Aposentadoria

Como diz um velho amigo meu, não tenho nada contra o Ronaldão, nem a favor, nem muito pelo contrário. Eu só acho que ele é um jogador de futebol. Um bom jogador de futebol, vá lá, um pouco mais articulado do que seus colegas de profissão, mas nada além de um jogador de futebol. E eu não entendo como é possível que o fato de um jogador de futebol se aposentar tenha tamanha relevância que o leve às capas dos maiores jornais do mundo, que faça com que as revistas semanais preparem rapidamente edições especiais sobre sua carreira, e que equipes de TV interrompam a programação normal de suas emissoras para transmitirem ao vivo o que deveria ser um simples discurso de despedida.

Eu não me lembro, por exemplo, de qualquer TV modificando sua programação quando o pintor Salvador Dalí morreu, em 1989, ou o escritor Jorge Luis Borges, em 1986. Ou quando o poetinha Vinicius de Moraes não conseguiu acordar, numa manhã de 1980. Ou por ocasião da passagem do nosso querido (e reconhecido internacionalmente) Tom Jobim, em 1994. Ou até mesmo na morte de Charles Chaplin, em 1977. Houve cadernos especiais? Houve, claro que houve. Teve notícia no jornal? Teve, claro que teve. Mas nada nem parecido com a meia página de capa que a “Folha de S.Paulo” dedicou à simples aposentadoria do Ronaldão, que, convenhamos, nem morte é, oras, é só uma simples aposentadoria.

Inconformado também fiquei observando a reação das pessoas. Teve uma tia minha que chorou copiosamente e não parava de dizer “coitado” toda hora que o Ronaldo dava uma fungada ou passava as mãos pelos olhos. Mas “coitado” por quê, meu deus do céu? Coitado porque ele conheceu o mundo inteiro e educou seus filhos nas melhores escolas da Europa? Coitado porque ele era disputado a tapas por mulheres maravilhosas que a gente só vai conhecer em revista? Coitado porque ele foi eleito três vezes o melhor jogador do mundo? Coitado porque o salário dele, fora os extras, beirava os R$ 2 milhões?

Oras, coitados de nós, que damos tanta importância a fatos tão irrelevantes quanto a aposentadoria de um jogador de futebol, e nos esquecemos completamente que o Brasil ainda ocupa uma posição humilhante no ranking da Educação, atrás de nações como o Chile, Trinidad e Tobago, Colômbia ou México que, aliás nunca foram campeãs mundiais da FIFA.

 

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