Sociedade Alternativa

Estávamos todos lá. Um bando de moleques, o mais velho com no máximo dezenove anos. Todos ainda com cabelos, e cabelos bastante compridos. Brincos nas orelhas, apenas alguns. Era ousado até mesmo para os mais ousados. Os que não tinham coragem de furar a orelha, davam a desculpa de que aquilo não era natural, mas nós, que já posávamos com nossos brincos de prata comprados na Feira Hippie, dizíamos que era sim, bem natural, veja aí os índios, oras, que nem agulhas esterilizadas usam, e vivem cheios de penduricalhos, plenamente com a natureza.

Aliás, era a natureza mesmo que nos reunia naquele dia ali, naquele sítio. Estávamos todos planejando criar uma sociedade alternativa, vivendo num sítio afastado, como os Novos Baianos. O grande lance era comer só o que plantássemos, sem pesticidas nem nada disso, muito amor livre e criando nossas crianças de maneira mais saudável, com mais espaço para correr, sujas de terra e rios para nadar. Ok, o sítio ali não tinha rio, mas a gente podia dar um jeito nisso, cavando um poço ou algo assim, não podia? Ou um poço não era natural? Tinha uns que diziam que era, mas a maioria dizia que não era, que tudo começava assim e logo a gente ia querer instalar um motor para puxar a água para a casa, torneira com água quente, e todos esses males que atingem a sociedade capitalista e burguesa hipócrita.

Tudo bem, vamos deixar para discutir o poço depois, vamos ver direito como é esse sítio aqui, muito sol, muitas árvores, para mim era perfeito. Para o outro, faltavam árvores e era muito perto da estrada, dava até para ouvir os caminhões passando, como é que a gente queria viver de acordo com a natureza ouvindo o barulho de caminhões? Nesse momento, ficamos todos em silêncio, tentando comprovar a tese de nosso amigo, e realmente, lá ao fundo, ouviu-se um ronco grave vindo de algum lugar, parecia mesmo o barulho de um caminhão, ou de um ônibus, talvez de um trator, ou então de um… de um…

– Trovão!

Olhamos todos para o horizonte ainda a tempo de observar, rasgando um céu acizentado, o brilho de um raio iluminando o horizonte sombrio. O vento começou quase no mesmo instante, levantando nuvens de poeira e chacoalhando as árvores como se fossem de brinquedo. Quando as primeiras gotas de chuva atingiram o chão, alguns já estavam correndo para suas motocicletas, enfiando atabalhoadamente seus capacetes, os outros andavam apressados em direção aos seus carros. Olhando pelo retrovisor, vi a nossa sociedade alternativa sendo apagada pelo temporal.

Foi a última vez que a vi.

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