Tem cada gente doida no mundo, né?

Se eu já não consigo entender um soldado morrendo numa guerra idiota como essa que acontece no Iraque, ou em qualquer outra guerra, imagine se dá para entender um cartunista morrendo ao lado do seu filho, cada um com quatro tiros disparados a queima roupa.

Para quem é cinquentão, como eu, o Glauco era daqueles caras que sempre estiveram por aí. A gente abria o jornal e topava com um daqueles narigudinhos dele, cheio de pernas e braços, falando algum palavrão ou apertando a bunda de um guarda.

Tudo bem. Ultimamente, ele andava meio repetitivo. E, para falar a verdade, volta e meia eu nem lia a tirinha dele no site da “Folha de S.Paulo”, sabendo que eu ia encontrar ali mais ou menos a mesma coisa que encontrei ontem e anteontem. Mas não é disso que eu queria falar.

Eu queria falar sobre outra coisa. O Glauco, para quem não sabe, além de ter sido um cartunista revolucionário que, junto com o Angeli e o Laerte, deu uma nova vida para os quadrinhos no Brasil, era também o fundador de uma Igreja em Osasco, a Céu de Maria, um templo de Santo Daime. O Santo Daime é aquela seita que, em seus rituais, inclui um chá feito de uma espécie de cipó amazônico que causa uns efeitos esquisitões em quem bebe, como alucinações visuais e auditivas. Os amigos dizem que a tal igreja ajudou bastante o Glauco, que andava meio enrolado com umas drogas mais barra pesada do que qualquer cipozinho amazônico, e que, ultimamente, ele estava um pouco mais calmo e centrado.

Bem, aí, um cara entrou na casa do Glauco dizendo que era JESUS CRISTO, tirou um revólver e deu quatro tiros no cartunista e mais quatro no filho dele, matando os dois que nem tiveram tempo de reagir. Veja bem. O Glauco, um dos caras mais sarcásticos, gozadores e (porque não?) malucos que o Brasil conheceu nos últimos anos, foi assassinado por um sujeitinho que achava que era JESUS CRISTO. Não parece uma… piada?

Faz lembrar de uma história que li. Uma vez, o Bernardo Ajzenber, na época diretor da “Folha de S.Paulo”, levou o Glauco para conversar com um alto executivo, que precisava de um ilustrador famoso para um trabalho. Segundo o Ajzenber, “A sala do executivo era típica, as roupas também (gravata, terno etc), assim como o jeito do executivo falar: o sorriso na hora certa, as gesticulações comedidas, tudo exato, claro, do começo ao fim. Do outro lado estava o Glauco: atabalhoado, aquelas roupas despretensiosas, cabelos desajustados, aparentemente nas nuvens, mas de ouvido atento, sorriso tímido, mas franco – uma criança na sala do diretor da escola.” Ao final, quando saíram, o Glauco se virou para o Bernardo e disse sorrindo, perplexo:

– Tem cada gente doida no mundo, né?

2 Respostas

  1. Pois é! pra vc ver como a vida é uma hironia…Glauco morreu nas mão daquilo que ele mais explorava usando o bom humor, mas neste caso a piada não teve graça nenhuma. E ainda por cima temos que aguentar esses pastores evangélicos desocupados dizendo que Glauco morreu nas mão daquilo que elel mesmo criou, ou seja , o próprio diabo…vou usar sua frase pra pra criar meu desabafo!

    – Tem cada FDP desocupado neste mundo, né?

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