A barraca no meio da sala

Meu neto vive me pedindo para montar uma cabaninha. A coisa começou no rancho do meu sogro, onde os quartos possuem, cada um, três ou quatro desses beliches de dois andares. Uma vez, minha mulher resolveu pendurar uns lençóis no beliche de cima, para que o sol não batesse diretamente no meu neto, enquanto ele dormia. Foi a conta de ele acordar e não querer mais sair de lá. Passou o resto do fim de semana escarafunchando entre cobertas e travesseiros dentro de sua cabaninha. Até comia por lá mesmo, deixando de lado as pescarias e os jogos de futebol com os primos.

Depois disso, volta e meia estamos ali, em casa, assistindo um desenho do Ben 10 ou brincando de qualquer coisa, e ele pára, me olha e diz naquele tom que as crianças se sabem fazer irresistíveis: – Vô, vamos fazer uma cabaninha? – E toca a gente correr atrás de cobertas, lençóis, colchonetes e outros artefatos, se possível macios e não pontiagudos, tudo para criar uma cabaninha razoavelmente decente e que se suporte de pé ao menos os dez primeiros minutos de entusiasmo de uma criança de três anos.

Eu nunca entendi direito o que ele via naquilo. Afinal, que graça tinha passar um belo dia ensolarado de primavera debaixo de panos mal-ajambrados, entre edredons e almofadas cobertos de restos de pipoca e catchup? Bem, isso até o dia em que eu entrei na cabaninha com ele. Não foi fácil, confesso. Além das minhas costas já não se curvarem tão bem quanto antigamente, a cabaninha improvisada era bastante frágil e pequena para alguém do meu tamanho.

No entanto, quando consegui, fiquei assombrado. Engatinhando, fui entrando no mundinho do meu neto e, ainda com as pernas de fora, fui reparando nos bonequinhos pendurados no teto, nos pacotes de bolacha cuidadosamente empilhados num dos cantos da barraca, nos carrinhos sem roda dentro da caixa de sapatos, na bola de futebol murcha que ele ganhou no aniversário de um ano, e aquele cheirinho engraçado de chulé de criança. Me veio a indescritível sensação de já ter estado ali há muitos anos e, no entanto, apesar do tempo, tudo parecia exatamente igual eu tinha deixado.

Nesse Dia das Crianças, comprei uma barraca, dessas de verdade, de acampamento, e dei de presente para o meu neto. Juntos, ele e eu a montamos bem no meio da minha sala de visitas, na frente da televisão. Tudo bem. Provavelmente a barraca não ficará aqui por muito tempo.

Mas, também, quem ficará?

Uma resposta

  1. “Chulé engraçado”. Jamais me ocorreria uma metáfora dessas. Mas crianças fazem a gente liberar a imaginação mesmo.

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