Nós e Eles

Já reparou como a gente, geralmente, fala “eles” quando quer se referir aos políticos ou a alguém do governo? Quantas vezes você já ouviu por aí expressões como “Eles não dão a mínima para a Educação”, e soube exatamente do que é que o outro estava falando, embora “eles”, no caso, podia muito bem se referir a um monte de gente, tipos, dos professores e diretores aos próprios alunos, passando por empresários, faxineiros, pobres ou ricos.

Tanto ouvi coisas desse tipo que, outro dia desses, eu fiquei pensando no seguinte. Exatamente o que a gente quer dizer quando diz “eles”? E a primeira coisa que me veio à cabeça é que “eles” é o contrário de “nós”. Quer dizer, quando a gente fala “nós”, estamos nos referindo a um grupo de pessoas que estão bastante próximas da gente, com os mesmos objetivos, os mesmos planos, os mesmos sonhos e mais ou menos as mesmas capacidades para alcançá-los.

Agora, “eles” não. “Eles” são pessoas distantes, pessoas com as quais a gente não tem quase nada em comum, que circulam pelas proximidades, às vezes frequentam os mesmos lugares, mas que estão sempre lá e nós cá. “Eles” são aquelas pessoas para as quais a gente aponta disfarçadamente durante uma festa para fazer comentários maliciosos sobre suas opções sexuais, sobre suas roupas ou de como enriqueceu tão rapidamente enquanto a gente está aqui, nessa pindaíba.

Mas, a partir do momento em que a gente começa a chamar de “eles” exatamente as pessoas que, teoricamente, estão lá para NOS representar, para lutar por NOSSOS interesses, é porque a coisa perdeu totalmente o prumo. Não somos mais “nós” que estamos no comando, entende? São sempre “eles”. Não sei exatamente em que momento da história isso aconteceu, mas deve ter sido ainda lá no comecinho, logo que o homem desceu das árvores. E é até compreensível.

Os homens das cavernas tinham medo de praticamente tudo, das sombras, dos dragões, de bruxas e fantasmas. Então, se aparecia alguém oferecendo um mínimo de segurança, eles entregam seus destinos para eles. Foi quando começaram a surgir os chefes, os reis e os curandeiros.

O incrível é que essa prática tenha durado até hoje. Quando a gente delega a presidentes, padres e pastores um certo poder, estamos renovando um lenga-lenga que se repete por milhares e milhares de anos, ou seja, entregando a outros o controle de nosso destino.

Acho que está mais do que na hora de nós todos cuidarmos de nossas próprias vidas.

There are no comments on this post.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: