O dia seguinte

Tem coisas que a gente descobre que teria tornado nossas vidas muito mais tranquilas se a gente tivesse ouvido os mais velhos. Pena que ninguém ouve os mais velhos. Ninguém ouvia. Ninguém ouve. Ninguém ouvirá. Então, eu só vou comentar aqui assim, por desencargo de consciência, uma coisa que eu descobri sozinho já faz alguns anos, mas que o meu pai já havia me dito uma vez, quando eu tinha acabado de sair da adolescência. E que o meu próprio pai já tinha descoberto com o pai dele, quando tinha mais ou menos a mesma idade.

Toda vez que acontece uma eleição, os mais jovens acham que, no dia seguinte, as coisas vão mudar de uma maneira nunca vista antes. Não é necessário nem que o eleito assuma, nem nada disso. Assim como que por milagre, de uma hora para outra, tudo vai mudar irreversivelmente. Pode ser para o bem ou para o mal, mas vai ser de uma maneira rápida, dramática e avassaladora. A gente chega mesmo a ter a impressão de que até as cores dos dias mudarão. Quando o Lula foi eleito pela primeira vez, por exemplo, eu mesmo achei que o dia amanheceria, no mínimo, muito mais claro e brilhante. E com um arco-íris no horizonte. Aliás, um apenas não. Para falar a verdade para vocês, eu achava que, depois do Partido dos Trabalhadores finalmente eleger um presidente no Brasil, ao abrir a janela eu me depararia com dúzias de arco-íris coloridos, pincelando algumas nuvens com luzes cor-de-rosa, outras em tons de verde e lilás, encimadas por um estonteante sol tropical de verão.

Bem, é claro que nada disso aconteceu. Que eu me lembre, a manhã depois da eleição do Lula amanheceu até meio nublada, com chuviscos esporádicos durante o dia que, aliás, se estenderam durante todos os oito anos de mandato, com direito a ocasionais chuvas, raios, trovões e uma ou outra tempestade de granizo.

Então, durante essas últimas eleições, volta e meia eu cheguei a aconselhar alguns jovens para que não expusessem tanto suas opiniões a respeito de um ou outro candidato, e que evitassem entrar em atritos mais sérios com seus amigos, patrões ou colegas de trabalho. Afinal, as eleições passam e, daqui a poucos dias, ninguém nem se lembrará como ou quando elas ocorreram.

Os seus amigos, patrões e colegas, no entanto, continuarão a fazer parte de todos os dias de sua vida. Assim como os vencedores das eleições. E esses caras, meu chapa, são vingativos.

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