A questão do umbigo

Outro dia desses, na capa aqui, do Diário de Votuporanga, estava estampada uma série de fotos, mostrando um carro e uma motocicleta sendo arrastados pela enxurrada da chuva. Tinha umas pessoas também, aparentemente na dúvida se tentavam fazer alguma coisa pelos veículos ou pela própria vida. Achei as fotos bastante fortes. Não me lembrava de ter visto algo parecido nesse tempo todo que moro aqui, em Votuporanga. Enxurradas, vez por outra, há. Uma ou outra casa inundada. Mas carros e motocicletas sendo arrastadas pela água, acho que foi a primeira vez que vi.

Fiquei tão impressionado que mostrei a capa do jornal para uns amigos. Um deu uma olhadinha assim por cima, quase que como uma obrigação, e resmungou alguma coisa inaudível. O outro, sequer se deu ao trabalho de olhar, e apenas concordou com um “É, a coisa tá feia mesmo”. Ante o, digamos, menosprezo demonstrado por meus colegas, olhei as fotos novamente. Talvez tivesse sido eu que, depois de velho, acabei ficando um pouco mais impressionável do que devia. Mas não. As fotos eram chocantes mesmo. Nada parecido com aquelas cenas do Rio de Janeiro mas, mesmo assim, chocantes.

Mostrei a capa novamente para eles. Só que, dessa vez, enfatizei a abordagem com um “pombas, eu nunca vi nada parecido acontecer aqui em Votuporanga”. Ao ouvirem a palavra “Votuporanga”, não apenas os dois amigos, como mais duas ou três pessoas que estavam em volta, se levantaram e vieram dar uma olhadinha nas fotos. E foi um tal de “Nossa, olha aí, pertinho da minha casa” e “Eu acho que conheço esse carro aí, acho que é do Alencar, coitado” que até me tiraram o jornal da mão, o qual acabei encontrando muito tempo depois, meio amassado e com uma das fotos da capa devidamente recortada.

Por meio dessa historiazinha aparentemente banal, só podemos chegar a uma constatação. Apesar de todos tentarmos demonstrar um certo grau de compaixão e solidariedade, a verdade é que o ser humano não está nem aí para as tragédias que acontecem com seus vizinhos. A gente fica observando na TV aquele monte de gente no Rio de Janeiro que perdeu tudo, suas casas, suas famílias, sua dignidade, e depois de alguns segundos fazendo cara de tristeza, mudamos de canal para assistir a estréia do Corinthians no Campeonato Paulista. Ou ao último capítulo da novela.

Só nos preocupamos mesmo quando a água bate nos nossos devidos umbigos.

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