A infância é contagiosa

Ser criança é extremamente contagioso. Explicando-me melhor, ficar com uma criança durante um certo tempo faz com que nós, adultos, nos transformemos, momentaneamente, em crianças também. Esse é um fato indiscutível e que pode ser comprovado facilmente. Basta você ficar observando como é que as pessoas começam a falar assim que vêem uma criança.

É um tal de bububu pra cá, glugluglu pra lá que eu vou te falar uma coisa. Dá até nos nervos. Quer dizer, dá nos nervos de quem NÃO está perto da criança porque, quando é a nossa vez, a gente faz exatamente a mesma coisa e começa a fazer caretas e barulhos com a língua tipos bzu bzu bzu e ploc poloc ploc e a falar com voz de Pato Donald maish qui buxexinha lindinha qui o nenezinho tem, ou di quem é esse umbiguinho mais bunitinho do titiu?

É claro que isso não é coisa da qual você precise se envergonhar. Todo mundo faz esse tipo de coisa. Quem não faz é que deve ser olhado com uma certa desconfiança porque, com toda certeza do mundo, ele deve ter algum problema com a infância, com crianças, sei lá. Em todo caso, é sempre bom tomar cuidado. Sabe como é, hoje em dia tá assim de maluco por aí.

Acontece que o meu caso é muito mais grave. Não que eu não adore brincar com crianças. Muito pelo contrário. Quando estou com uma criança, além de todos aqueles barulhos e caretas esquisitas que todo mundo faz, eu começo a agir exatamente como as crianças agem, com todas as suas birras, teimosias e tudo o mais. E, agora, com a presença diária do meu neto, a coisa desandou de vez. Antigamente, após ficar um certo tempo com uma criança, eu rapidamente me recompunha e voltava a ser adulto num piscar de olhos. Mas, agora, não estou mais conseguindo. Mesmo horas depois de deixar meu neto lá em casa, eu continuo a agir como uma criança de três anos de idade.

Para você ver só o tamanho da encrenca, outro dia desses, quando eu dirigia para o trabalho, um motoqueiro entrou numa preferencial bem na minha frente. Após uma brecada daquelas de deixar marca no asfalto, ficamos parados no meio da rua, a moto dele a poucos centímetros da minha porta. Aquilo me subiu à cabeça. Quando dei por mim, estava abrindo a janela e, já com a cabeça do lado de fora, gritei, enfurecido:

– Eu, eu… estou de mal, viu! – e desandei a chorar.

Será que Alzheimer começa assim, hem?

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