O primeiro dia

Eu não sei se já contei aqui para vocês, mas eu dei muito trabalho nos meus primeiros tempos de escola. Não, não é que eu fosse um moleque muito arteiro, nem nada disso. É que, nem bem meu pai me deixava no colégio, e eu tinha que correr para o banheiro para vomitar. Tudo bem se o negócio tivesse acontecido só nos primeiros dias do pré-primário. Mas não. Minhas ânsias aconteciam todo começo de ano, até eu quase chegar na universidade. Não sei o que era. Imagino que fosse o cheiro. Todo aquele plástico de encadernar cadernos, massinhas de modelar, as crianças suadas, o pó de giz tomando as salas e os corredores. Para ser sincero com vocês, até hoje eu não me sinto muito bem quando abro uma mochila de escola das crianças. É só subir aquele cheiro de apostila misturado com restos de elma chips que meus olhos começam a lacrimejar e alguma coisa azeda borbulha no fundo do meu estômago.

Mas o pior é que a coisa não ficou só por aí. Seja lá de que maneira eu tenha adquirido esse trauma, acabei transferindo-o também para o meu emprego. Pois veja você que, depois de passar uns dias descansando, voltei à ativa ainda ontem. No entanto, nem bem adentrei o escritório, e todo aquele pesadelo infantil subiu novamente pela minha glote, obrigando-me a correr para o banheiro antes mesmo de cumprimentar os patrões e os companheiros de trabalho. Quando voltei, ainda tive de aguentar piadinhas sem graça sobre o estado do meu fígado (que realmente está em frangalhos) e um certo receio dos colegas apertarem a minha mão mesmo depois de quinze dias sem notícias.

Tenho certeza que, do mesmo modo que acontecia na escola, daqui alguns dias meu estômago irá se estabilizar e só voltarei a sentir alguma coisa parecida quando voltar das próximas férias que, infelizmente, ainda estão bem longe de acontecer. Só que isso é um negócio que incomoda. Nossos primeiros dias deveriam ser marcados por reencontros agradáveis, por abraços entusiasmados, por um excitante ouvir e contar histórias de festas e viagens. Mas, para mim, os primeiros dias, desde os tempos de escola, são sempre esse pesadelo de um eterno ir e vir ao banheiro, remédios efervescentes para o estômago e olhares zombeteiros dos colegas.

Eu só fico torcendo para que os primeiros dias da Dilma sejam um pouco menos aborrecidos que os meus. Afinal, ela já vai ter quatro anos bem azedos pela frente

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