Big Bang

doutorA canela dele começou a inchar. No começo, não tinha nada de mais. Era um inchadinho à toa, desses que acontecem com qualquer par de canelas que se aventuram por um shopping na companhia da esposa e das crianças. Chegou mesmo a fazer umas brincadeiras, que estava ficando com pernas de jogador de futebol.

– Olha só aqui, ó, que coxonas.

É, porque a coisa já não estava presa só às canelas. Primeiro, subiu para o calcanhar. Depois, se desenvolveu pelas panturrilhas. E, finalmente, chegou às coxas. De vez em quando, ele parava na frente do espelho do armário do quarto, o maior da casa. E ficava observando. A verdade é que não estava nada mal. Nunca gostou de esportes, então as pernas sempre foram mirradas. Uns “cambitinhos”, como gozavam os amigos. E agora estava ele lá. Parecendo um atleta olímpico.

– Não sei não, deixa eu dar uma apertadinha nessa canela… hummm, sei lá…esse negócio está mais pra inchado do que para músculo de verdade, viu…

Sempre aparece um estraga prazeres mas, por via das dúvidas, começou a prestar mais atenção. De vez em quando, dava uma apertadinha na perna, e percebia que ficava um buraco no lugar. Já tinha ouvido falar que isso era… era… era não sei o quê. Uma doença, sinal de velhice, sei lá.

– E essa barriguinha, hem?

A barriga. Quando percebeu, a barriga também estava inchando. Não demorou muito para os braços começarem a assar se andasse muito sem camisa. Ficavam roçando no corpo. As mãos começaram a perder as formas. A aliança de 25 anos de casado não entrava mais. Aliás, para sair já deu um trabalhão. Precisou passar sabonete para ela escorregar. E, no outro dia, quase não conseguiu abrir os olhos ao acordar.

– Estou parecendo um sapo!

O inchaço generalizou-se. Foi estufando, estufando. Uns diziam que era o fígado, tinha que parar de comer essas coisas gordurosas. Outro, que devia ser uma espécie de alergia, você não comeu nada diferente nesses dias, nem foi picado por algum bicho? Outros, ainda, tinham certeza que era problema de rim, e que o melhor era tomar uns diuréticos.

Certa manhã, explodiu.

Foi rápido e sem sofrimento. A morte que pediu a Deus.

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2 Respostas

  1. Tava sentindo falta das suas crônicas viajadas e irônicas, de humor negro e tudo o mais. E vai indo que eu já vou.

  2. Crônicas para não se ler no café da manhã… 🙂

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