-E aí, tudo bem?

Sempre gostei de um tipo especial de humor. Não aquele humor, que a gente se escancara de tanto rir. Não. Sou muito mais por um tipo de humor mais comedido. Desses que, no máximo, no máximo, fazem o nosso rosto dar uma pequena contorcida, numa expressão que fica mais ou menos entre a aflição e a dor de dente.

Entre tantos tipos de “humores”, o humor negro, especialmente, sempre me atraiu. Tanto em minha vida pessoal quanto aqui mesmo, nessas crônicas, volta e meia eu me arrisco a enveredar por caminhos meio sombrios o que, na maioria das vezes, é bastante incompreendido pela maioria.

Por exemplo. Sabe quando as pessoas chegam para você e perguntam “- E aí, tudo bem?”, de maneira meio retórica, não querendo MESMO saber como é que você vai e esperando como resposta um simples “-Tudo bem, e você?”. Pois então. Eu respondo mesmo, de verdade. E, se possível, enumerando um a um os problemas pelos quais venho passando, inventados ou não.

Então, o cara me encontra na rua e diz:

– E aí, Artur, tudo bem?

E eu digo:

– Não. Não estou. Para falar a verdade, acabei de sair da Santa Casa, onde fui fazer uma série de exames nos quais ficou contatada uma doença gravíssima que, pelo visto, só tem tratamento na Europa. E isso sem contar a minha vida financeira, que realmente vai de mal a pior, tô devendo em tudo quanto agiota da cidade. E você? Como é que está?

O cara, na maioria das vezes, não sabe direito como se comportar perante uma resposta dessas. Isso porque ele REALMENTE não queria saber como eu estava. Ele só perguntou “E aí, tudo bem?” para dizer alguma coisa. Logo depois de constatar seu constrangimento, eu caio na gargalhada. Mas o sujeito geralmente não ri nem assim.

– Com essas coisas não se brinca, Artur.

Bem, ultimamente eu venho achando que, no fim, parece mesmo que os outros é que estavam com a razão. Agora, quando as pessoas chegam para mim e perguntam “-E aí, Artur, tudo bem?” eu fico olhando para a cara deles, pensando nos meus últimos dias, e nas coisas que me aconteceram. E aí eu olho bem para eles e respondo:

– Tudo bem. E você?

E continuo meu caminho, apressando um pouco o passo.

2 Respostas

  1. Ótima crônica, se eu pudesse escrever igual você .. O Veríssimo do interior. xD

  2. Felipe, na contracapa do livro PAH!, tem um elogio do próprio Verissimo ao Artur. Tá bom ou quer mais? Desde que conheci o “Verissimo do interior”, sou mais o Artur mesmo.

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