A televisãozona

Foi a primeira vez que o meu neto entrou num cinema. Antes de chegar lá, ainda no carro, ele vinha perguntando o que era esse tal de cinema. Entre as muitas explicações que tentamos dar, a mais certeira foi a da minha filha.

– É que nem uma televisão, nenê. Só que DESSE tamanhão.

Ele ouvia, olhava pela janela e, como toda criança de sua idade, já saía perguntando mais coisas sobre o tal do cinema. Primeiro ele perguntou por que a gente não ficava em casa e assistia a nossa televisão mesmo.

– A televisão de casa também é grande, vô.

A gente tentava responder que cinema era mais legal, que era bem grandão mesmo, que parece que a gente está dentro do filme. Ele concordava e olhava pela janela.

– E tem pula-pula no cinema?

Não, pula-pula não tem. E tem rio? Não, rio não tem. E tem peixe? Peixe também não.

– Mas não tem nada no cinema?

Tem, é claro que tem. Mas tem cavalo? Não, cavalo não. E tem doce? Doce tem, e tem um monte de doce! E tem coca-cola? Tem. E tem guaraná? Tem. E tem pipoca? Tem, e é uma pipocona desse tamanho, ó! E ele ria. Quer dizer, ria até a gente entrar lá na sala de exibição e as luzes se apagarem.

– Vô, porque a luz apagou?

– Pra gente assistir o filme, nenê.

– A televisão não aparece de luz acesa?

– Não.

– Então eu não quero essa televisão não, eu quero a lá de casa de casa mesmo que…

E aí começou o filme. E, como num passe de mágica, ele se calou. E os olhos brilharam. Ele até parou um pouco de comer a pipoca, que por sinal já estava mesmo no fim. Meu neto ficou simplesmente encantado com o cinema. Durante a projeção, não parava. Arriscou se aproximar da tela, voltava para seu lugar, olhava em volta, olhava para cima, olhava para a tela de novo.

– Que televisãozona, vô!

Foi a primeira vez que senti inveja dele. Provavelmente, não será a última. E senti inveja por constatar a quanto tempo eu não me encanto com nada. Todas essas tranqueiras tecnológicas que jogam sobre nossos colos todos os dias, essas novas modas, essas novas tendências, parece que já não satisfazem mais a ninguém. Pelo contrário. Parece que estamos sempre querendo mais. Desaprendemos a curtir as pequenas coisas.

– Pequena nada vô, olha só que grandona!

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