Photoshopadas

No seu livro “1984”, o escritor George Orwell criou um personagem que trabalhava no Ministério da Verdade. Seria um ótimo Ministério, é claro, se no caso ele não fizesse justamente o contrário do que seu nome propagandeava. No Ministério da Verdade, os caras pegavam entrevistas, reportagens e fotos antigas e arrumavam conforme o governo precisasse. Tipos, se no ano passado o Lula aparecesse nos jornais abraçado com o, digamos, Ciro Gomes, dizendo que ele daria um ótimo sucessor, quando a gente fosse procurar os jornais hoje em dia encontraria em vez do Ciro, a Dilma, e um texto dizendo dos ótimos trabalhos realizados por ela nos anos anteriores, todos facilmente verificáveis nos arquivos do Ministério da Verdade. Se você for pensar bem, e for um seguidor de Maquiavel, vai perceber que a idéia, em si, é muito boa. Pode não ser lá muito ética, mas que é boa, é boa.

Tão boa que os publicitários a aplicam há muitos anos, sem ninguém fazer nada a respeito. Quem é que nunca viu, num cartaz do McDonald’s , a foto de um McLanche Feliz, com dois hambúrgueres recheados de queijo, alface, tomate, picles, molho especial e pão com gergelim e, na hora que foi comer,  verificou que o tal lanche era, na realidade, menor que uma rodela de laranja, e que o tal molho especial não passava de cebola melecada num mingau gelado?

Pois agora, tem uma proposta na Câmara que prevê tornar obrigatório um aviso de manipulação de imagem, de pessoas ou coisas, em propaganda e publicações. O autor da lei, que já vem sendo chamada de “Lei do Photoshop”, o deputado Wladimir Costa (PMDB-PA), atribui, inclusive, a anorexia e a bulimia de muitas adolescentes à manipulação de imagens de mulheres. Segundo ele, quando nossas crianças vêem aquela mulheres maravilhosas, magérrimas e sem sinais de celulite ou estrias nas páginas da Playboy, querem ficar iguais a elas. O que, obviamente, é impossível. Ou, pelo menos, tão impossível quanto existir um lanche igual àqueles dos cartazes do McDonald’s.

Os publicitários já estão reagindo. Marco Versolato, vice-presidente de criação da agência Young & Rubicam, uma das mais respeitadas do país, disse que a lei “é mais uma restrição exagerada que a publicidade vem sofrendo. Qualquer obra é feita em cima de fantasias e da dramatização do momento real”. Eu, da minha parte, deixava as coisas do jeito que estão. Para ser sincero, eu acho a vida real de uma chatice sem tamanho. Afinal, quem é que quer topar aí, na capa da Playboy, com as celulites da Gisele Bündchen?

Ou, que deus nos ajude, as rugas da Ana Paula Arósio?

Uma resposta

  1. Sou mais a Maria Fernanda Cândido. Com ou sem rugas.

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