Dando descarga

Agora o meu neto ganhou um peixinho dourado. Aliás, o peixinho nem dourado é. É um daqueles “betta”, meio azul, meio preto. É bonitinho, até. Tem umas nadadeiras que parecem véus coloridos. E não dá trabalho nenhum. Ele só fica lá, no aquário, com os olhos esbugalhados, nadando de lá para cá, sem fazer nenhum barulho ou pedindo carinho.

O único problema com esses peixinhos é que eles morrem.

É, morrem.

Tudo bem, você pode argumentar que tudo morre. A gente, inclusive. Mas os peixinhos dourados tem a mania de morrer antes de todo mundo. Eles duram aí, no máximo, um ano, um ano e meio. E olhe lá. Geralmente por um excesso de comida, ou por falta dela, ou porque está frio, ou porque está calor, um dia a gente acorda e pah, lá está o peixinho, flutuando de barriga para cima. Aí a gente tem que jogar na privada, dar descarga, e falar para o neto que o peixinho fugiu. Ou então sair correndo e comprar outro para pôr lugar, antes que o menino acorde e comece a chorar.

Então, na hora que a gente arruma um peixinho de aquário, fica sempre aquele negócio esquisito. Um baixo astral na casa toda. Porque toda manhã a gente levanta e tem que dar uma olhada no aquário, imaginando que o peixinho pode ter morrido durante a noite. E mesmo durante o dia. Simplesmente olhar para o aquário já dá aquele frio no estômago, que a gente sempre sente quando pensa na morte. Na da nossa ou na dos outros.

Ok. Ok. Você pode achar que é paranóia minha. Pode até ser. Mas que mal há em arrumar uma tartaruga? Uma tartaruga também não dá trabalho nenhum, oras. A gente solta ela lá, no quintal, e de vez em quando é só jogar uns restos de comida, uma ou outra banana. Umas folhas de alface. A tartaruga se vira muito bem. E, se você gosta mesmo é de bicho de aquário, tem também aquelas tartarugas de aquário, oras. E elas duram bastante. Umas duram até mais do que a gente mesmo.

– É, mas elas são feias.

– São o quê?

– Feias, oras. Um peixinho dourado enfeita a casa. Ele é colorido. É alegre. Agora, olha só para uma tartaruga. Uma tartaruga é feia. Sem graça. E é sempre daquela cor esquisita.

– Mas que coisa feia, isso é discriminação, sabia?

– Discriminação ou não, o peixinho fica. E está acabado.

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