Vou virar dona-de-casa

Tudo bem. Eu até entendo esse negócio todo de se realizar profissionalmente. Que as pessoas nascem com um ideal. Uma missão. Talvez até uma espécie de talento especial, um dom ou uma vocação que, se não for saciada, vai causar frustração para o resto da vida. Eu também já pensei assim. Eu queria ser um grande escritor, ser traduzido para várias línguas, ser convidado para dar palestras na ONU e ganhar um título de doutor “honoris causa” da Harvard University. E, se fosse possível, também gostaria de nem poder sair de casa por causa do assédio dos fãs. Mas, com o tempo e a experiência, fui esquecendo esse negócio todo e cheguei à conclusão que, o que eu queria mesmo, para terminar os meus dias em paz, era ser sustentado pela minha mulher. Ou, como alternativa, entrar num concurso público.

No primeiro caso, embora possa parecer bem mais fácil ser sustentado pela mulher que entrar, por exemplo, num concurso do Banco do Brasil, tem todo esse negócio dos vizinhos e os parentes começarem a me apontar pelas ruas com aquela cara de aquele-ali-é-sustentado-pela-mulher. Que um cara que é sustentado pela mulher não presta e tudo o mais.

Mas isso é de uma injustiça sem tamanho. Veja bem. Quantas mulheres você não conhece que ainda ficam em casa, fazendo o serviço doméstico, enquanto seus maridos saem para a labuta? Pois tem um monte. Algumas delas, inclusive, são as mulheres que a gente mais admira, como nossas avós ou nossas mães. É claro que essas mulheres estão se tornando cada dia mais raras, mas que elas ainda existem, existem. E ninguém fica apontando para elas dizendo que elas não prestam e cochichando olha-lá-aquela-é-sustentada-pelo-marido. Em nossa sociedade, a mulher leva essa grande vantagem sobre o homem. Mesmo se não der nada certo na vida dela, sobra sempre essa opção. Ela pode ficar em casa, cuidando das coisas, das crianças e tudo o mais. Mas o homem não tem essa opção. E não adianta o marido ser um ótimo cozinheiro, lavar e passar com esmero, levar e buscar as crianças na escola e ainda cumprir suas obrigações conjugais satisfatoriamente. Não. O marido que fica em casa e a esposa trabalha fora e ganha, digamos, o sustento do lar, vai ser sempre olhado como um vagabundo. Um aproveitador. Um a-mulher-dele-é-tão-boa-como-é-que-foi-arrumar-um-marido-tão-sem-vergonha-como-esse.

Dessa maneira, resolvi prestar uns concursos. Vou tentar com afinco por um ou dois anos entrar aí num desses concursos para Analista Técnico Administrativo, Agente Técnico Legislativo ou coisa que o valha. Se não der certo, fazer o quê? Vou é virar dona-de-casa mesmo e que se dane o mundo.

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2 Respostas

  1. dona-de-casa, não!! dono-de-casa ou do-lar, com muito orgulho! risos.

    • do lar é legal… se eu tivesse visto antes, tinha mudado o título para VOU VIRAR DO-LAR

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