Alalaô-ôôô-ôôô

Eu sou um jornalista que ganha a vida com publicidade. Ou um publicitário que encasquetou que também era jornalista. Tanto faz. O negócio é que eu trabalho em duas profissões que são afetadas diretamente pelas datas comemorativas. E isso, à vezes, pode se tornar um inferno.

Na agência em que trabalho, por exemplo, chega perto de dezembro e começam as encomendas de campanhas e cartões com mensagens natalinas. Tudo bem se fossem uns dois ou três trabalhos. Dá para ser criativo em duas ou três idéias versando sobre o mesmo tema. Dá para falar da emoção do reencontro com familiares distantes, ou então da solidariedade que invade nossos corações, ou até mesmo dos embalos gastronômicos das ceias. Mas, vamos ser sinceros: não dá para ser criativo com dezenas de clientes.

E é do mesmo jeito com o jornalismo. Quem é que não está cansado de ver aquela velha reportagem que se repete todos os anos em todos os canais de TV, com o repórter em primeiro plano e um corredor de shopping ao fundo (ou a principal rua do centro comercial), lotado de clientes e sacolas? Ou então aquelas entrevistas com as criancinhas, com uma repórter perguntando o que elas pediram para o Papai-Noel? Ou até mesmo sobre aquelas liquidações que acontecem em janeiro? É tudo sempre tão igual que dá tranquilamente para passar uma dessas reportagens de quatro anos atrás em pleno Fantástico desse ano que ninguém vai nem perceber.

E agora (aliás como em todos os anos anteriores) chegou a vez do Carnaval. Nem bem acabaram as festas de fim de ano, podendo-se encontrar ainda várias vitrines e ruas enfeitadas com bolas, laços vermelhos e papais-nóeis, e todo mundo já começa a se coçar por causa do Carnaval.

Gente, espera aí. O meu fígado ainda está todo enrolado com a ceia do reveillon, e esse povo já está pensando no Carnaval? O Carnaval desse ano é só em março, pessoal. Vamos com calma. Ainda temos um longo janeiro pós-férias e um baita de um fevereiro quente aí pela frente. Com tanta data comemorativa assim, uma atrás da outra, já já esse povo vai começar a se atrapalhar e dar ovos de Páscoa no Natal e a comer leitoa assada no Dia da Independência.

Mas o pior vai ser quando soltarem um trio elétrico em pleno dia de Finados, com um bando de mulatas de topless gritando atrás:

– ALALAÔ-ÔÔÔ-ÔÔÔ… MAS QUE CALÔ-ÔÔÔ-ÔÔÔR…

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