Conversa entre Otorrinolaringologistas

No início, ele disse que parecia uma gripezinha à toa. Uma dorzinha nas juntas. O nariz escorrendo. Mas, uma manhã, quase nem conseguiu levantar. Levantou na marra. Tomou um café e foi trabalhar. Na parte da tarde, não deu conta. Voltou para casa, nem almoçou. A sogra apareceu com uns chazinhos não sei do quê. A mulher deu um Resprim. Mas não teve jeito. Caiu de cama.

Mas isso não foi nada comparado com o ouvido esquerdo. Umas fisgadas. Depois, uma dor de dar cabeçada na parede. Tomou mais uns remédios por conta mesmo. Uns analgésicos. Tentou umas toalhas quentes. Pensou em pingar alguma coisa lá dentro, ou enfiar um cotonete, mas a mulher não deixou. “Melhor procurar um otorrino”, ela disse.

– Pelo menos, a mulher era esclarecida.

Pois é. E foi assim que ele apareceu lá no consultório. Eu olhei lá dentro. O ouvido esquerdo estava bem inflamado. Dei uma receita de mais uns analgésicos e um antibiótico. Depois de uns dias, ele disse que a dor até passou. Mas aí começaram os zumbidos. E ele voltou para o consultório.

– Tá ouvindo esse zumbido, doutor?

– Que zumbido?

– ESSE zumbido, oras. Será que é o ar-condicionado?

– O ar está desligado.

Ele disse que era alguma coisa entre um enxame de abelha e um carrinho de Fórmula Um. Bzzzzzzzzzzzzzzzzz. Passaram-se mais uns dias, parece que se acostumou. Era só deixar alguma coisa barulhenta ligada por perto, a televisão ou até mesmo um ventilador, que o zumbido e os barulhos se misturavam. Já dava até para dormir. E foi aí que os zumbidos também sumiram.

– Ah, que bom…

– Só que sumiram os barulhos todos junto.

– Como assim, “os barulhos todos”?

– Os barulhos, oras. Ele não ouvia mais nada do ouvido esquerdo. Ficou completamente surdo.

– Nossa!

– Pois é. E hoje ele apareceu lá no consultório de novo.

– Isso cheira problema. Ele está pensando em te processar?

– Que nada. Ele veio é com uma conversa esquisita pra cima de mim.

– Conversa esquisita?

– É. Ele veio me falar que nunca na vida teve tanta paz. Que já não ouve mais ninguém xingando no trânsito. Que não se incomoda com o som de alarmes de carro disparando pela madrugada. E que não consegue mais ouvir a voz do Roberto Carlos. Para falar a verdade, ele veio me pedir se dava para deixar ele surdo do outro ouvido também.

– E o que foi que você disse?

– Eu disse que ia pensar. Tem o problema da ética médica, não tem?

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