Para o alto e avante!

Minha mãe, uma vez, brincando comigo, me falou uma coisa que, mal sabia ela, me marcaria para o resto da vida. Foi quando, assistindo um desenho animado na TV junto comigo – acho que era do Super-Homem, do Homem-de-Ferro, sei lá – ela me perguntou, como quem não quer nada:

– Se você fosse um super-herói, que poder você gostaria de ter?

Na hora assim, acho que por causa do Super-Homem, eu falei que queria ser super-forte para poder destruir todos os meus inimigos, e também ter visão de raixo-x, e também ser invulnerável, e também…

– Não. Você tem que escolher um poder só. Qual você escolhe?

E eu fiquei ali, paralisado, naquela dúvida terrível. Ser forte? Ser forte seria bom, para poder bater no João Pedro que vivia me me atazanando na escola, eu ia dar um murro bem na barriga dele e depois eu… eu… não. Forte não. Visão de raio-x seria mais legal! Daria para ver através das paredes, ver o que os outros têm dentro dos bolsos, talvez até ver dentro do banheiro das meninas e… não. Também não. O melhor seria ser invulnerável, ninguém mais ia poder me bater, nem me machucar, e eu não ia mais sentir dor nenhuma e… Bem, e aí a minha mãe foi até a janela, deu uma puxadinha na cortina, olhou para o céu e disse:

– Eu queria mesmo era voar.

É, voar seria legal. Mas do que adiantava poder voar se a gente fosse um fracote? Se qualquer um pudesse dar um tiro na gente e a gente caísse morto aqui embaixo? Voar não era nada comparado com uma visão de raio-x, oras, já que a gente podia olhar tudo o que os outros estavam fazendo sem eles saberem. Voar… Voar é coisa para menininha. Não era à toa que vinha da cabeça da minha mãe.

Mas eu fiquei com esse negócio na minha cabeça. E não foi por uns dias não. Para falar a verdade, até hoje eu penso nisso. A minha mãe ali, olhando pela janela, dizendo que o que ela queria mesmo era voar. E, hoje em dia, eu começo a entender o que é que minha mãe estava querendo dizer.

Voar é pura diversão. O cara não precisa voar para ser super-herói. Ele pode se pendurar em teias, em cordas, ou até mesmo dar uns pulos bem grandes, como o Hulk.

Agora, voar é mais para fugir do que para enfrentar. Fugir, especialmente, dessa vidinha boba e tediosa que a gente leva, que é o que a minha mãe devia estar querendo naquele dia, tantos anos atrás.

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