:

– Ah, você SÓ quer saber quanto tempo tem de vida? Oras, mas quem é que não quer?

Foi a melhor resposta que eu tive até agora. Eu só não entendo como é que a gente consegue viver com essa dúvida desde que nasce, viu.

3 Respostas

  1. Seu irmão é um gênio. Um gênio.

  2. Então é um gênio…🙂

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