Me deu vontade de escrever uma crônica de auto-ajuda

Um dia ou dois depois de eu comprar meu carro novo, um Fiesta zerinho, ainda com pedaços de plástico enroscados debaixo dos bancos, ele levou uma bela duma riscada. O carro estava ali, estacionado na frente de casa, sem fazer mal para ninguém. Eu, sentado na varanda, lendo um jornal e todo orgulhoso de minha mais recente aquisição. Então ouvi um barulho. Como o de unhas raspando em uma lousa. Lembra das lousas? Aquelas coisas pretas que ficavam na frente da sala de aula no tempo em que a gente era criança e ainda não tinham inventado o datashow e o power point? Pois então. Quando a gente passava as unhas sobre as lousas, elas faziam aquele barulho RRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉCC, que arrepiava até os cabelos da nuca. E foi um barulho desses que eu ouvi, vindo direto do meu carro novo.

Era um desses catadores de lixo, com uma espécie de carrinho-de-supermercado feito em casa, cheio de papelão e outras tranqueiras. Provavelmente, já estava no fim do expediente, porque a pilha de lixo estava aí com uns dois metros de altura, tapando completamente a visão do catador. Andando meio às cegas, não conseguiu se desviar do meu Fiestazinha a tempo e saiu arranhando tudo, desde o pára-lama até o começo da porta.  Quando ele olhou para a porcaria que tinha feito, não sabia direito o que fazer. Sem jeito, deu uma lambida nos dedos e esfregou a lataria do carro, tentando, imagino, minimizar um pouco os estragos. Olhou para mim e, num tom um tanto quanto desconsolado, falou:

– Desculpa aí, tio.

E continuou o seu caminho, coçando a cabeça e dando rápidas espiadas para trás. Na esquina, quase que ainda foi atropelado por um Honda Civic, de cujo motorista ouviu um palavrão que, para falar a verdade, estava bem enroscado na minha garganta também. Não vou dizer que eu estava calmo porque eu não estava. Mas, para quem olhasse, eu até que me comportei bem. Coloquei meu jornal de lado. Levantei e fui caminhando lentamente até o carro para avaliar de quanto tinha sido o prejuízo. E eu vou te falar uma coisa. O cara caprichou. Eram um ou dois riscos, fundos e absolutamente imunes a qualquer tentativa de meros retoques na pintura. Era coisa para se trocar a lataria.

Isso faz quase um ano. Não troquei a lataria, nem fiz remendo nenhum. Deixei os riscos lá. Eles são muito úteis para me lembrarem de vez em quando da importância excessiva que damos para certas coisas. E da pouca importância que damos para outras.

Uma resposta

  1. Escrever auto-ajuda só ajuda o autor! (essa tirada é minha e ninguém tasca…)

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