Querido, vamos levar as crianças hoje à noite para ver uns animais sendo torturados?

Uma vez, ainda na escola, na aula de Biologia, eu precisei abrir um sapo ao meio. Para conhecer a anatomia dele, e tudo o mais. Imagino que um monte de gente passou por isso. Inclusive, por aquele lance de colocar o coração do sapo dentro de uma salmoura, e ficar observando como ele continuava batendo, mesmo fora do corpo do bicho.

Pois eu vou te falar uma coisa. Essa é uma das minhas maiores assombrações do passado. Quantas vezes eu já não sonhei, e sonho até hoje, com aquele sapo ali, em cima da mesa, aberto como um frango de quermesse esperando ser recheado de farofa. E aquele coração mergulhado num vidro transparente, bombeando restinhos de sangue e formando pequenos redemoinhos cor-de-rosa na água? Isso é um pesadelo, gente. Ainda mais se a gente pensar que obrigam crianças a fazerem isso.

Para quem não se lembra, uma das cenas mais engraçadas e – porque não? – edificantes do filme “ET”, do Spielberg, é aquela em que o garoto Elliott, que tem umas ligações paranormais com o pequeno extraterrestre, acaba ficando meio grogue e resolve libertar todos os sapos dos colegas numa dessas aulas de anatomia. Mesmo com o professor dizendo que os sapos “não iam sentir dor”, o garoto convence a classe toda a tirar os sapos das suas jarras e soltá-los no jardim e, como um verdadeiro herói, ainda ganha de recompensa um beijo da garota mais bonita da classe.

Talvez seja por isso que eu odeie rodeios, e tudo o que envolva a tortura aos animais. Porque, quando tive oportunidade, não fiz nada pelos pobres coitados. Mas vamos deixar bem claro uma coisa. Eu não tenho nada contra uma boa picanha mal passada, ou de um torresminho de porco com limão. Trata-se, aí, da luta pela sobrevivência. Ninguém, afinal, pode culpar um leão por comer uma zebra. Ou um jacaré de devorar uma capivara. Mas, que eu saiba, um leão não monta numa zebra e aperta uma corda em torno do saco dela até ela começar a pular feito uma maluca. Nem um jacaré fica chacoalhando um pano vermelho na frente da capivara, enquanto enfia espadas fininhas até ela morrer. Isso, quem faz, é o homem. E, às vezes, nem comemos o bicho. Só torturamos mesmo. Por diversão.

Mas podem guardar aí, na cabeça de vocês. Um dia, eu ainda entro numa dessas Exposições e, tal e qual o Elliott do “ET”, vou libertar todos os animais que encontrar pela frente. Tudo bem, muito provavelmente não vai adiantar nada, e os bois e os cavalos que eu soltei acabem sendo recapturados antes mesmo de eu ser detido pela polícia.

Mas, quem sabe, ainda dê tempo de eu ganhar um beijo da moça mais bonita da classe, hem?

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